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Empreendedores covardes fazem mal à economia

Nicholas Nassim Taleb fala que deveríamos ter um dia nacional para celebrar os empreendedores. Isso, segundo ele, seria uma forma de compensação por eles tomarem riscos pelos outros, um ato de heroísmo fundamental para o crescimento e até sobrevivência de economias. Além disso, poucos compreendem que os que dão certo são beneficiados pelos que fracassaram, já que proveram conhecimentos sobre o que pode dar errado. Taleb comenta que, assim como sociedades honram soldados mortos e não os consideram fracassados, não deveríamos considerar empreendedores como fracassados “a não ser que eles ajam de maneira covarde”.

Se você quer entender o que significa um empreendedor covarde leia o livro “Bad Blood” (editora Alta Books) ou assista o recém-lançado documentário “The Inventor: Out for Blood in Silicon Valley.” Eles contam a história da Theranos e de sua fundadora, Elizabeth Holmes, que aos 19 anos largou seus estudos na Universidade de Stanford para se dedicar ao propósito de fazer a diferença na vida das pessoas. Sua revolucionária empresa prometia realizar mais de 250 diagnósticos de doenças a custos extremamente acessíveis com sangue colhido por uma pequena perfuração no dedo e examinado em alguns minutos.

A Theranos chegou a valer cerca de US$ 10 bilhões, fechou contrato bilionário com uma das maiores redes de farmácias dos Estados Unidos e até influenciou a mudança de legislação do Estado do Arizona, que permitiu a indivíduos realizarem exames de sangue sem a necessidade de solicitação médica.

De fato, a empresa nunca conseguiu chegar perto do que oferecia, apesar de já estar vendendo, aparentemente com a esperança de nos bastidores encontrar uma solução para o problema em que se meteu. Essa prática conhecida como “fake until you make it” (algo como enganar até conseguir), não é nova (o documentário relata Thomas Edison enganando investidores por vários anos até conseguir lançar a lâmpada incandescente). Mas o contexto em que vivemos pode favorecer esse tipo de atitude.

No rastro do advento de novas tecnologias e uma explosão de startups com valores de mercado inflacionados, contar histórias legais tem resultado em bons negócios. Isso fica evidente quando se conversa com muitos empreendedores: a referência principal do que significa empreender mudou de construir um legado como o de Bill Gates ou Jorge Paulo Lemann para desenvolver rapidamente um negócio, com uma bela narrativa, que garanta uma boa estratégia de saída para se tornar rico rapidamente. Já ouvi: “tenho que manter o valor da minha empresa até que eu seja adquirido” ou “preciso vender o negócio antes da próxima recessão”. Muitos investidores pararam de valorizar o conhecimento na área e o compromisso com a realização de uma intenção para colocar dinheiro e manipular ‘valuations’ em histórias que possam ser vendidas. Eventualmente, algumas delas viram unicórnios, mesmo com modelos de negócio que estão longe de se provar.

Só nos últimos cinco anos conversei com centenas de startups de serviços profissionais, área em que oferecer soluções baseadas em inteligência artificial e machine learning virou caminho fácil para conquistar novos clientes e convencer investidores. O ponto é que muito do que é prometido só é possível com uma quantidade de dados e uma capacidade de processamento além do que essas startups conseguem acessar. Ainda assim os resultados são questionáveis já que operam em contextos em que a ciência de dados é de baixa validade e onde as variáveis que influenciam os resultados, muitas subjetivas, dificultam o entendimento da causalidade. Isso não as impede de captar dezenas de milhões de dólares, a maioria destinados a marketing e vendas (em vez de produtos e tecnologias), que são utilizados para captar clientes e justificar seus valores de mercado.

Obviamente não dá para ignorar o impacto das novas tecnologias e modelos de negócios e também que existem empreendedores sérios que, mesmo falhando, continuarão a transformar o mundo. Mas não dá para sair acreditando em milagre. Muito do que é oferecido por startups são soluções emergentes que apesar de parecerem ideias geniais precisam ser provadas. Organizações podem observar mais e evitar cair em armadilhas, se engajando em pequenos projetos e os escalando à medida em que provam ser eficientes. Felizmente, muitos deles não oferecem os mesmos riscos para a vida das pessoas como a Theranos. Mas podem deixar muitos mentirosos ricos.

Claudio Garcia é vice-presidente executivo de estratégia e desenvolvimento corporativo da consultoria LHH, baseado em Nova York

Fonte: Valor Online

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