Mudanças no Hospital Vital Brazil, em SP, trazem risco à produção científica e ao atendimento, dizem especialistas

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Hospital Vital Brazil (HVB), especializado no tratamento de acidentes por animais peçonhentos, corre o risco de fechar. Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Na última semana, funcionários do Hospital Vital Brazil (HVB), referência nacional em acidentes com animais peçonhentos, denunciaram o que seria o iminente fechamento da unidade de Saúde. O Instituto Butantan, no qual o hospital está inserido, apressou-se em negar o fechamento, mas informou que a gestão de João Dória (PSDB) prepara um plano para “melhorar o atendimento dos acidentados”, o que incluiria a transferência do HVB para uma ala do Hospital Emílio Ribas, especializado em infectologia, e que fica a cerca de seis quilômetros de distância.

Para médicos, pesquisadores e funcionários do Butantan, esta não deixa de ser uma notícia ruim, tanto para a Ciência, quanto para a Saúde.

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Criado em 1945, o HVB acumula mais de sete décadas de experiência em atendimento, ensino e pesquisa de acidentes e envenenamentos por animais peçonhentos. Integrado ao complexo do Instituto Butantan – que inclui três museus, diversos laboratórios e o próprio Instituto, um dos maiores centros de pesquisa biomédica do mundo – a unidade de saúde se beneficia do intercâmbio entre médicos e pesquisadores em várias áreas da medicina e da biomedicina.

Por essa sua característica, além do atendimento altamente especializado a acidentados por picadas de animais peçonhentos, o HVB é também porta de entrada para a pesquisa. “O Hospital Vital Brazil é um hospital-escola, então, muitos de nós [biólogos] que trabalhamos com animais peçonhentos, fomos formados nesse hospital, e muitos médicos, enfermeiros e farmacêuticos também estão sendo formados nessa unidade”, explica Rejane Lira, diretora do Núcleo de Ofiologia e Animais Peçonhentos (NOAP) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e presidente da Rede Vital para o Brasil, que congrega diversas instituições e pesquisadores da área no país.

“Integrado ao complexo do Instituto Butantan – que inclui três museus, diversos laboratórios e o próprio Instituto, um dos maiores centros de pesquisa biomédica do mundo – a unidade de saúde se beneficia do intercâmbio entre médicos e pesquisadores em várias áreas da medicina e da biomedicina.”

Transferir o atendimento à população para o Emílio Ribas, portanto, faria com que a unidade perdesse sua principal característica. “Existe uma geração inteira de pesquisadores que passou pelo hospital. São médicos, biólogos, pessoas especialistas em diferentes tipos de envenenamento, não só por cobra, mas também escorpião, aranha, abelha, lagarta…É fundamental que isto esteja com uma certa autonomia, não dá para simplesmente encaixar isso tudo dentro do Emílio Ribas porque vai se diluir em meio ao atendimento geral”, defendeu Érico Vital Brazil, neto do cientista e presidente da Casa de Vital Brazil, museu mineiro que preserva parte do legado do médico sanitarista.

Rejane Lira lembra que os dados clínicos, sistematizados, formam a base para a evolução de uma pesquisa, não só para criação de soros, mas também para a indústria farmacológica. “Poder acompanhar o paciente é muito importante [para o pesquisador]… No Butantan existem pesquisadores de renome internacional trabalhando com o estudo do veneno e na produção de medicamentos, como pomada cicatrizante para acidentes por aranha-marrom, analgésicos a partir do veneno de jararaca, estimulante sexual a partir da aranha armadeira. Os venenos são potenciais fármacos poderosos para a indústria farmacêutica, com grande impacto na Saúde”, explica a pesquisadora.

Entenda a polêmica

Na última quarta-feira (28), um anúncio informal sobre a transferência do HVB ao Emílio Ribas, feito internamente a funcionários, repercutiu nas mídias sociais e gerou preocupação na comunidade médica e científica. No mesmo dia, o Instituto Butantan afirmou, em nota, que as atividades do Vital Brazil seriam mantidas e que “o atendimento à população e os estudos clínicos na unidade não serão interrompidos”.

Dois dias depois, no entanto, o diretor do Instituto, Dimas Tadeu Covas, confirmou à imprensa a existência de um plano estadual para, segundo ele, melhorar o atendimento aos acidentes com animais peçonhentos no país, dentro do qual a mudança no Hospital Vital Brazil está inserida.

De acordo com o diretor, o Vital Brazil não oferece leitos para a rede hospitalar estadual, não tem UTI e “precisa evoluir”. “A maioria [dos acidentados que chegam ao hospital] é atendimento ambulatorial. A média de custo de um atendimento nessa estrutura é dez vezes mais do que um custo médio de um hospital do SUS. Isso gera subutilização das equipes e cria distorções grandes dentro do sistema”, disse.

De acordo com o diretor, a Secretaria Estadual de Saúde não informou prazos para que a mudança ocorra, mas, segundo especialistas ouvidos por ((o))eco, ela está prestes a acontecer. “Só vão divulgar [a mudança] quando sair no Diário Oficial, porque daí fica mais difícil qualquer tipo de mobilização. Isso é um absurdo. A motivação deles é claramente econômica, como se um hospital tivesse que dar lucro. O Hospital Vital Brazil é um hospital modesto, mas muito eficiente”, defendeu Erico Vital Brazil.

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Hospital faz parte da estrutura do Instituto Butatan, em SP. Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Segundo um funcionário do Instituto Butantan que preferiu não ser identificado, não é mudando a estrutura que o governo paulista vai garantir a melhora no atendimento. O que traça a excelência, segundo ele, é o ambiente em que o Hospital está inserido. “Se for transferir para o Albert Einsten, por exemplo, vai existir uma estrutura extraordinária, mas em pouco tempo a excelência será perdida, pois os médicos não vão se renovar, não vão ter o ambiente que os torna especial, que é o caso do Butantan. Como isso pode ser considerado um avanço?”, disse.

Para o funcionário, a estrutura modesta do HVB não representa risco aos pacientes ou é aquém da demanda. Pelo contrário, ao ser cuidado por uma equipe altamente especializada, os pacientes têm melhor atendimento. “Se o problema é a estrutura física, acho que seria muito mais proveitoso e interessante que o Governo do Estado investisse na melhoria das condições físicas do HVB dentro do Instituto Butantan. Permaneceria íntegro o ambiente que cria o conhecimento, que cria essa especialização, e melhoraria o atendimento às pessoas. [tratar a mudança como ampliação dos serviços] é só um jogo de palavras, para tentar evitar o confronto com a sociedade, com pesquisadores e com a população. Se é pra melhorar, melhore então o Instituto Butantan”, defendeu.

Se concretizada a mudança do HVB para o Emílio Ribas, além do risco de se perder o atendimento especializado, o paciente ainda enfrentará outros problemas. De acordo com o Sindicato dos Médicos do Estado de São Paulo (Simesp), o Emílio Ribas enfrenta atualmente problemas de estrutura, falta de medicamentos e carência de profissionais. “Estamos bastante preocupados. O [Hospital] Vital Brazil é um serviço pequeno, que não onera muito o Estado. O Emílio Ribas é um hospital que hoje não está operando a plena capacidade”, disse o médico Gerson Salvador, diretor do Simesp.

Até o momento, uma petição online foi criada, solicitando à Secretaria de Saúde do Estado de SP que reveja sua intenção, e , caso a transferência seja concretizada, pesquisadores estudam a possibilidade de formalizar denúncia junto ao Ministério Público, a fim de reverter a mudança.

Fonte: O Eco

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