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Genérico contra ansiedade some nos EUA

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A súbita escassez, no mercado, de uma das drogas mais seguras contra a ansiedade gerou alarme entre aqueles que dependem da medicação, o buspirona, para passar o dia sem ansiedade debilitante e ataques de pânico. Os médicos também estão preocupados, porque não há informações sobre quando a oferta será retomada, dificultando o tratamento dos pacientes.

Shelby Vittek, de 27 anos, escritora em Nova Jersey, ligou em vão para dezenas de farmácias em Nova Jersey e na Pensilvânia, na tentativa de localizar a medicação depois que seu farmacêutico lhe disse que a droga já havia sido encomendada, mas que não havia previsão de entrega. Ela acabou descontinuando lentamente o uso, distribuindo seus últimos três comprimidos durante seis dias para evitar ficar sem o remédio antes de iniciar a difícil transição para um antidepressivo. “Perdi praticamente mais de um mês de trabalho e voltei a me sentir como eu mesma”, disse ela.

Uma mulher de 34 anos de Nova York, que não conseguiu comprar seu buspirona em janeiro, disse que não conseguia dormir e teve ataques de pânico tão graves que teve de tomar o Klonopin, uma droga de que ela não gosta, porque pode viciar. “Estou tentando cuidar da minha ansiedade, e isso está me dando um ataque de pânico”, disse ela, que já sofreu agressão sexual e pediu que não fosse identificada.

“Isso está mexendo com a estabilidade clínica das pessoas”, disse o dr. Dennis Glick, psiquiatra em Greenbelt, Maryland. “Quando você tem um paciente em um tratamento complicado e equilibrado, não quer que ele deixe de tomar o remédio arbitrariamente.” Glick disse que está na prática há 34 anos, “e honestamente não me lembro de questões como essa interferindo em tratamentos até alguns anos atrás”.

A escassez persistente está ocorrendo com centenas de drogas nos últimos anos, desde a morfina até fluidos intravenosos. Muitos medicamentos psiquiátricos utilizados para tratar a esquizofrenia, além de alguns estimulantes que tratam o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, estão em falta. A pior escassez ocorre com os genéricos, os remédios sem marca, drogas como o buspirona, cujos preços caíram tanto que muitos fabricantes dizem que não lucram com eles.

Um em cada cinco americanos teve um transtorno de ansiedade no ano passado, de acordo com o Instituto Nacional de Saúde Mental, embora relativamente poucos usem buspirona, e os médicos não estão de acordo em relação à sua eficácia. Mas os peritos dizem que é uma droga muito mais segura que outros remédios contra a ansiedade, que contêm benzodiazepina, como o Valium e o Xanax, além de ter baixa probabilidade de causar danos com uma overdose ou quando combinada com outros medicamentos como os opioides. Ele não é viciante, tem poucos efeitos colaterais, não causa disfunção sexual e é muito barato.

Pode também ser usado para ampliar os efeitos de antidepressivos e ajudar a aliviar a disfunção sexual causada por estes.

E é quase impossível substituí-lo por uma droga alternativa, porque, ao contrário dos antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina, por exemplo, dos quais há cinco ou seis opções, não existe nenhum medicamento equivalente que funcione da mesma maneira. “O buspirona é único em sua classe. Ele ocupa um nicho único”, disse o dr. Elias Aboujaoude, professor clínico e chefe da seção de transtornos de ansiedade da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford.

Para um paciente com ansiedade e um histórico de depressão, condições que muitas vezes se sobrepõem, “você pode querer evitar um benzodiazepínico, porque ele também pode ser depressor, e o buspirona é uma opção mais segura, mais razoável”, disse ele.

Os pacientes também nem podem pagar mais para comprar uma versão de marca do buspirona, o Buspar, porque ele não é mais produzido.

As prescrições de buspirona nos Estados Unidos aumentaram de 10,2 milhões em 2015 para 13,5 milhões em 2017, número que, segundo cálculos, pode ter chegado a quase 15 milhões no ano passado, de acordo com a IQVIA, uma provedora de tecnologia de cuidados de saúde e análise de dados. As razões para o aumento não são claras, embora a epidemia de opioides possa ter deixado alguns médicos mais relutantes em prescrever medicamentos ansiolíticos altamente viciantes, que podem ser letais quando combinados com opioides.

A principal razão para a escassez do buspirona parece ser uma interrupção da produção em uma fábrica da Mylan Pharmaceuticals em Morgantown, Virgínia Ocidental, que produzia cerca de um terço do fornecimento da droga no país. A Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) havia dito que as instalações estavam sujas e que a empresa não seguia os procedimentos de controle de qualidade.

A Mylan informou à FDA que a data de retomada da produção do buspirona ainda não havia sido definida.

“As empresas não precisam dizer à FDA quanto tempo a escassez vai durar ou quando esperam que o produto volte ao mercado”, o que dificulta o planejamento para médicos e pacientes, disse Erin Fox, diretora de farmácia da Universidade de Saúde de Utah e diretora dos Serviços de Informação e Suporte de Drogas da instituição.

A maioria das fábricas está funcionando em plena capacidade; assim, “quando uma para, mesmo que por um curto período de tempo, a cadeia de suprimentos não consegue compensar a diferença”, disse Fox.

Os preços baixos de alguns medicamentos genéricos também estão contribuindo para a crise. A consolidação de atacadistas conduziu à criação de três gigantes, que compram 90 por cento dos produtos farmacêuticos genéricos nos Estados Unidos, disse Adam Fein, consultor e principal executivo do Drug Channels Institute. Esses grandes compradores pressionam os fabricantes em relação aos preços, e “alguns produtores de genéricos acham o lucro tão baixo que preferem sair da categoria”, disse Fein.

Pelo menos uma fabricante do buspirona, a Impax, que é relativamente pequena, deixou o mercado.

“Drogas como a buspirona não são consideradas críticas nem vitais pela FDA”, disse a dra. Beth Salcedo, presidente da Associação Americana de Ansiedade e Depressão. “Mas a realidade é que, por causa da ansiedade e da depressão, perdemos muita gente todos os anos para esses males.”

Fonte: Gaúcha ZH

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