Mantendo a fé na medicina em um país castigado pela guerra

O médico Jean Chrysostome Gody caminha pelo corredor do único hospital infantil da República Centro-Africana, e o ruído que o acompanha diariamente é o choro que vem da ala onde há dezenas de crianças com déficits nutricionais. As mais doentes estão caladas, apáticas. A pele de uma delas é cinzenta, manchada. Uma enfermeira toca sua cabeça para verificar se ainda vive.

Entretanto, no meio de tanto sofrimento, Gody fala em algo raramente ouvido neste país assolado pela guerra: ele fala em otimismo.

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O hospital já não está repleto de crianças feridas em conflitos. Uma calmaria frágil se difunde em Bangui, capital da República Centro-Africana, onde o governo assinou recentemente um acordo de paz com grupos rebeldes. Por enquanto, o acordo aparentemente se mantém, apesar de um ataque ocorrido em maio, no interior, no qual morreram 20 pessoas.

Em maio, Gody celebrou a primeira leva de pediatras formados na única escola de medicina do país. E o hospital acaba de abrir uma ala, destinada a crianças que sofrem de desnutrição, que custou milhões de dólares.

“Não é o momento e nem o lugar para sermos pessimistas”, afirmou Gody, diretor do Hospital Infantil de Bangui há 16 anos.

Há cerca de sete anos, rebeldes muçulmanos, cansados pela falta de serviços do governo nas áreas rurais, invadiram a capital e entraram em conflito com milícias cristãs em uma guerra que por pouco não se tornou um genocídio. Desde então, grupos armados lutam por território nesta nação rica em minérios. Estes conflitos transformaram em escombros luxos do país.

A maior parte de Bangui, ao longo do Rio Ubangi, está sem abastecimento de água há mais de um ano. À noite, as pessoas invadem as ruas em busca de água, armadas de latões. O fornecimento de energia também é precário. Os aviões não podem pousar à noite pela falta de iluminação nos aeroportos.

O governo do país, que ocupa o penúltimo lugar no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, trata particularmente mal as crianças. Muitas delas são recrutadas para a guerra, enquanto as taxas de mortalidade infantil estão entre as mais elevadas da terra; uma em cada cinco crianças não chega a completar cinco anos de idade. As taxas de desnutrição estão crescendo.

Mas o país fez algum progresso.Um programa de vacinação que exigiu a cooperação das milícias imunizou 74% das crianças, informou o ministro da Saúde, Pierre Somse.

Os médicos que se formam na Faculdade de Medicina da Universidade de Bangui precisam ir ao exterior para completar sua formação nas respectivas especializações. E a maioria deles acaba não regressando. Gody, 60, pensou em fazer o mesmo quando estudava na Costa do Marfim, onde concluiu o curso. Mas então se sentiu envergonhado.

“Um médico, um médico de verdade, deveria furtar-se a tratar os que sofrem? Eu poderia ter esperado para que as coisas voltassem a funcionar aqui, e então retornar, mas será que teria a coragem de olhar essas pessoas nos olhos?”.

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Fonte: O Estado de S. Paulo

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