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Pomada combate bactérias sem permitir resistência de espécies

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Pomada criada por holandeses consegue combater bactérias sem permitir que algumas espécies se tornem resistentes à medicação. Testes com humanos devem ser iniciados neste ano.

O uso exagerado de antibióticos gerou um dos maiores problemas da área médica: a resistência das bactérias a esse tipo de medicamento. Para impedir que a situação piore, cientistas buscam novas alternativas de combate a esses micro-organismos. Nesse sentido, pesquisadores da Holanda manipularam um peptídeo de origem humana que, ao ser usado em forma de pomada, conseguiu replicar o efeito dos antibióticos em ratos e amostras de pele humana. Os achados foram apresentados na última edição da revista americana Science Translational Medicine.

“Com o crescente número de cepas resistentes aos antibióticos, é crucial desenvolver novas terapias antimicrobianas”, ressalta ao Correio Anna de Breij, uma das autoras do estudo e pesquisadora da Universidade Médica de Leiden. A cientista explica que, para desenvolver um medicamento semelhante aos antibióticos, foram escolhidos os peptídeos antimicrobianos devido à eficácia dessas moléculas no combate a bactérias em pesquisas anteriores. “Elas têm potencial para matar uma ampla gama de bactérias, incluindo espécies que já são resistentes aos antibióticos”, frisa.

Breij e sua equipe, que contaram com a ajuda de pesquisadores da Universidade de Amsterdã, escolheram um dos peptídeos mais promissores, o LL-37. “É um antimicrobiano humano que desempenha papel fundamental na resposta imune contra bactérias. Com base nesse peptídeo natural, nós sintetizamos variantes”, explica a autora. A manipulação resultou em um conjunto de peptídeos — entre eles o SAAP-148, que se mostrou altamente eficiente no combate a micro-organismos em amostras sanguíneas.

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O peptídeo liga-se à membrana da bactéria, a enfraquecendo, o que facilita a morte do micro-organismo. “O SAAP-148 mostrou-se ativo contra as comunidades bacterianas, que nós chamamos de biofilmes. Elas vivem juntas e, por isso, são mais difíceis de serem erradicadas com antibióticos convencionais. Também (funcionou) no combate a células persistentes, que são as mais tolerantes aos antibióticos e responsáveis por muitas infecções recorrentes”, ressalta Breij.

Em uma última etapa, os pesquisadores incorporaram o peptídeo em uma espécie de gel, o que permitiu a aplicação tópica — diretamente na pele —, e o testaram em ratos e amostras de pele humana contaminados. A abordagem, além de segura e eficaz, eliminou as bactérias. “Neste ano, planejamos testar o peptídeo em um ensaio clínico (com humanos) para aplicação tópica. Além disso, obtivemos uma concessão para desenvolver formulações inteligentes (nanoformulações) para o SAAP-148, o que, espero, nos permitirá desenvolver alternativas para outras aplicações, que não sejam tópicas”, adianta a autora.

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Segundo Alexandre Cunha, membro do Comitê de infecções em UTI da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a eficiência no combate a biofilmes é um ponto a ser destacado na pesquisa. “Os biofilmes são grupos de bactérias que ficam grudados, acumulados, e são frequentes em aparelhos médicos, como o cateter. Também estão muito presentes em ossos, por isso são numerosos os casos de infecções em pessoas que usam próteses ortopédicas, por exemplo”, diz.

Apesar das vantagens descritas, Cunha acredita que muito trabalho é necessário para que um novo medicamento possa surgir com base no estudo holandês. “A parte ruim é que esse ainda é um estudo inicial, que precisa de muito tempo para ser desenvolvido. Pode demorar cerca de oito anos para que ele chegue ao mercado, em um cenário animador, seriam cerca de cinco anos”, acredita.

Quanto à vantagem de não beneficiar o surgimento de superbactérias, Cunha também é cauteloso. “Pesquisas que exploram outra linha de combate, como essa que aborda o uso de peptídeos, podem não resultar em uma solução na primeira tentativa, mas essas investigações têm potencial para abrir um novo caminho, com outras fontes de pesquisa, com moléculas semelhantes que podem gerar novos medicamentos”, justifica.

Segundo os autores, o peptídeo SAAP-148 não induz a resistência a bactérias provavelmente devido ao seu mecanismo de ação inespecífico (sem alvo) e à rapidez de ação. “Em contraste, os antibióticos, que muitas vezes têm alvos específicos e agem bem mais devagar, causam a resistência. Se pudermos usar peptídeos antimicrobianos, como SAAP-148, isoladamente ou em combinação com antibióticos, para tratar infecções, é possível reduzir a chance de indução de resistência”, ressalta Breij.

Para o médico brasileiro, soluções nesse sentido são urgentes e bem-vindas. “A resistência a bactérias é um problema extremamente grave. Há anos não temos uma classe nova de remédios. As novidades que surgem, a cada dois anos basicamente, são apenas variações de fórmulas que conhecemos há 10, 15 anos. Caso novidades não surjam, vamos voltar a viver na época ‘pré-analítico’, quando as pessoas morriam por infecção”, ressalta Cunha.

Fonte: Correio Braziliense

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