Alterações no microbioma ajudam a diferenciar doenças intestinais

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(foto: Reprodução/Internet/Cedig)

A análise da microbiota – grupo de bactérias que compõem o organismo humano – tem sido bastante explorada na área médica. Especialistas acreditam que os micro-organismos presentes em diferentes partes do corpo podem ajudar na compreensão de enfermidades e, dessa forma, auxiliar no desenvolvimento de terapias e diagnósticos mais completos. Focado no microbioma intestinal, cientistas holandeses identificaram alterações que poderão ser usadas em futuras abordagens contra a doença inflamatória intestinal (DII) e a síndrome do intestino irritável (SII). As descobertas foram publicadas na revista especializada Science Translational Medicine.Continua depois da publicidade

As duas enfermidades foram escolhidas devido à alta incidência na população e aos impactos na qualidade de vida dos pacientes. “São dois dos distúrbios gastrointestinais mais comuns, afetando de 0,3% a 0,5%, no caso da DII, e de 7% a 21%, no caso da SII, da população mundial. Ambos os transtornos impõem uma grande carga, comprometendo a capacidade de trabalhar e funcionar socialmente”, destacam os autores, liderados por Rinse K. Weersma, pesquisador da Universidade de Groningen. 

A equipe analisou amostras de fezes de 1.792 pacientes. Desses, 355 tinham doença inflamatória intestinal; 412, síndrome do intestino irritável; e 1.025 não apresentavam as complicações. Por meio de um sequenciamento genômico avançado, os cientistas identificaram bactérias que estavam associadas com a DII e a SII e detectaram que integrantes de ambos os grupos abrigavam diversidade reduzida de espécies benéficas, além de ampla variedade de micro-organismos causadores de doenças. 

“Comparado com os voluntários do grupo de controle, os pacientes com DII e os com SII apresentaram uma substancial diferenciação negativa em seus componentes bacterianos. A abundância de espécies de bacteroides, por exemplo, foi vista em alta quantidade em pessoas com DII. Esses micro-organismos são conhecidos por serem patógenos oportunistas, bastante relacionados a infecções”, explicam os autores no artigo. 

Os exames mostraram também alterações nas taxas de crescimento de nove espécies presentes na microbiota de pacientes com DII e uma bactéria comum em pessoas com SII. Segundo os autores, esses são sinais de desequilíbrio no microbioma, considerando as características das amostras dos participantes saudáveis. Os voluntários diagnosticados com as enfermidades também apresentaram abundância de proteínas associadas à resistência a antibióticos. 

“Embora esses resultados ainda precisem ser validados por abordagens ou análises mais minuciosas, essas associações que apresentamos fornecem uma melhor compreensão da patogênese dos dois distúrbios. As mudanças que identificamos na composição da microbiota intestinal também pode levar a novas ferramentas que auxiliem o diagnóstico na prática clínica”, frisam os autores. 

REFORÇO 

Romualdo Barroso Sousa, coordenador de pesquisa translacional do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, destaca que os resultados da pesquisa são mais um exemplo do quanto o estudo da microbiota pode ajudar a desvendar segredos de enfermidades que acometem humanos. “Começamos a avaliar tipos de bactérias recentemente. É um tema que tem sido de grande interesse também para mim, que trabalho com câncer. Muitos estudos têm mostrado a relação do microbioma com tumores, doenças autoimunes e outras enfermidades. Esse trabalho vem complementar as pesquisas nessa área, trazendo informações importantes ligadas a essa relação”, avalia 

Uma das apostas da área são modelos que incluam a combinação de diferentes biomarcadores de sangue ou de fezes para o enfrentamento de doenças intestinais. Romualdo Barroso Sousa cogita o uso dos resultados obtidos pelos holandeses em futuros tratamentos. “Quando temos esses dados, não podemos deixar de pensar que alterar essa população distinta de micro-organismos poderia reverter a doença, restaurar um equilíbrio perdido. É claro que há muito a ser estudado. Esse é um campo muito amplo. Existe um número de bactérias no nosso organismo maior que a quantidade de células”, pondera. 

O médico brasileiro acredita que um próximo passo da pesquisa deva ser os testes com animais. “Seria interessante, por exemplo, transferir essas microbiotas para ratos e observar se eles apresentam problemas semelhantes, além de ver se intervenções poderiam trazer algum resultado positivo”, explica.

Fonte: Estado de Minas

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