Brasil perde empresa de alta tecnologia antes de se tornar um país inovador

indústria de alta tecnologia —que impulsionou a capacidade de inovar e o desenvolvimento de nações ricas como Estados Unidos, Alemanha e Coreia do Sul— está encolhendo no Brasil antes mesmo de deslanchar.

A constatação está em um estudo que mapeia, pela primeira vez, a evolução do peso de diferentes segmentos industriais no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro ao longo de décadas e indica que o país vive um rápido e precoce processo de desindustrialização.

Somados, os cinco segmentos da indústria mais sofisticada entraram nos anos 1980 com uma participação de 9,7% no PIB, depois de uma fase de expansão na década anterior.

Em 2016 —ano mais recente para o qual o recorte é possível—, essa fatia havia recuado para apenas 5,8% do PIB.

Os segmentos mais sofisticados reúnem a indústria de eletrônica e informática; máquinas e equipamentos; química; automobilística e farmacêutica.

As conclusões são do economista Paulo César Morceiro, que terminou seu doutorado na USP (Universidade de São Paulo) em 2018.

O trabalho, orientado pelo pesquisador Joaquim Guilhoto, da USP e da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), resultou em análises inéditas sobre a trajetória da indústria brasileira.

O setor como um todo atingiu, em 2018, sua menor participação no PIB desde 1947. Ele recuou para apenas 11,3%, menos da metade do pico de 27,3% atingido em 1986.

Comparada ao ocorrido em países que se desenvolveram, a queda rápida indicava um processo de desindustrialização precoce. Mas, para fechar esse diagnóstico, o ideal seria analisar o comportamento individual de cada setor, como Morceiro fez agora.

Os dados revelam que nenhum segmento da indústria brasileira ganhou participação no PIB entre 1980 e 2016. Entre 13 setores mapeados em quase quatro décadas, 11 perderam peso e 2 ficaram estagnados.

Parte da história mostrada pelos números reflete o processo normal de desenvolvimento econômico de um país. A trajetória das nações hoje ricas indica que, à medida que a renda cresce, há uma tendência de queda na participação do PIB dos segmentos menos tecnológicos —como têxtil, calçados e alimentos.

Isso decorre da mudança natural e até esperada no perfil de consumo da população.

Mas esse mesmo processo deveria elevar o peso dos setores de maior intensidade tecnológica na economia e sustentá-lo em um patamar alto por bastante tempo.

A demanda por produtos de maior valor agregado é o que explica essa segunda perna dos processos de industrialização e desenvolvimento econômico, na esteira do aumento da renda para um patamar mais elevado.

Não é, porém, o que tem ocorrido no Brasil.

Desde que a renda do brasileiro entrou na faixa considerada de nível médio (cerca de US$ 10 mil, em paridade do poder de compra), no fim dos anos 1970, tanto a indústria de menor intensidade tecnológica quanto a mais avançada têm se tornado, gradualmente, menos relevantes.

Enquanto os segmentos menos sofisticados perderam 4,9 pontos percentuais de participação no PIB entre 1980 e 2016 (recuando de 11,6% para 6,7%), os setores de maior tecnologia encolheram 3,9 pontos percentuais.

“A indústria de mais alta tecnologia no Brasil não conseguiu sustentar seu pico de participação no PIB nem por uma década. É um resultado ruim se comparado ao de países que se desenvolveram”, afirma Morceiro.

Como contraponto, o economista menciona dados de outra pesquisa que está fazendo sobre os Estados Unidos. Os setores industriais de maior intensidade tecnológica mantiveram uma participação agregada média de 11% no PIB americano por 17 anos, entre 1953 e 1969.

No Brasil, esses segmentos se mantiveram próximos do pico de seu auge —entre 9,5% e 10% do PIB— por apenas sete anos, entre 1973 e 1980.

Outro aspecto ressaltado por Morceiro é que a fatia dos setores de média e alta tecnologia no PIB americano é superior ao dos segmentos menos avançados ainda hoje (6,2%, ante 5,4%, respectivamente, em 2017).

No Brasil, aponta o estudo, isso nunca ocorreu.

Um exemplo preocupante é o do setor de informática e eletrônica, que perdeu 0,2 ponto percentual de participação na economia desde 1980, representando apenas 0,9% do PIB em 2016.

“Sem desenvolver esse setor, será difícil avançar para o estágio da indústria 4.0, que combina indústria e serviços sofisticados”, diz Morceiro.

Segundo Rafael Cagnin, economista do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), o Brasil começou a se distanciar dos países que desenvolveram setores industriais mais avançados já nos anos 1980, enquanto enfrentava a crise da dívida externa e a hiperinflação.

Foi nesse período, diz ele, que outros países, incluindo os asiáticos, decolaram no desenvolvimento tecnológico.

“Perdemos o bonde desse processo e nem chegamos a desenvolver competências, empresas e atividades mais complexas desses ramos”, afirma Cagnin.

Morceiro enfatiza que, desde então, repetidos períodos de câmbio sobrevalorizado contribuíram para tirar a competitividade da indústria brasileira, que sofreu ainda com uma abertura comercial pouco planejada nos anos 1990 e com a falta de políticas de incentivo bem desenhadas, focadas em inovação.

Especialistas lembram também que, com a forte demanda por commodities nos anos 2000, o Brasil se especializou ainda mais na produção de produtos básicos.

“Por uma questão estrutural, as vantagens competitivas da nossa agropecuária e da indústria extrativa baratearam as importações de manufaturados”, diz Fernando Montero, economista-chefe da corretora Tullett Prebon.

Isso ajuda a explicar por que, mesmo no período de crescimento econômico mais forte do país, na década passada, a indústria de maior intensidade tecnológica não decolou, embora tenha ensaiado um tímido movimento de recuperação.

Com a crise econômica dos últimos anos, incluindo a recessão, a situação se agravou.

Tanto os setores industriais de baixo teor tecnológico quanto os mais sofisticados atingiram, em 2016, seu menor peso no PIB desde, pelo menos, 1970.

Para Montero, a retomada da indústria depende do sucesso de medidas para arrumar a economia, conter a crise fiscal e, com isso, reativar o mercado interno.

Morceiro e Cagnin enfatizam que, além de consertar a questão conjuntural, são necessárias medidas específicas voltadas ao setor industrial.

“Há muito tempo que a agenda predominante no Brasil se restringe à macroeconomia. Não há política industrial bem-feita nem investimento em inovação”, diz Morceiro.

Cagnin ressalta que, nos últimos anos, países como Alemanha e Estados Unidos têm resgatado políticas setoriais por associarem a desindustrialização a um ritmo mais lento na geração de inovação.

“O Brasil precisa de mecanismos de financiamento diversificados, para além do BNDES, de simplificação tributária e implementação de um imposto de valor agregado, além de melhorar a infraestrutura do país”, diz Cagnin.

Sem um conjunto de medidas, diz o economista do Iedi, a tendência é que a indústria continue a perder relevância.

“Vemos a desindustrialização dos setores tradicionais. Nos setores de maior intensidade tecnológica, não é que a gente perdeu. Nem chegamos a ganhar alguns ramos que foram importantes aos países ricos”, diz Cagnin.

Como o setor industrial é importante fonte de inovação para toda a economia, seu encolhimento precoce, segundo os especialistas, pode limitar as perspectivas de desenvolvimento do país.

Fonte: Investing Brasi

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