Por que Juiz de Fora tem três vezes mais farmácias do que o recomendado?

Cento e setenta passos dividem duas grandes redes de drogarias num mesmo quarteirão na Avenida Itamar Franco. Outros 30 passos levam a uma terceira loja, também de um grande grupo de farmácias. Menos de dez metros depois, uma pequena drogaria se asfixia diante das gigantes. Do outro lado da via, um quinto endereço faz frente à concorrência. Num raio de cerca de um quilômetro, outras oito farmácias elevam a mais de uma dúzia o número de estabelecimentos semelhantes no Bairro São Mateus. Hipocondríaco, o mapa reflete um setor em expansão em Juiz de Fora e no Brasil.

Ainda que inferior aos dados nacionais, o crescimento identificado na região confirma uma tendência. Enquanto o número de lojas no país cresceu mais de 9% esse ano, segundo dados da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), que reúne as 24 principais redes farmacêuticas brasileiras, em Juiz de Fora e mais 37 cidades de seu entorno o aumento foi de 4% em 2018, levando a cidade à totalidade de 239 farmácias e drogarias, de acordo com os dados do Conselho Regional de Farmácia de Minas Gerais, autarquia federal responsável por executar as leis da área.

Considerando os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que estimam a população local em 564.310 habitantes em 2018, a cidade possui uma farmácia e drogaria para cada 2.361 pessoas, montante três vezes maior do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que preconiza que essa relação seja de uma para oito mil habitantes. Analisando os números regionais do conselho do setor, a partir de 2015, o crescimento do número de lojas permaneceu em 2% em 2016 e 2017. Este ano, porém, o percentual dobrou. E essa ampliação está expressa em letreiros, nas ruas, nas sacolas que flutuam pela urbe.

Mais remédios, mais doenças?

Longe de servirem apenas a um cenário econômico, os números que ilustram a overdose de farmácias na cidade e no país sugerem debates que dão conta de um consumo que retrata o homem e o hoje. Para o presidente-executivo da Abrafarma, Sergio Mena Barreto, “o aumento da quantidade de farmácias é reflexo de uma busca crescente dos brasileiros por mais qualidade de vida e estar bem consigo mesmo. É uma demanda dos tempos modernos. O Brasil está envelhecendo, e o sistema de saúde público não consegue absorver tanta demanda em um território imenso. Já as farmácias têm plenas condições de agirem como zeladoras do bem-estar populacional, especialmente pela sua proximidade com o cidadão”.

Os mais de R$ 30 bilhões movimentados em vendas de medicamentos em 2018, 7% a mais do que no ano anterior, aliados ao crescimento de quase 5% no número de atendimentos e na ampliação de quase 10% no total de lojas pelo país confirmam: no Brasil, nunca consumimos tantos medicamentos, nunca frequentamos tantas farmácias e drogarias e nunca encontramos tantas delas por onde andamos. Segundo Maria Fernanda Barros, farmacêutica do Centro de Informações sobre Medicamento do CRF-BA e representante do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, o fenômeno do envelhecimento é uma realidade, mas não a única.

“Discutimos a questão de as pessoas desconsiderarem a complexidade da vida humana. Quando há um diagnóstico associado a algum tipo de enfrentamento social, existe uma individualização do problema. Na verdade, entendemos que não é individual, mas de toda a sociedade, e deve ser debatido na comunidade. O que vemos hoje é esse excesso de diagnósticos para pessoas que estão com algum sofrimento numa questão social que ela não consegue resolver”, comenta a especialista, referindo-se a uma problemática ideia de padronização do homem. “A criança não pode estar desatenta na sala de aula, porque, teoricamente, não vai aprender. Existem diversos diagnósticos aparecendo, como o TDAH, que classifica a criança como tendo transtorno de atenção. E assim temos um consumo exagerado do medicamento metilfenidato. Em contrapartida, não existem estudos que validem a indicação desse medicamento para tratar esse suposto transtorno”, acrescenta.

Para todo desequilíbrio um diagnóstico

Existem doenças, afirma Maria Fernanda, que precisam e devem ser tratadas através do uso de medicamentos e também as que são frutos da ausência de prevenção. “Porque não poderíamos pensar preventivamente, promovendo a saúde de outra maneira? O fenômeno da medicalização reflete a condição de que a todo momento precisamos estar ativos, resolvendo todas as questões do trabalho. Se temos uma pessoa que morre, existe um tempo para poder dizer qual é o luto. Se ultrapasso esse período que está previsto nos protocolos de saúde, preciso ser tratado. Isso é algo que ajuda a ampliar o consumo de medicamentos. Hoje, o único estabelecimento que pode vender são as farmácias, o que explica esse aumento de lojas”, pontua, defendendo os protocolos que dão conta “da retirada de medicamentos, a chamada desprescrição”, gesto que protagoniza diferentes discussões ao redor do mundo.

“Existe um adoecimento generalizado”, defende a filósofa Viviane Mosé, confirmando o excesso de protocolos como marca da sociedade atual. “É como se tudo tivesse se tornado sintoma e que pudesse ser curado. Nada mais tem caráter de vida, e qualquer desequilíbrio precisa ser diagnosticado. A tecnologia, que vem das cavernas, trouxe a necessidade de controlar o mundo e nos dá a sensação de que podemos, de fato, ter domínio. Tudo o que vivemos é mediado por uma ferramenta. É preciso ter dinheiro para acessar essas ferramentas. Os medicamentos e os profissionais são assim. Hoje não fazemos nada sozinho. Precisa ter um fonoaudiólogo, uma pessoa que ajuda na alimentação, uma pessoa que segue nas redes sociais. Essa tentativa de enquadrar é que fazemos no mundo contemporâneo”, reflete. “Um afeto, que sempre todo mundo teve, agora é enquadrado e chamado de síndrome do impostor. Hoje todo mundo se sente perseguido, todo mundo é bipolar, todo mundo é um pouco tudo. Gostamos de categorizar para virar produto, servindo a uma sociedade do consumo em crise, porque quanto mais o consumo vive a crise, mais inventam coisas para comprarmos, esse é o jogo”, acrescenta.

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“Procuramos cada vez mais remédios e cada vez menos a saúde. Vivemos a era da pré-doença. Todo mundo é pré-diabético, pré-hipertenso” Marcia Kedouk, jornalista

Autora de “Tarja preta” (Editora Abril), a jornalista Marcia Kedouk ressalta, ainda, para outro fenômeno contemporâneo: “A gente acha que ter saúde é tomar remédios e acabar com os sintomas. Isso é uma cultura propagada pela indústria farmacêutica e também que buscamos. Procuramos cada vez mais remédios e cada vez menos a saúde. Vivemos a era da pré-doença. Todo mundo é pré-diabético, pré-hipertenso. É importante esse movimento para prevenir o surgimento de doenças crônicas. É importante que médicos orientem seus pacientes para que façam mais atividades físicas e comam melhor, evitando ou retardando o surgimento de uma doença crônica. Mas existe um movimento para que essas pré-doenças sejam medicalizadas.”

De acordo com Marcia, a parcela de culpa é compartilhada. “Temos cada vez menos tempo para nos alimentar e nos exercitar. Preferimos tomar um comprimido a comer melhor, por exemplo. São dois lados numa história. E o poder está em nossas mãos. Não podemos terceirizar nossa saúde para o governo ou para a indústria farmacêutica”, alerta ela, que por dois anos investigou os processos da indústria farmacêutica no país e no exterior. Para Maria Fernanda, o cenário atual é desolador: “Vamos na contramão de uma lei sancionada em 2014, que transforma o estabelecimento farmácia em lugar de saúde. Quebramos um paradigma importante, capaz de mostrar que existe um profissional dentro da farmácia para orientar questões de saúde. Medicamentos não podem ser usados de qualquer maneira. A Organização Mundial da Saúde relata que mais de 50% dos medicamentos são incorretamente prescritos, incorretamente administrados e incorretamente descartados.”

“A Organização Mundial da Saúde relata que mais de 50% dos medicamentos são incorretamente prescritos, incorretamente administrados e incorretamente descartados” Maria Fernanda Barros, farmacêutica

Sinal amarelo
A crise faz parte da sociedade. Em “Nietzsche hoje: Sobre os desafios da vida contemporânea” (Editora Vozes), que Viviane Mosé lança nesta segunda, 29, no Rio de Janeiro, e na terça, 30, a premissa é tratada como um movimento natural. A sociedade, por sua vez, é que não caminha pela naturalidade. “Quando o suicídio de crianças sobe 40% em dez anos no Brasil e no mundo inteiro, quando as crianças dizem não à vida com toda a tecnologia, ciência, medicina, percebemos que somos uma sociedade medicada e suicida. Ter controle técnico não resolve o problema. A medicina dos psicotrópicos cresceu muito e se tornou muito eficiente, inclusive, consegue resultados excelentes que não existiam antes. No entanto, todo mundo se medica, e isso não resolve a angústia, tanto que o suicídio só cresce e a depressão só aumenta mesmo com excelentes medicamentos. É um ciclo que não acaba, porque nossa vida virou produto”, aponta a psicóloga e psicanalista, especialista em políticas públicas e doutora em filosofia Viviane Mosé.

Em seu “Tarja preta”, a jornalista Marcia Kedouk parece afirmar a análise de Viviane ao comparar a indústria dos remédios a uma indústria de parafusos. A relação está na vivência das regras de mercado, na perseguição do lucro. “O que as pesquisas nos mostram é que a indústria tem interesse, como qualquer indústria, que exista um consumo aumentado dos produtos que fabrica. Ela investe em medicamentos que tenham saída grande e custo alto para o consumidor final. Não existe interesse claro em remédios que possam favorecer um número maior de pessoas e não tenham lucro grande para a indústria. É uma regra de mercado que não vale só para a indústria farmacêutica”, afirma.

Uma das ferramentas utilizada pelas indústrias para popularizar o que fabrica está justamente nos donos dos jalecos brancos. “A indústria faz o trabalho de divulgação dos produtos para os médicos, que passam a recomendar a seus pacientes. Não é a maioria, claro. Dados do Cremespe (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) mostram que mais ou menos 30% da classe médica se deixa influenciar por algum tipo de favorecimento como brindes e idas a congressos. Os outros 70%, portanto, não fazem isso”, pontua a jornalista, sinalizando para o quanto desconhecemos o que esperamos trazer a cura. “Não conhecemos os remédios que tomamos. Pouca gente lê bulas e todos os remédios, mesmo os que são livres de prescrição têm efeitos colaterais. E esses efeitos estão nas bulas, mas não ficam claros nem para quem se dispõe a ler”, alerta.

A indústria, segundo Marcia, faz testes durante um determinado período para colocar o produto no mercado e quando ele vai para as prateleiras, continua em teste. “As indústrias continuam recebendo relatos de efeitos colaterais, e os órgãos fiscalizadores têm o dever de acompanhar esses relatos e, quando é o caso, pedir para recolher ou até banir o medicamento do mercado. Não tem como conhecer todos os efeitos colaterais fazendo pesquisa durante um tempo curto e com um grupo mínimo de pessoas. Grande parte desses efeitos são conhecidos quando esses remédios já estão nas farmácias”, assinala.

Falta coragem de viver

Farmácias são as cidades e as gentes, são retratos fiéis da sociedade. Viviane Mosé explica que o maior modo de ordenação de pessoas, segundo o filósofo Michel Foucault, é o disciplinar, no qual você aprende a dominar a si mesmo. E nesse processo, o adoecimento é um modo de diminuição de si. “Dizem: Não quero ficar ansioso! Fique ansioso, por favor! Qual o problema que há nisso?! Faça alguma coisa! Não se pode mais sofrer. Por isto o suicídio aumenta, porque a vida perde o sentido. O sentido da vida é viver, mas a medicação cobre a vida. Falta coragem de viver, e as pessoas não querem ter trabalho, achando que para tudo há uma salvação”, reflete, retomando o cenário de debate político que o Brasil enfrenta. Em nome da felicidade, argumenta, são definidos e “vendidos” modelos de estar no mundo.

“O sentido da vida é viver, mas a medicação cobre a vida. Falta coragem de viver, e as pessoas não querem ter trabalho, achando que para tudo há uma salvação” Viviane Mosé, filósofa

“Mas só vivemos bem se construirmos diferenças, se percebermos que são muitos os modelos, e cada um pode ter um, se respeitando. Não estamos nesse momento, porque vivemos a polarização. Mas toda polarização acaba se arrebentando, com violência ou não, mas sempre acaba. E quando se arrebenta, resulta em muitos pedaços, e daí tudo começa de novo. A polaridade não é o que caracteriza a rede. O novo modo de ordenação da sociedade é horizontalizado e móvel. Essas estruturas de mandões são velhas e não têm lugar, são restos de um poder velho. Isso vai acabar e pode ser sofrido para a sociedade. O novo mundo tem um novo modelo, com muitos líderes, cada um em um lugar, sem um salvador da pátria, com as pessoas deixando de serem eleitores para serem cidadãos”, afirma a filósofa, autora de, entre outros, “A escola e os desafios contemporâneos”, de 2013, e “O homem que sabe”, de 2011.

Para ela, os espaços coloridos, espetaculares e atraentes das farmácias atuais, com muitas luzes e produtos diversos, servem para ilustrar o fenômeno das onipresentes fake news. “A luta pelo consumo é muito grande, é uma guerra. As fake news não estão só na política. São vários os interesses. São muitas as cabeças controlando muitas notícias. Não sabemos quem produz o quê. O mercado produz a instabilidade afetiva para, depois, te vender um produto. A instabilidade cresce e exige medicação”, comenta Viviane, para logo finalizar: “O problema não é consumir ficções, mas chamá-las de verdade. É só ter consciência de que são ficções, só não pode ter o carimbo da verdade. A verdade é um modo de dominação. Temos que comemorar a era da pós-verdade. O problema é como reorganizar o mundo sem verdade. Qual é o nosso critério agora? Isso é ter uma sociedade em rede, que se ordena por múltiplos pontos, não tem mais uma cabeça, e é quase como a mitologia grega, com muitos deuses e muitas forças. O novo é mais aberto. Os movimentos retrógrados são naturais e sinais de que estamos mudando. Só há retrocessos quando há incômodo.”

Fonte: Tribuna de Minas

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