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Temos que falar sobre data de validade dos medicamentos

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Nos EUA, descarte custa US$ 765 bilhões por ano, quase um quarto dos gastos com saúde no país.

É prática comum dos brasileiros manter uma “farmácia caseira”, aquela caixa ou gaveta de remédios para socorrer a família quando aparece uma dor de cabeça ou de estômago, arranhões, cortes ou outros pequenos incidentes de saúde. Mas, como a “farmácia” fica estocada, pode vencer o prazo de validade de alguns produtos.

É comum que esses remédios estejam com o prazo de validade vencido justamente quando mais precisamos deles.

Naturalmente, o pressuposto dos consumidores é que o vencimento do prazo de validade significa que os remédios perderam a eficácia, sendo portanto incapazes de trazer alívio para a doença para a qual servem como solução. E, por isso, esses remédios devem ser “jogados fora” e, é claro, ser substituídos por remédios novos, que poderão passar pelo mesmo processo de perda de validade.

Não só nas residências, mas também nos hospitais e centros de saúde, os medicamentos com prazo de validade expirado são descartados. Não há levantamentos desse volume no Brasil, mas, para os Estados Unidos, o volume de medicamentos vencidos e materiais hospitalares que são descartados monta a US$ 765 bilhões por ano, o que equivale a quase um quarto de todos os gastos com saúde naquele país, segundo a Propublica, entidade de jornalismo investigativo dos EUA.

O problema é que muitos desses medicamentos que são desprezados poderiam ter sido aproveitados por pessoas em necessidade, para amenizar uma dor ou fazer um tratamento, por exemplo.

Uma pesquisa feita pela Food and Drug Administration (FDA), agência federal norte-americana do departamento de saúde e serviços humanos, em parceria com a Universidade de Princeton, estudou 122 remédios “vencidos” e revelou que 88% dos lotes tiveram uma vida útil média de 66 meses além do prazo de validade estipulado, com período variável entre os lotes. Ou seja, por muito tempo mantiveram as suas funcionalidades e poderiam ter sido aproveitados.

Buscando evitar esse desperdício, os prazos de vencimento dos medicamentos deveriam ser estudados pela indústria farmacêutica. É claro que o quesito segurança é fundamental no caso dos medicamentos, mas por que não diminuir a “margem de segurança” que leva ao descarte desnecessário? Há uma distância entre garantir a segurança dos consumidores e estabelecer uma margem tão grande para assegurar que os remédios vão funcionar com uma probabilidade altíssima, desta forma terminando por ser um incentivo ao desperdício de produtos cujo valor agregado e custo são muito altos, além de ter um descarte muito delicado.

E por que a indústria farmacêutica se empenharia na extensão da vida útil dos medicamentos? Afinal, quanto mais os consumidores são forçados a descartarem seus medicamentos vencidos, maior a lucratividade das fabricantes com a venda de novos remédios. Entra aí o importante papel dos governos, que devem, por meio de legislação, forçar a execução de estudos e testes que contribuam para que os fabricantes tenham subsídios confiáveis para estender o prazo de validade mantendo a segurança para o consumidor.

A FDA também criou um programa de extensão dos prazos de validade dos medicamentos a pedido de militares norte-americanos, com o objetivo de ajudar o exército a reduzir custos na compra de novos medicamentos estocados para possíveis emergências e que, por falta de uso, vinham a expirar e tinham que ser descartados.

Todos os anos, os medicamentos estocados pelos militares são selecionados com base em seu valor monetário, quantidade no estoque e proximidade do vencimento e são analisados para determinar a possível extensão segura de seus prazos de validade. Em muitos casos, os medicamentos podem ser usados além do prazo estampado em suas embalagens desde que manuseados e armazenados corretamente.

É instintivo levar esse raciocínio para a nossa “farmácia caseira”, mas não estou aqui, irresponsavelmente, sugerindo que a população passe a consumir indiscriminadamente os remédios com prazo vencido. No caso de remédios de uso contínuo, como antibióticos para o tratamento de infecções ou medicamentos de controle de doenças crônicas, a perda de sua eficácia pode ser muito prejudicial ao paciente e, portanto, é melhor não se arriscar e substituir o remédio vencido por um novo que esteja dentro do prazo de validade, como ensina uma reportagem do portal do Dr. Drauzio Varella.

Mas tomar um analgésico vencido há pouco tempo quando surge uma dor de cabeça, por exemplo, pode resultar unicamente na demora do medicamento em surtir efeito caso tenha havido alguma perda de potência dos elementos ativos da fórmula, e raramente há efeitos adversos em consumi-lo. Essa é uma boa regra para usar no caso de medicamentos de uso pontual em doenças sem gravidade.

De qualquer forma, os primeiros passos para evitar o desperdício de qualquer produto, em especial os perecíveis, são o planejamento e a compra adequada. Para isso, é interessante observar os próprios hábitos, e estimar a frequência com a qual determinados medicamentos são consumidos, para ir reduzindo o estoque gradativamente. É cada vez mais fácil e rápido adquirir certos produtos, inclusive remédios, através de aplicativos e pela internet. Não há mais porque manter uma ‘farmácia’ totalmente estocada em casa, quando se consegue o medicamento rapidamente quando é necessário.

Além de tudo isso, muitas vezes não nos atentamos ou não temos locais adequados em casa para atender às recomendações de armazenamento descritas nas embalagens e acabamos por reduzir ainda mais a vida útil dos medicamentos, aumentando o desperdício.

Outro ponto que merece atenção especial do consumidor é o descarte, caso não seja possível consumir tudo o que foi adquirido: medicamentos não devem ser jogados no lixo comum, pois as substâncias químicas presentes em sua composição podem contaminar o solo, chegar aos rios e até contaminar a água que bebemos. Além disso, se forem encontrados e ingeridos indevidamente por bebês, crianças ou animais, podem causar intoxicações e reações. Por isso, o ideal é procurar um posto de coleta especializado perto da sua casa o que, verdade seja dita, não é tão fácil de encontrar. Sites como o descarteconsciente.com.br e o eCycle.com.br são boas ferramentas para localizar um ponto de coleta.

Atualmente, está em discussão um sistema de descarte de medicamentos pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) para que a população seja informada sobre o descarte seguro e ambientalmente correto dos medicamentos e que os meios para sua execução sejam acessíveis.

Cada um de nós circula em diferentes esferas sociais –família, grupo de amigos, trabalho etc–, o que nos proporciona várias oportunidades de praticar o consumo consciente. Seja no cuidado da sua farmacinha caseira, seja na pressão para mudanças de regulação e legislação pelo governo e das empresas, é preciso sempre lembrar que podemos, sim, fazer a diferença.

Fonte: Folha de S. Paulo

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