O apocalipse do varejo

O apocalipse do varejo – A foto é impressionante: o andar térreo de um shopping abandonado, escadas rolantes que se desfazem cobertas pela neve que entra através do teto que cedeu há tempos. Parece imagem de um álbum de fotos de Chernobyl, mas é ilustração para uma reportagem recente da Business Insider sobre o “apocalipse do varejo”, como a revista descreve o que vêm acontecendo nos Estados Unidos —e já é uma típica cena americana.

 

As informações são condizentes com a escolha da ilustração e das palavras: mais de 5.300 lojas devem fechar em 2019, e nem mesmo marcas conhecidas como Gap, Victoria’s Secret, Abercrombie&FitcheChico’s estão sendo poupadas. As suas filiais estão sendo dizimadas.

 

A crise atinge por igual o comércio popular e o de luxo. A Payless Shoes, que vende calçados muito baratos, vai acabar com todas as 2.500 lojas ao longo do ano; a elegantíssima Henry Bendel acaba de fechar as portas depois de 123 anos de existência. Nunca se viu nada igual.

 

Isso não significa que as pessoas deixaram de gastar; significa apenas que estão gastando de forma diferente. O comércio está se transformando a uma velocidade que assusta, mas não falta material para tentar entender o que está acontecendo: o impacto das vendas on-line vem sendo estudado desde que as primeiras lojinhas virtuais abriram homepages, antes mesmo que uma certa Amazon tivesse essa ideia.

 

Há ainda outros fatores em jogo: millenials que exigem serviço personalizado num mercado de massa, nichos, “experiências”. Lojas físicas não vão acabar, mas vão mudar de configuração e de proposta num futuro muito próximo.

 

Em São Francisco, onde várias casas antigas e tradicionais deixaram de existir, vi um exemplo radical de mudança. Estive na Amazon Go, uma loja sem caixas registradoras e sem funcionários à vista. Antes baixei um aplicativo, que criou um QR code para mim. Passei este código na roleta de entrada, depois escolhi o que queria e fui embora. Não precisei fazer nada além de pegar o que queria das prateleiras e por na minha sacola (se me arrependesse de alguma escolha, bastava recolocá-la de onde a havia tirado). O sistema funciona por meio de câmeras, sensores, dados. O preço final foi debitado na minha conta da Amazon.

 

A Amazon Go é uma espécie de mercadinho que funciona no Financial District vendendo comida — coisas simples, que alguém pode querer na hora de um break, como chocolates, bebidas, sorvetes, congelados. É a mais recente de nove lojas semelhantes; segundo a Bloomberg, a Amazon pretende abrir outras 3 mil baseadas no mesmo modelo, em diversas cidades dos Estados Unidos, até 2021.

 

Em compensação, a Gump’s, minha loja favorita no mundo, cheia de tesouros vindos do Oriente, e que durante 157 anos funcionou na mesma Post Street da Amazon Go, fechou as portas em dezembro passado. Hoje o Oriente vem por correio. No seu endereço ainda estão as vitrines empoeiradas, alguns tapumes, pichações, o fantasma de um mundo que acabou. Comentei com Mamãe como fiquei triste:

—Era uma loja tão linda! —Acontece. —respondeu Mamãe, filosófica.

Fonte: O Globo

Apocalipse

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