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Quando os papéis se invertem e cabe aos filhos cuidar dos pais

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O casal Clarice e Bruno Negruni escolheu ter Irma, mãe de Clarice, junto de si

Chega uma hora na vida em que a dependência permite aos filhos retribuírem, em afeto e serviços – muitas vezes ambos – os cuidados que receberam

Auxiliar no banho. Trocar fraldas. Alimentar. Jamais deixar sozinho. Oferecer os remédios na hora certa. Colocar para dormir. E zelar para que nada de ruim aconteça. Parece a rotina de pais e mães, mas é a realidade de muitos filhos, cujos genitores já são idosos e precisam de cuidados. Hoje, no Brasil, a população com mais de 60 anos se aproxima, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 30 milhões de pessoas. Até 2027, serão 37 milhões. E por mais que a longevidade, felizmente, em grande parte dos casos, venha acompanhada de boas condições de saúde, chega o momento em que as pernas enfraquecem ou a mente falha, deixando a independência de outros tempos reduzida. Então, é hora de os filhos se transformarem um pouco em pais.

Já acamado, Libório Zirbes ainda pedia pela palha para fazer as
vassouras que o ocuparam por toda a vida, além da lida no campo. A esposa, dona Noely, estava sempre junto dele, colaborando nos cuidados. foto: Josué Braun Fotografia

“Eu tô com fome. Me dá comida”. Talvez durante a criação dos filhos, hoje adultos, Clarice Negruni, de 67 anos, tenha ouvido essa frase de uma das crianças. Hoje, porém, ela a escuta de sua mãe. Irma das Neves Alves tem 85 anos e uma saúde física de invejar os mais jovens. Porém, o Alzheimer faz com que lembranças se embaralhem. E foi necessário tirá-la da casa onde vivia para mantê-la em segurança e sempre na companhia de alguém. “Ela vinha fazendo coisas estranhas. Percebemos que precisávamos fazer algo”, recorda Clarice.

A família Negruni: a neta Ana Clara, Clarice, Irma, o neto Bruno Rafael, a sobrinha Elivete e Bruno Negruni

Uma casa de repouso foi cogitada. Clarice e o marido Bruno Negruni, de 73 anos, chegaram a visitar estabelecimentos especializados no atendimento a idosos, mas escolheram manter dona Irma junto deles. “Nada contra as casas, talvez um dia seja preciso, mas naquele momento e até hoje eu não consegui. Achei que era injusto”, relata Clarice. “Se a tivéssemos internado numa casa de repouso, estaríamos sempre preocupados. Seria desgastante, de qualquer forma. Além disso, é também uma retribuição. Ela esteve sempre junto aos meus filhos”, diz Bruno, que já não tem pais vivos.

Ana Herzer hoje zela pela mãe, Noely, e, também, pela tia Síria

Cuidar também foi a escolha de Ana Maria Herzer, de 61 anos. Ela, junto de uma irmã e um irmão, zelou pelo conforto e qualidade de vida do pai, o seu Libório Zirbes, até o seu último fechar de olhos, em novembro de 2016, aos 89 anos. Agora, Ana segue firme, cuidando da mãe, Noely Cecília Zirbes, de 89 anos, e da tia, Síria Zirbes, de 87. Ana conta que os cuidados foram aumentando conforme a necessidade. Primeiro, a vizinha passava algumas horas três vezes por semana. Depois, duas pessoas passaram a lhes fazer companhia. Até que foram necessárias três cuidadoras se intercalando.

Tirá-las do local onde construíram suas vidas, para Ana, colaboraria para encurtá-las. Não se trata de desgostar dos asilos ou casas de idosos, mas sim de respeitar a história delas, vivida integralmente no município de Feliz. “Elas podiam viver com um dos filhos. Mas não querem sair da Feliz, sempre viveram lá. E eu jamais iria obrigar”, conta Ana, que há 30 anos reside em Montenegro.

Entre muitos cuidados, o medo da perda

ANA com a mãe, retribuindo os cuidados recebidos ao longo da vida. FOTO: arquivo pessoal

Por mais debilitados que, em alguns casos, os idosos estejam, os laços afetivos fazem com que os filhos os desejem ali, presentes na família. E a possibilidade de perdê-los é sempre doída. Os olhos de Ana Herzer se enchem de lágrimas ao relembrar o último dia de seu pai. “Ele chamou a esposa e pediu para rezar”, conta. Tudo o que a filha queria era mantê-lo por perto.

Seu Libório passou seis meses acamado, intercalando cuidados em casa com períodos no hospital. Perdeu peso, ficou bastante frágil e necessitou de cuidados básicos, como o uso de fraldas. Então a presença dos filhos tornou-se ainda mais necessária. Sentia vergonha de ser limpo e trocado por pessoas estranhas. “Nos finais de semana, quando estávamos os filhos e não as cuidadoras, ele se sentia melhor”, conta Ana. Nesses momentos, o cuidado familiar é melhor, mesmo que sem o conhecimento técnico. “No hospital, eu dizia às enfermeiras para cuidarem porque a pele dele estava sensível. O profissional, por melhor que seja, pode não ver isso”, complementa a filha.

Mas cuidar de um idoso com a saúde debilitada exige empenho. Para dar banho e trocar a roupa de cama eram necessárias duas pessoas. Um dos netos lhe fazia a barba. Para beber o suco de que gostava, alguém o dava de colher na boca. E, em alguns momentos, a necessidade era mais psicológica.
“Chamava a esposa à noite, ela acordava e não era nada. Mas precisava chamar. E nós, os filhos, passamos a ficar à noite com ele. Até para a mãe poder dormir”, relembra. “Sei que ele descansou. Não podia mais. E a gente fez tudo o que podia por ele”, completa a filha, emocionada.

Após passar tantas décadas ao lado do marido, dona Noely, que caminha com a saúde forte para completar 90 anos em setembro, exigiu cuidado dos filhos. Mas foi possível reduzir a presença dos cuidadores na casa. Até que, em agosto passado, a família levou um susto, quando ela sofreu um AVC. Quem a vê hoje, porém, encanta-se com sua disposição e com a forma como ela se recuperou. “Uma sessão de fisioterapia e ela estava caminhando”, festeja Ana. Mas, por segurança, ela fica sozinha apenas por poucas horas, num intervalo na troca das cuidadoras durante a semana. Para os finais de semana, os filhos têm uma escala onde se intercalam nos cuidados. E os netos estão sempre por perto da vó Noely. Ela segue, também, com a mente muito ativa, sendo alegrada pelos cachorrinhos, seus xodós. Faz crochê, pinta livros de colorir e recebe as amigas para jogar carta.

Essa interação com as pessoas é algo que a tia de Ana, Síria Zirbes, não consegue ter, muito em função do Alzheimer. Ela ainda não necessita de cuidadores em tempo integral, mas é o provável futuro. “Ela nunca iria para um lar de idosos”, diz Ana, que faz as compras da casa de Síria, localizada ao lado da de sua mãe, e cuida para que ela faça acompanhamento médico e tenha seus remédios. E nessa rotina de cuidados, mesmo quando Ana está em sua casa, a atenção fica sempre voltada para Feliz. O telefone traz notícias e aquela tranquilidade ao coração. “Eu estou sempre por lá. Sempre foi assim, eu e o Osmar criamos os meninos – seus dois filhos – sempre indo nos finais de semana. Ele já não tem os pais há bastante tempo. Mesmo no final de semana que ‘é dos meus irmãos’ eu estou por lá com a mãe”, diz Ana, satisfeita por ajudar.

Cuidam, mas esperam não precisar de cuidados
O tempo passa e, por mais que essas filhas cuidem e zelem, elas também estão envelhecendo. Apesar de pensar a respeito, Clarice e Ana não querem que a história se repita. Clarice Negruni brinca que “pelo menos da boca pra fora” não espera que seus filhos assumam o papel de cuidadores. “Não espero isso deles. Não que eles deixariam de fazer, mas a vida é diferente”, comenta.

O mesmo aparece na fala de Ana Maria Herzer. Tendo criado os filhos tão próximo dos avós e dos cuidados, é quase inimaginável pensar que ela não receberia o mesmo tratamento. Mas isso não passa muito pelos meus pensamentos. “Não quero dar trabalho. Talvez a gente vá escolher um lugar para ficar”, avalia Ana.

Nas lembranças, o amor por grandes mães

Dona Noely se aproxima com saúde dos 90 anos de idade

O carinho com que Clarice e Ana tratam as genitoras tem muito a ver com as lembranças que trazem da infância. Ambas falam com orgulho da sua origem. A dona Irma é de Porto Alegre e chegou em Montenegro há 57 anos. Seu marido, comerciante, veio montar um mercado onde hoje funciona a ótica Santa Luzia. Além de ter tido Clarice, ela adotou um filho e criou uma sobrinha. Clarice recorda da mulher independente até a chegada do Alzheimer. Ela não apenas auxiliou no comércio do esposo, como cuidou da casa e esteve presente na infância dos netos.

A filha Clarice cuida todos os dias da mãe. Dona Irma tem Alzheimer

Clarice se emociona ao reconhecer que hoje, olhando para Irma, vê pouco da mãe que a criou. “Ela estava sempre junto, para o que precisasse. Agora são momentos. Ela tem lembranças do passado, mas não é sempre. Não é como antes”, conta Clarice. Os remédios não conseguiram frear o avanço da doença que, aos poucos, vai levando as memórias da idosa. Hoje, Irma precisa de cuidados 100% do tempo. A casa foi adaptada para recebê-la, perdendo os tapetes para evitar quedas. E para conseguir ir à missa, Clarice pede que seu marido fique junto da sogra. “Sozinha, ela não pode ficar”, enfatiza.

Isso gera na filha um profundo cansaço, suavizado apenas pelo amor à mãe. “Às vezes, eu me sinto tão cansada que penso em internar numa casa de idosos. Eu não tenho um final de semana para mim. Talvez os meus filhos preferissem que eu internasse por medo de que eu não aguente. Mas também penso em como será quando eu não a tiver”, resume Clarice.

Quando a filha sente que não aguenta mais e que precisa de uma folga, leva dona Irma para a casa onde ela vivia antes, lar do outro filho. Mas ela chora para ir e também na hora de retornar. Essa movimentação fora de casa é difícil. “Não é fácil. É muito trabalho, como quando se tem um filho pequeno”, finaliza Clarice.

“Como ter uma criança pequena na velhice” também é uma expressão usada por Ana Maria Herzer. E é das lembranças da própria infância que ela tira os ensinamentos para agora retribuir. Seu Libório e dona Noely eram agricultores. Parte da colheita era trocada por produtos para a casa. Já a produção de tabaco ia para a indústria da Souza Cruz. Seu Libório ainda fazia vassouras de palha e dona Noely costurava. Assim criaram os três filhos. “Até meus 17 anos, não tinha luz na casa”, recorda Ana.

Mesmo com as dificuldades, eles foram incentivados a estudar. Para cursar o segundo grau, Ana ia para São Sebastião do Caí. Tornou-se professora e, por muitos anos, lecionou na Escola Estadual Coronel Álvaro de Moraes, em Montenegro. Mas, nos finais de semana, Feliz é o destino. Foi assim quando a mãe e o pai tinham saúde para aproveitar os dias cercados por filhos e netos e permanece, agora, para os cuidados. “Eu respeito o trabalho de quem cuida. Porque não é fácil ficar dia e noite. Trocar, dar comida, tirar lençóis. É muito cansativo”, reconhece Ana. Porém, ela não faria outra escolha. “É um compromisso. O mínimo que podemos fazer. Não foi fácil e eles nos criaram”, completa.

Retribuindo o afeto recebido e experimentando o que será o próprio futuro

Márcio Hoffmeister, psicólogo. FOTO: arquivo Jornal Ibiá

A experiência de cuidar e de ser cuidado envolve, no seu ponto mais básico, afeto. E a decisão entre manter os pais junto de si, na casa onde sempre viveram ou, ainda, num lar para idosos, algumas vezes é carregada de culpas. Mas deve ser pensado no que é melhor para o idoso e a família, considerando que cada um tem história, laços sentimentais e necessidades distintas. O psicólogo Márcio Hoffmeister comenta que toda relação deve – ou deveria, pelo menos – ter o afeto como fio condutor, de forma especial, entre pais e filhos. E o momento no qual há uma inversão da experiência do cuidado pode ser tomado como oportunidade de conexão com a própria história.

“Retribuir o cuidado recebido e experienciar um pouco de como poderá ser o próprio futuro.  Este é, acima de tudo, um tempo de exercitar a empatia. Colocar-se no lugar do outro”, diz Hoffmeister. É claro que em muitas famílias esses afetos podem não ser tão positivos e surgem problemas. Um exemplo: quando uma família se encontra impossibilitada de dar o cuidado necessário ao idoso e opta por uma internação. “Esta decisão pode acionar sentimentos de incerteza, culpa, ingratidão. Pode gerar mágoas, discórdia entre familiares, desentendimentos”, exemplifica o psicólogo. Como lidar com isso? Afeto é a resposta. E ele exige empenho.

“Fora casos mais extremos, toda situação, quando tratada com afeto, tende a ser gratificante para os dois lados”, complementa Hoffmeister. Outras duas questões importantes a serem entendidas e trabalhadas são a natural diminuição da autonomia e a morte. “Muitas vezes, lidar com estes fatores do ciclo natural da vida, que se aproxima do final, é problemático. Elas estão profundamente ligadas à dignidade do ‘SER’. Não raro, lidar com estas questões exige a ajuda de um profissional da psicologia”, finaliza o especialista, demonstrando a delicadeza desse tema às famílias.

Fonte: Jornal Ibiá

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