Na bagunça, a economia não cresce

Há ampla capacidade ociosa nas empresas brasileiras, 13,4 milhões de desempregados dispõem-se a trabalhar, os juros básicos são os mais baixos em 25 anos e predomina a expectativa de que a reforma previdenciária será aprovada.

O Brasil, porém, não se move. A economia embica de volta para a recessão antes de ter-se recuperado da depressão de 2014-16. Por quê?

Porque, abraçadas à segunda gestão Lula da Silva, a elite empresarial e a política patrocinaram a ruptura do programa reformista implantado na administração Itamar Franco.

Porque o Supremo Tribunal Federal pôs-se a meter-se onde não devia e a reformar os regramentos da política ao sabor dos palpites de seus integrantes. Ministros tornaram-se pequenos czares inebriados com o poder, incontrastável na República, de fazer trovejar sobre as instituições e a vida das pessoas e das empresas.

Porque a sanha oligárquica dos principais partidos os levou a cometer os maiores atos de corrupção já registrados na história do Ocidente.

Porque juízes e procuradores, ao perseguir os malfeitores do colarinho-branco, abusaram de suas prerrogativas e das garantias do Estado de Direito. Transformaram-se em militantes. Adotaram a política partidária, e não apenas indiretamente.

Porque a caça ao privilégio através do acesso diferenciado ao poder público tomou dimensões diluvianas.

Porque a fênix híbrida que emergiu das cinzas do holocausto partidário carrega o germe do populismo anti-institucional. Seu desprezo por “tudo o que está aí”, mal neutralizado num arranjo rugoso de governo, corriqueiramente volta à superfície.

Por razões como essas, o Brasil da última década debilitou o espírito do liberalismo político, que é uma filosofia do comedimento e do respeito aos pactos fundamentais. Em seu lugar estabeleceu-se um estado de constante subversão das regras do jogo. A bagunça virou a norma.

Quando não se pode prever o próximo minuto, que dirá a próxima década, nenhuma economia cresce.

Fonte: Folha de S. Paulo

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