Mais médicos, Mais saúde, o que está por trás desse véu?

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Mais Médicos: Cubanos passaram três anos trabalhando no Brasil (Ueslei Marcelino/Reuters)

Mais médicos, Mais saúde, o que está por trás desse véu?

A década de 1990 foi marcada no setor da saúde pela necessidade de mudar a forma de organização dos sistemas municipais/locais de saúde. A resposta a essa demanda foi a criação dos Programas de Agentes Comunitários (PACS-1991) e do Saúde da Família (PSF-1994), como estratégias à estruturação da atenção básica.

 

Essa como o primeiro ponto do sistema de saúde à organização de Redes Integradas, desde o cuidado domiciliar até o mais alto procedimento médico-cirurgião. Logo, com o maior grau de descentralização e capilaridade nos processos de cuidar da saúde/doenças dos indivíduos, famílias e comunidades.

 

Passados quase 30 anos, muitos foram os estudos técnicos-científicos, nacionais e internacionais, que comprovaram os efeitos e benefícios dessas estratégias. Não é preciso argumentar quanto aos seus valores sócio-sanitários-humanitários, e, sobretudo, econômicos. É preciso dizer que, ao proporcionar diagnóstico precoce e tratamento oportuno, reduz despesas, evitando, assim, maior gasto com doenças. Infinitamente é o melhor modo de promover a saúde.

 

Desde a origem do desenho do PACS/PSF, anunciávamos o desafio de implantar essas estratégias por falta de profissionais, em especial, o médico com perfil adequado ao cumprimento dos princípios organizativos da atenção básica. Afinal, declarávamos a disputa de dois projetos em uma sociedade capitalista, cujo modelo de atenção à saúde sempre foi focado nas especialidades, nos hospitais e em suas formas lucrativas. Assim, soberano é o mercado por um lado, por outro, insistimos, persistimos e seguiremos teimando por um Estado solidário, que trate a saúde do seu povo como um bem essencial à vida, portanto, protegendo-a.

 

E a disputa segue. Por que não resolvemos a raiz do problema? Qual dos governos, dos mais diferentes matizes ideológicos, quer efetivamente enfrentar essa questão? Colocar o problema à mesa significa enfrentar os donos do poder da medicina especializada, daqueles que controlam o mercado das doenças, das que existem e das fabricadas.

 

Formar médicos de família e comunidade atrapalha seus negócios. Não dá prestígio cuidar de pobre, assistir os que vivem em comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas, dos municípios do semiárido nordestino e das favelas nas grandes cidades, não é interessante à progressão de suas carreiras de pleno(s) emprego(s). Afinal,  escolher cuidar das pessoas no lugar em que elas moram exige dedicação em tempo integral e formação humanitária inibidas pelo capital. Melhor, atrapalha. Aprender a cuidar da saúde das pessoas em comunidades orienta o modelo de formação para outras diretrizes no projeto político pedagógico, rumo ao caminho da vocação. E esse caminho não combina com acumulação de capital.

 

As vagas não preenchidas, ou melhor, as inscrições esquecidas, reafirmam o que sabíamos: os 2.800 vocacionados médicos cubanos foram para onde os nossos médicos não queriam e não querem ir. E se alguns forem, perguntam prontamente aos prefeitos: “Quais são as condições de trabalho? Posso vir um dia por semana? Trocar a Unidade Básica de Saúde da Família pelo hospital em sistema de plantão? Assim posso trabalhar em outros municípios vizinhos!”

 

Espero que os prefeitos não se esqueçam que foram eles que em 2012 por intermédio da Frente Nacional dos Prefeitos, lançaram a campanha “Cadê o Médico?”, para pressionar o governo federal. No ano seguinte, os movimentos populares foram às ruas e reivindicaram uma saúde pública “padrão Fifa”.

 

Somente alcançaremos esse padrão se a corporação médica sair da sua Torre de Marfim e colocar os pés no chão das periferias das grandes cidades, sem medo de entrar no maior laboratório vivo e pulsante: as casas das famílias e os bairros das comunidades, para juntos aprenderem como cuidar da saúde do povo mais esquecido e sofrido do Brasil. É lá que se faz necessário tomar o pulso enfraquecido, olhar nos olhos entristecidos de corpos padecidos pelas dores físicas e da alma, de seres sofridos pela ausência do Estado.

 

Estado, que seus governos de plantão, em suas retóricas, desconhecem o que significa ficar sem médico, sem saúde nos mais complexos, diversos e profundamente diferentes rincões do país. Eis que, preencher as vagas ofertadas pelo Ministério da Saúde (quantitativamente) é quase um detalhe. A essência é colocar à mesa o problema estrutural que se arrasta década após década: não há médicos preparados para cuidar da saúde das famílias e das comunidades. Se é fato, é preciso responder em qual projeto o país vai investir: se é formar médicos para a população com maior poder aquisitivo para atender o mercado do complexo-médico-industrial, ou se vamos cuidar das pessoas nos lugares onde elas moram, trabalham e sonham com vidas e ambientes saudáveis. Esse é o véu que devemos desvelar para assegurar com dignidade para toda a população mais saúde. MARIA FATIMA DE SOUSA – Professora do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciência da Saúde/UNB. Doutora honoris causa pela Universidade Federal da Paraíba.

Fonte: Correio Braziliense

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