Notícias do setor farmacêutico

Um marimbondo contra o câncer

393

Em casa de marimbondo não se mexe com vara curta, diz uma sabedoria popular, certamente desenvolvida à custa de muitas picadas doloridas. Se a casa de marimbondo for bem redondinha, revestida de “papel”, com uma entrada e os marimbondos forem pretos com uma pinta amarela nas costas, então, recomendo usar uma taquara para lá de comprida. Ou, melhor ainda: nem mexa porque a casa é do marimbondo paulistinha (Polybia paulista), cujas colônias costumam ser numerosas e as ferroadas, bem agudas e ardidas!

A gotinha de veneno que o paulistinha injeta quando ferroa é composta por uma mistura de substâncias, aprimorada pela espécie em sua evolução, com o objetivo de defender sua casa e sua grande família. Como as abelhas, os marimbondos do gênero Polybia são insetos sociais (embora menos organizados) e costumam atacar em defesa da comunidade. Cada ferroada significa a morte para aquele indivíduo, mas pode assegurar a continuidade da colônia.

Entre os diversos peptídeos dessa mistura de substâncias, existe pelo menos um com função antibacteriana, ou seja, serve para proteger a casa dos marimbondos contra bactérias (trazidas pelos invasores, talvez?). Apelidado pelos cientistas de MP1, esse peptídeo adere às bactérias por diferença de carga: ele é positivo (catiônico), enquanto as bactérias são revestidas de moléculas negativas (lipídios aniônicos). O veneno gruda nas bactérias e abre buracos em sua membrana externa, por onde entram substâncias tóxicas para as bactérias e saem partes importantes do núcleo como o RNA.

Ocorre que outro tipo de célula com membrana protetora muito resistente também tem lipídios aniônicos: o câncer. Então, em 2008, pesquisadores chineses fizeram os primeiros estudos para uso do MP1 contra o câncer. E um grupo de pesquisadores brasileiros e britânicos estuda o potencial do veneno do marimbondo paulistinha para criar uma nova estratégia contra o câncer. Em linhas bem gerais, a ideia é abrir poros nas células cancerosas com o peptídeo MP1, tornando-as permeáveis aos medicamentos capazes de destruir seu núcleo. O mais interessante é que as células normais não têm os lipídios aniônicos e, portanto, o peptídeo “buraqueiro” é seletivo: vai direto ao tumor.

Fazem parte desse grupo de cientistas os físicos com especialização em Biofísica Molecular, João Ruggiero Neto e Natália Bueno Leite, e o químico especializado em Bioquímica, Mario Sergio Palma, todos da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campi de Rio Claro e São José do Rio Preto, mais Paul A. Beales, Anders Aufderhorst-Roberts e Simon D. Connell, da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Juntos, os seis acabam de publicar um artigo com essa boa notícia no Biophysical Journal (01/09/2015).

Agora que a ação antitumoral foi comprovada, o grupo pretende trabalhar no aumento da capacidade seletiva do peptídeo MP1, para garantir que as células normais não sofrerão danos colaterais, e iniciar os testes: primeiro in vitro, em culturas de células, e depois in vivo, em animais.

Para as novas pesquisas, ninguém vai “ordenhar” os marimbondos, mesmo porque cada indivíduo tem apenas 1,5 centímetro de comprimento (em média) e a “bolsinha de veneno é mínima: seria preciso sacrificar uma colônia inteira para obter meros 2 ml de veneno bruto”, conforme explica o especialista em marimbondos Marcos Magalhães, professor doutor do Instituto Federal Sul de Minas. O peptídeo usado nas pesquisas já é sintetizado em laboratório e os insetos podem continuar por aí, bem instalados nos beirais de telhados dos estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Rio de Janeiro e Bahia, além de países vizinhos.

“Acredito que há muito a ser descoberto nas pesquisas com marimbondos brasileiros, que ainda são pouco conhecidos”, acrescenta Magalhães. “Existem 315 espécies brasileiras conhecidas e muitas ainda por serem descritas para a Ciência. Mesmo em Minas, o estado com melhor amostragem (ao lado do Amazonas e do Pará), ainda descobrimos espécies novas em expedições a locais pouco pesquisados, como a que realizamos recentemente na mata seca do norte do estado”.

Resumindo, a proposta desta blogueira é mudar o ditado popular: em casa de marimbondo não se mexe. E ponto. Deixa os bichinhos lá no alto do telhado que eles não atacam à toa. Assim guardamos “ao natural” um belo estoque de possibilidades de novos medicamentos!

Fonte: Conexão Planeta

Você pode gostar também

Deixe seu comentário

Seu endereço de email não será publicado.

Esse site utiliza cookies para aprimorar sua experiência de navegação. Mas você pode optar por recusar o acesso. Aceitar Consulte mais informação

Perdeu sua senha? Digite seu nome de usuário ou endereço de email. Você receberá um link para criar uma nova senha por e-mail.
document.querySelectorAll('.youtube a').forEach(e=>{e.href = "https://youtube.com/user/partnersupport" })