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Para combater morte por overdose, NY estuda abrir centro de injeção assistida

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Silas Martí
NOVA YORK

Quando soube dos planos do prefeito de abrir quatro postos para a injeção assistida de opioides em Nova York, Liz Evans caminhava por uma rua do Harlem, um dos bairros da cidade mais afetados por esse vício, e viu um homem agonizando —ele acabava de sofrer uma overdose.

Ela, que comanda um centro de combate ao abuso dessas substâncias e sempre leva na bolsa doses do remédio usado para reverter o impacto do excesso de drogas no organismo, conseguiu salvar a vida dele.

“Isso fez toda a diferença”, conta Evans. “Ele estava sem ar, quase morrendo. E outras pessoas morrem todos os dias. Essa é uma crise que só piora, então só posso comemorar quando qualquer político decide fazer parte dessa briga.”

Não é uma batalha simples. Bill de Blasio, o prefeito nova-iorquino, calculou bem os riscos políticos que corria antes de declarar o seu apoio à ideia ainda polêmica aos olhos de muitos, mas deu carta branca para que a sua cidade abra em até um ano quatro centros onde os viciados em opioides poderão injetar essas drogas com a supervisão de médicos.

Na visão de analistas, essa é uma das estratégias mais eficazes para evitar mortes por overdose —só em 2017, 1.441 pessoas perderam a vida dessa forma na maior metrópole dos EUA. O uso dessas drogas também mata mais nova-iorquinos a cada ano do que os assassinatos, acidentes de carro e suicídios juntos.

Mesmo não sendo um problema restrito à cidade —o abuso de opioides matou 42 mil pessoas nos EUA em 2016, o ano mais recente com dados disponíveis—, Nova York quer se tornar pioneira na criação de centros de injeção assistida num país que não autoriza a abertura deles.

Outras grandes cidades americanas, entre elas Boston, Filadélfia, San Francisco e Seattle, também já debatem estratégias semelhantes, mas vêm esbarrando nos mesmos obstáculos que Bill de Blasio agora tenta enfrentar em casa.

O maior deles é o governo federal, que proíbe a criação de qualquer estabelecimento onde ocorra o uso de substâncias controladas. Ainda que tenha declarado a epidemia de opioides uma emergência de saúde pública, o presidente Donald Trump e seu gabinete defendem uma política antidrogas linha-dura, que inviabiliza todos esses esforços.

Mesmo drogas como a maconha, que já pode ser usada para fins medicinais e recreativos em nove estados do país, já entraram na mira da atual administração. Jeff Sessions, o secretário da Justiça indicado por Trump, vem causando atrito com governadores ao dizer que se esforçaria para fazer valer a proibição à erva em todo o território do país.

Esse precedente só dificulta mais o combate contra opioides, dizem especialistas. Quando as autoridades no estado de Vermont, no nordeste do país, anunciaram a intenção de abrir por ali um centro de injeção assistida, procuradores logo disseram que a medida seria combatida nos tribunais e que a Justiça poderia confiscar imóveis usados por essas clínicas.

Na outra ponta dos Estados Unidos, a cidade de Seattle, onde uma pessoa morre de overdose a cada 36 horas, chegou a reservar parte das verbas em seu orçamento para implementar esses postos, mas ainda tenta driblar a burocracia estadual para seguir adiante com os seus planos.

“Há uma série de questões legais e preocupações com a qualidade de vida”, disse o prefeito nova-iorquino, sobre a abertura das clínicas, lembrando que muitas vizinhanças da cidade não querem um posto por perto —distritos como Queens e Staten Island, por exemplo, pediram para ficar de fora dos planos.

“Nesses postos vamos poder ajudar as pessoas que morreriam de overdose encontrar um lugar onde elas poderão ser salvas”, disse Bill de Blasio.

O governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo, que por lei precisa autorizar a medida apoiada pelo prefeito, diz que o objetivo dos centros de injeção assistida é louvável por salvar vidas, mas lembra que eles ainda seriam vistos como ilegais na esfera federal.

Enquanto o assunto é tabu em solo americano, pelo menos outros 30 países, entre eles o vizinho Canadá, permitem a abertura desses postos.

“Toda vez que nós tentamos criar centros de injeção segura, o maior desafio é fazer políticos acreditarem que isso faz sentido”, diz Liz Evans, que antes de chegar a Nova York trabalhou para criar clínicas dessas na cidade canadense de Vancouver. “Mesmo países conservadores como a Suíça já usam esse sistema e diminuíram o consumo de drogas.”

No fundo, é uma questão de mudança de cultura no tratamento. Evans lembra, por exemplo, que a distribuição de seringas no auge do combate à epidemia da Aids na década de 1990 era considerada tabu, mas cidades como Nova York liberaram a medida —o pai do atual governador, Mario Cuomo, então no comando do estado, deu apoio à ideia.

“Quando as pessoas deixam de injetar nas ruas, já é possível desenvolver uma relação de confiança com os médicos”, ela diz. “Toda a conversa muda quando tiramos isso da escuridão, porque tudo feito às escondidas envolve mais riscos.”

Fonte: Folha de S. Paulo

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