Para o laboratório que mais investe em P&D no mundo, a indústria farmacêutica precisa se reinventar

Não há na indústria farmacêutica empresa que invista tanto empesquisa e desenvolvimento quanto a suíça Roche. No ano passado,20% da receita foi destinada ao setor — o que equivale a US$ 10,8 bilhões. Esses números alçam o laboratório, líder em medicamentos oncológicos, ao oitavo lugar no ranking das companhias que mais gastam com P&D. À frente da Roche no Brasil está o também suíço Patrick Eckert. Aos 45 anos, ele assumiu o cargo em outubro do ano passado. Formado em administração na escola de negócios de Lausanne, Patrick passou antes pelo laboratório Novartis, onde ficou por 18 anos. Em entrevista a Época NEGÓCIOS, Patrick fala sobre o anúncio recente do fechamento da fábrica da Roche no Brasil e faz uma análise sobre o que uma empresa que sempre viveu da fabricação e venda de remédios tem de fazer para enfrentar os novos tempos e se sair bem na revolução da saúde4.0.

 

Como a transformação digital muda a dinâmica da indústria farmacêutica?
As mudanças são grandes e exigem agilidade para redesenhar os rumos dos negócios. Em 2015, a Roche anunciou uma parceria com a Foundation Medicine, especializada em análise genômica para tratamento do câncer. Três anos mais tarde, comprou a empresa por US$ 2,4 bilhões. A medicina individualizada é o futuro e temos de aprender a ler as informações expressas no código genético para dosar o remédio. O paciente e o sistema de saúde ganham. No final, o tratamento individualizado sai mais barato porque o doente se recupera mais rápido, a ação do medicamento é efetiva e há redução no tempo de internação. Não há mais espaço para “tentativa e erro”. As operadoras de saúde não querem pagar por testes, tratamentos longos e sem resposta. Querem retorno rápido e com equilíbrio financeiro. A indústria farmacêutica tem de entregar esse novo produto.

 

Em que medida a pressão por custos afeta a relação entre médicos e gestores de saúde?

A tendência é de um questionamento maior dos pagadores sobre a escolha da terapia. Os médicos estão incomodados com a ‘vigilância’ de operadoras de saúde. Eu acredito que, para evitar interferências, eles vão investigar mais. Realizar os testes genéticos, buscar tratamentos mais efetivos. Quando forem abordados, estarão com os dados em mãos. A medicina do futuro exige transparência. Quem está com as contas na mão tem de evitar a explosão dos custos. Quem trata busca a cura do paciente. Estes dois interesses precisam convergir. Os médicos começaram a entender que, se o sistema de saúde não estiver equilibrado, todo mundo sairá prejudicado.

 

O conceito de medicina individualizada já está claro para operadores de saúde, pacientes e governos?

O conceito sim. Temos ainda de aprimorar o modelo de negócios. Ainda é difícil demonstrar os ganhos em longo prazo — equação que leva em conta a qualidade de vida do paciente e, até mesmo, seu engajamento no tratamento. Operadoras de saúde e sistemas públicos precisam de dados para planejar os custos. Eles querem garantia de que a conta não vai estourar. Na medicina suplementar, o tratamento individualizado deve mudar a relação dos pacientes com os prestadores de serviço. Haverá mais negociação, com as partes assumindo suas responsabilidades. Se o paciente não se cuidar, abandonar o tratamento e reincidir, quem paga a conta?

 

E na saúde pública?

No sistema público, o problema é maior. Se o paciente não toma a medicação corretamente — por falta de conscientização ou informação —, há desperdício. O Sistema Único de Saúde (SUS) investe milhões emremédios de alto custo, mas tem muita gente que faz o tratamento errado. É preciso eliminar esses gargalos. Os esforços para educação e acompanhamento da saúde serão gigantescos.

 

Diante dessas exigências, como ficam as estratégias de inovação?

É preciso manter o ritmo. A Roche aporta, globalmente, 20% da receita em pesquisa e desenvolvimento (P&D). No ano passado, isso significou US$ 10,8 bilhões. Além dos investimentos nos laboratórios, estamos adquirindo startups. Sabemos que um dos desafios está em entender o que vamos fazer com todos os dados coletados. No ano passado, a Roche adquiriu a startup Flatiron Health [por US$ 1,9 bilhão]. Eles são especialistas em análise de dados e possuem uma base significativa, que somada à nossa, está encurtando a fase dos ensaios clínicos. Também compramos a Spark Therapeutics [por US$ 4,3 bilhões], startup que produz medicamentos para doenças genéticas como hemofilia, cegueira e as neurodegenerativas. Uma das estratégias é descobrir tratamento para enfermidades que estão fora do radar da indústria. São raras e, em um mercado que leva em conta o volume, não faz sentido estudá-las. Quando analisamos pela ótica da medicina individualizada, encontramos um contingente carente de medicação. Não podemos ignorar o fato de que, com o envelhecimento da população, teremos maior incidência de síndromes ligadas à idade e novas doenças devem surgir. Das cem moléculas que pesquisamos hoje, duas ou três são direcionadas para a população em massa. As outras serão aplicadas em doenças raras.

 

O que mais muda na medicina do futuro?

A integração da cadeia. Só vai dar certo se médicos, hospitais, farmacêuticas e gestores de saúde estiverem em sintonia. As informações sobre os pacientes são cruciais, elas ajudam no diagnóstico precoce. Em muitos casos, 70% dos diagnósticos acontecem em fase avançada, o que triplica o custo do tratamento e reduz as chances de vida. Para promover saúde, é preciso ser mais eficiente na detecção, na gestão e no engajamento do paciente. Em minha opinião, a nova geração de médicos vai fazer a diferença. Eles já entenderam o poder de um sistema de saúde forte. Não dá mais para cobrar o que se quer. Os custos estão em xeque.

 

Como o fechamento da fábrica no Rio de Janeiro impacta os negócios no Brasil?

O encerramento das atividades da fábrica do Rio [previsto para daqui a quatro ou cinco anos] não altera nossos planos. Continuaremos a fornecer medicamentos inovadores em diferentes áreas terapêuticas, como câncer, esclerose múltipla, hemofilia, doenças raras e neurológicas. As operações no país continuam ativas, por meio do escritório central e do centro de distribuição em Goiás. O Brasil é um mercado importante. Somos a sexta maior subsidiária do grupo. A posição nos permite atrair investimentos relevantes, como em pesquisa clínica, área na qual aportamos, nos últimos três anos, R$ 430 milhões.

Fonte: ÉPOCA NEGÓCIOS

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