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Pesquisadores tentam tornar diagnóstico de Alzheimer e Parkinson mais preciso


Ideia é inibir a proteína, na tentativa de indicar a existência da doença antes que ela se agrave. Resultado é considerado um avanço para o tratamento e para a qualidade de vida dos pacientes. Estudo, que começou com ratos, já é feito em humanos. Pesquisadores analisaram a presença do Rage no cérebro por microscopia de fluorescência.
Arquivo pessoal

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) identificou uma proteína responsável pelo início de processos de neurodegeneração após o organismo sofrer uma inflamação aguda, o que pode levar ao entendimento da causa de doenças como Alzheimer e Parkinson.

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“Nunca se estudou ela nesse contexto clínico anterior, como causa da doença. Para tratar doença neurodegenerativa atualmente, como é uma doença que você perde muito neurônio, e neurônio é uma célula com renovação muito limitada, praticamente não se divide. Então a gente ficou na causa, lá na origem da doença. Nós somos, em Parkinson, o único grupo no mundo trabalhando com o Rage [proteína] como origem da doença”, explicou ao G1 o professor do Departamento de Bioquímica da UFRGS e coautor da pesquisa Daniel Pens Gelain.

Chamada de Receptor para Produtos Finais de Glicação Avançada (Rage, na sigla em inglês), essa proteína está presente normalmente no sistema imune, mas também pode aparecer em outros tipos de células quando há uma inflamação.

A ideia é que o estudo possa contribuir para tornar mais preciso o diagnóstico do Parkinson, que hoje é feito a partir da análise dos sintomas, o que costuma ocorrer quando a doença já está bastante avançada. Ainda não existe um exame capaz de identificá-la com exatidão.

“Desenvolver um exame de sangue que detecte alguma alteração relacionada à doença antes da manifestação dela seria o ideal para o tratamento. O problema da neurodegeneração é que depois que ela está diagnosticada, já há muita perda neuronal. Os tratamentos são todos para aliviar os sintomas, não existe nenhum tratamento que barre a neurodegeneração”, destaca Gelain.

A identificação de marcadores clínicos que indiquem a existência da doença antes que ela se agrave seria um avanço para o tratamento e para a qualidade de vida dos pacientes.

Em testes com ratos, os cientistas conseguiram inibir a ação da proteína no cérebro dos animais e evitar a neurodegeneração. Os resultados do estudo foram publicados em 2017, no periódico internacional Journal of Biological Chemistry.

Este ano, o artigo foi selecionado para constar em um número especial da revista em que estão reunidos os trabalhos considerados mais representativos dos avanços da pesquisa científica em bioquímica realizada na América do Sul, nos últimos quatro anos.

Estudo de inibição do Rage
Para chegar a esse resultado, os cientistas induziram a sepse nos animais. A sepse ocorre quando, na tentativa de proteger o corpo de um agente infeccioso, o sistema imunológico provoca uma inflamação generalizada, que se espalha pelo organismo e acaba afetando diferentes órgãos, podendo até mesmo comprometer seu funcionamento.
Conforme o pesquisador, a motivação para o trabalho surgiu da observação de que os pacientes de sepse, mesmo após sua recuperação, apresentavam grande frequência de sequelas, com variados problemas neurológicos.

Os cientistas verificaram que, após a recuperação da sepse, os animais apresentavam uma série de alterações características da doença de Alzheimer.

Já os animais que tiveram a proteína Rage inibida após a sepse tiveram uma recuperação desses marcadores bioquímicos e melhores performances em testes cognitivos.

“Neste trabalho, a observação que eu considero mais importante é que nós inibimos a proteína, o Rage, já bem depois da sepse, numa fase em que começam os primeiros indícios de neurodegenaração no cérebro. Isto é uma coisa que faz falta na clínica hoje, que faz falta num contexto de medicina: tratamentos que possam ser aplicados quando já tem a doença diagnosticada”, afirma Gelain.

Camila Tiefensee Ribeiro, bolsista de mestrado, realiza teste de coordenação motora em ratos.
Arquivo pessoal
Doença de Parkinson

Em outro artigo, publicado na revista Scientific Reports, os pesquisadores demonstraram que a inibição do Rage interrompeu o desenvolvimento de Parkinson em ratos. A doença é caracterizada pela perda de neurônios e os principais sintomas estão relacionados ao sistema motor.

Veja também: https://panoramafarmaceutico.com.br/2019/08/27/apae-de-sp-cria-guia-sobre-erros-inatos-do-metabolismo/

Os roedores nos quais o Rage foi bloqueado tiveram menos neurônios perdidos e melhor desempenho nos testes de coordenação motora.

“Foi um resultado bastante bom, e nós estamos focando agora a doença de Parkinson para os nossos próximos trabalhos”, relata Gelain.

Para os pesquisadores, o trabalho pode colaborar para a compreensão dos processos que envolvem a neurodegeneração e para a busca de novas formas de tratamento.

O estudo está confirmando algumas hipóteses relacionadas à origem da doença, que é pouco conhecida pelos pesquisadores. Segundo o professor, uma sequência de eventos inflamatórios, durante a vida das pessoas, desencadeia, de alguma forma, um processo inflamatório no cérebro.

“Quando isso é na região que é afetada no Parkinson, acaba virando Parkinson. Quando isso é na região afetada pelo Alzheimer, vira Alzheimer. E quando o cérebro não consegue terminar esse processo de inflamação, o Rage fica lá, porque a resposta inflamatória é uma coisa que o organismo faz para se livrar de algum problema, só que às vezes a gente não consegue terminá-la. O porquê de não conseguir terminar em alguns casos não está muito claro, mas isso acontece bastante”.

Melhora do diagnóstico
Os pesquisadores também desenvolvem estudos com cérebros humanos, comparando amostras de pessoas saudáveis e de doentes com Parkinson, em uma parceria com o Banco de Cérebros da Universidade de São Paulo (USP). São realizados estudos clínicos com pacientes diagnosticados com a doença, em colaboração com a Santa Casa de Misericórdia e com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

O acompanhamento com os pacientes acontece há cerca de três anos. São feitas coletas e análises do sangue para avaliar os sintomas e alterações ao longo do tempo.

“Por isso estamos muito empolgados com esses dados clínicos, com esse estudo. Os médicos estão nos dando bastante amostra, estão bem empolgados também”.

Fonte: Silvani Notícias

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