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Dermatite atópica – quando a barreira de proteção da pele ‘falha’

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Na infância, Carlos Pereira Carneiro da Rocha sofreu com crises de asma. Com o passar do tempo, veio a rinite e, aos 24 anos, uma coceira na dobra do joelho que o levou ao consultório médico. “Evoluiu para o resto do corpo. Foi assim que descobri que tinha dermatite”, contou o empresário de Recife (PE).

Os relatos de quem tem DA (dermatite atópica) e quadros associados de asma e rinite não são incomuns. Alguns estudos apontam que em pacientes com DA de moderada a grave cerca de 50% apresentam quadros de rinite e 40% de asma. A explicação para esse conjunto de enfermidades – classificadas como tríade atópica – são a predisposição genética (filhos de pai ou mãe com dermatite têm 50% de chance de desenvolver a doença) e alterações no sistema imunológico.

Essas alterações são desencadeadas por diversos agentes desde ambientais, emocionais, o próprio microbioma. E em cada indivíduo as patologias podem se manifestar de formas diferentes ou conjuntas, ou seja, a pele pode ser atingida com a dermatite, o pulmão com a asma e o nariz com a rinite.

No caso da DA, o desequilíbrio do sistema imunológico causa alterações na pele, que serve como uma barreira de proteção natural do organismo. Ao coçá-la, rompe-se a camada mais externa provocando uma “falha” nessa barreira. Isso facilita a entrada de bactérias, vírus e alérgenos e resulta em infecções e coceira intensa.

A estimativa atual é de que 3% dos adultos desenvolvem a DA, mas é na infância que a prevalência é maior. Cerca de 20% das crianças apresentam a forma mais leve da doença e a estimativa é de 30% delas podem evoluir para DA na vida adulta.

Durante um evento em São Paulo a respeito do tema, a alergista Marcia Mallozi alertou para uma realidade preocupante. “Temos percebido um aumento no número de casos atendidos e da gravidade deles. A refratariedade do tratamento tem sido prevalente”, justifica ela, que coordena o departamento científico de dermatite atópica da Asbai (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia).

Mallozi diz que em crianças é fundamental diminuir os alérgenos e aumentar o poder de proteção da pele para que elas não façam a chamada “marcha atópica”. “É um fenômeno que vai evoluindo e pode acontecer de tudo. Por exemplo, a criança pode ter dermatite, melhorar e apresentar asma na adolescência, aí melhora também e surge a rinite”, comenta.

Segundo a dermatologista pediátrica Ana Mósca, da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia), muitos bebês já dão alguns sinais desde os primeiros meses de vida. Ela cita dermatite de fralda, alergia alimentar, cólicas, pele seca, intolerância à proteína do leite, bebê chiador, entre outros.

Pacientes faltam 21 dias de trabalho devido aos sintomas

Não são raros os casos de internação hospitalar de pacientes que desenvolveram infecções de tanto coçar a pele. A coceira intensa, aliás, é um dos sintomas mais incômodos da DA. Uma pesquisa realizada com 199 pacientes com dermatite atópica de moderada a grave em 11 cidades brasileiras revela que 6% já precisaram ser internados, sendo 33% por conta de quadro infeccioso.

Esse é o primeiro levantamento no País que mostra os impactos da enfermidade. Os dados foram coletados em 2018 pelo Instituto Ipsos, a pedido da empresa farmacêutica Sanofi em parceria com a Asbai e SBD. Segundo a pesquisa, os pacientes são impactados pela doença por 90 dias ao ano e 24% deles têm crises mensais decorrentes da doença.

“Eu não me sentia bem porque as lesões eram, na maioria, nas pálpebras. As pessoas me perguntavam se era contagioso”

Outro dado relevante é que os pacientes faltam 21 dias ao trabalho devido aos sintomas e 35% já sofreram algum tipo de preconceito. “Sabemos que 55% dos pacientes têm sono alterado de cinco a sete vezes por noite”, comenta Mallozi.

Rocha, que foi diagnosticado com DA há nove anos, lembra das noites mal dormidas devido à coceira intensa e também das situações em que as crises o impediram de ir para a academia e até de trabalhar. “Eu não me sentia bem porque as lesões eram, na maioria, nas pálpebras. As pessoas me perguntavam se era contagioso”, disse.

Jornada longa

Para lidar melhor com a doença, sete em cada dez pacientes já buscaram tratamento psicoterápico. A psicóloga e docente da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Márcia Gon, que durante anos estuda os impactos das doenças de pele nos pacientes, ressalta a importância das famílias entenderem que a DA é uma doença crônica que pode ir e voltar. “Porque isso envolve a ansiedade nos pacientes e a interação com a própria família e amigos. A psicologia vai mostrar como todos podem lidar com isso tanto para quebrar preconceitos quanto para avaliação de outras situações que podem, de alguma forma, ser mais um fator de estresse no cotidiano deles”, pontua.

No que diz respeito ao diagnóstico, a jornada do paciente também é longa. O levantamento aponta que o diagnóstico correto pode demorar até um ano e após o indivíduo ter passado por pelo menos três médicos especialistas. Além disso, 33% dos respondentes afirmam ter recebido outro diagnóstico antes, sendo 48% para alergia e 15% para psoríase.

A estudante Julia Nayra Bianchini Gozzo, 18, passou por diversos consultórios até achar uma resposta para as feridas que surgiram nas dobras dos braços e pernas quando ela tinha apenas 4 anos. Sua mãe Valéria conta que a maioria dos médicos tratavam o caso como uma alergia de inseto, ácaro. “Depois de um tempo e de vários exames, descobrimos a dermatite atópica”.

A coceira intensa que a jovem sente está muito relacionada ao estado emocional. “É a principal causa da dermatite em mim, quando estou ansiosa e nervosa. Mas o inverno quando a pele fica mais seca, as crises também voltam”, conta.

Como tratamento, ela usa diariamente, hidratante manipulado, sabonete para pele sensíveis, e quando necessário, faz uso de corticoides tópicos e orais. “Minhas lesões são nas pernas e sempre quando uso roupas mais curtas elas aparecem. Isso é o que mais me incomoda porque as pessoas olham e perguntam”, desabafa.

Fonte: Folha de Londrin

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