Zika: ‘é preciso acompanhar todos os bebês expostos’

“Esse estudo não traz alento para crianças com microcefalia por ação direta do zika”

 

As crianças cujas mães foram infectadas pelo vírus da zika na gestação têm de ser acompanhadas desde o nascimento, ainda que não tenham sinais de microcefalia e atraso — isso porque nem elas estão livres de apresentar problemas no desenvolvimento. E, quando o diagnóstico é feito cedo, acriança tende a responder bem à estimulação.

 

Essa é a principal conclusão de um estudo que acompanhou 216 bebês nascidos em dezembro de 2016, do pré-natal ao terceiro ano devida, segundo a pediatra Maria ElisabethL opes Moreira, coordenadora de pesquisado Instituto Fernandes Figueira(IFF/ Fiocruz) e uma das envolvidas no levantamento, publicado na segunda-feira pela “Nature Medicine”. Nesta entrevista, ela explica como ocorreram os dois casos de reversão da microcefalia observados na pesquisa e noticiados ontem pelo GLOBO.

 

Como ocorreram os casos de reversão da microcefalia?

Essas crianças que reverteram não apresentaram a microcefalia severa relacionada ao zika. A melhoria do quadro do perímetro cefálico diminuído ocorreu por dois motivos. Primeiro, as crianças eram pequenas para a idade gestacional em consequência de uma restrição decrescimento intra uterino. E já é conhecido que crianças que nascem após um período de restrição de crescimento, se devidamente alimentadas e estimuladas, apresentam o fenômeno de “catch up”, ou seja, são capazes de recuperara curva decrescimento. Esse bebê era todo pequeno: o peso, o comprimento e o perímetro cefálico.

 

As imagens neurológicas também não apresentavam alterações. Ou seja, houve um prejuízo intra útero no crescimento, mas provavelmente não houve destruição de neurônios. Precisamos lembrar que o comprometimento pelo vírus da zika não é uniforme em todas as crianças. A segunda apresentava uma condição cirúrgica que, após ser resolvida, proporcionou o crescimento cerebral adequado.

 

Essa reversão era esperada?

Sabíamos que essas reversões seriam possíveis, sim, pela plasticidade neural e pela forma como as crianças foram conduzidas. Crianças que nascem com o perímetro cefálico diminuído em um quadro de restrição de crescimento intrauterino — como nos casos de filhos de mães hipertensas — têm uma grande chance de reverter isso, desde que devidamente estimuladas.

 

Quão importante é essa descoberta para os estudos sobre a microcefalia?

Esse estudo, infelizmente, não traz alento para as mães das crianças com microcefalia por ação direta do zika. Ele relata que crianças que nascem pequenas por restrição de crescimento intrauterino podem se recuperar pelo “catch up” e pela correção de uma patologia cirúrgica. Estamos acompanhando cerca de 90 crianças com microcefalia em diferentes graus de paralisia cerebral, o que mostra que o vírus age de forma diferente, e isso depende da época da infecção na gestação, da genética, entre outros. Então não se trata de reversão da microcefalia associada ao zika. Lembramos que na coorte de crianças relatada no artigo, elas foram exposta senão necessariamente infectadas. E que nem todas as crianças que nasceram com microcefalia na época da epidemia foram expostas ao vírus. Existem outras causas de microcefalia, como infecções congênitas, causas genéticas e metabólicas.

 

Algum tratamento pode reverter a microcefalia?

Isso depende da causa. No caso dos prematuros e pequenos para a idade gestacional, a estimulação e a nutrição adequada podem, sim, reverter o quadro. Entretanto, estimulação e nutrição adequadas podem melhorar o prognóstico de todos, mas não reverter as alterações do parênquima cerebral.

 

Dentre as crianças acompanhadas pelo estudo, 25% das que tinham microcefalia reverteram o quadro. Podemos considerar essa proporção de melhora para o número global de crianças que nasceram com a doença?

Infelizmente, não. Apenas crianças com condições específicas respondem ao tratamento. A intenção do artigo não foi dar falsas esperanças às famílias das crianças com microcefalia. Elas vêm evoluindo com diferentes graus de limitações motoras e cognitivas que estão sendo tratadas. Mas nem sempre com o mesmo sucesso, pois se trata de crianças com lesões graves sobre o cérebro.

 

Como está a evolução das crianças expostas ao vírus durante a gestação?

Setenta por cento das crianças expostas sem microcefalia ou outros sinais na imagem cerebral ao nascer estão evoluindo sem atrasos de desenvolvimento. O problema é que não conseguimos saber ao nascer quem, dentro das crianças sem microcefalia, vai evoluir com atraso passível de melhoria se encaminhada para estimulação precoce. Por isso, todas as crianças expostas precisam ter seu neurodesenvolvimento acompanhado.

 

O estudo relatou que três crianças foram diagnosticadas com autismo. É possível relacionar o autismo com a infecção pelo zika?

Outras infecções congênitas por vírus podem estar associadas ao autismo, sendo o vírus da zika um novo agente viral e um deles. Assim sendo, essa associação é possível, mas estamos acompanhando, por se tratar de um novo agente.

 

A incidência de 3 em 216 é preocupante?

Esse achado não está diferente das taxas na população geral. A prevalência atual global é estimada em 1 para 100 casos e, nos Estados Unidos, 1 para 68 crianças. Portanto, nossa prevalência não está acima da população geral. Enfatizamos que esse dado sobre a manifestação do espectro autista precisa ser acompanhado por mais tempo, por se tratar de uma coorte jovem com crianças de 3 anos ou menos.

 

À luz dos resultados do estudo, o que uma mãe que foi infectada pelo vírus da zika durante a gestação deve fazer quando seu filho nasce?

Acompanhar o desenvolvimento neuropsicomotor desde os primeiros dias de vida até pelo menos a entrada na escola. Lembramos que o ponto mais importante do artigo é o fato de que crianças sem microcefalia ou alterações ao nascer podem apresentar atrasos de desenvolvimento e, se isso for diagnosticado precocemente, a criança respondem muito bem à estimulação precoce.

Fonte: O Globo

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