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Wall Street vive expansão de oferta de investimentos em maconha

O mercado acionário americano tem visto nos últimos anos uma rápida expansão das ofertas de investimentos em empresas ligadas à indústria da maconha legalizada. O movimento começou anos atrás quando a Califórnia aprovou o uso da planta para fins medicinais. Depois, o Canadá, ao lado do Uruguai, liberaria o uso recreativo do produto.

Nos EUA, diversos Estados seguiriam o exemplo californiano. E, em 2012, Washington e Colorado deram um passo além e legalizaram o uso recreativo. Hoje, 31 entre 50 Estados do país, mais Washington D.C., permitem o uso medicinal, e 9 deles aceitam o recreativo. Nesse cenário, não tardou a surgirem muitas empresas produtoras – e algumas cresceram a ponto de abrirem capital. Hoje há mais de cem companhias com ações, além de outros IPOs aguardados no segmento. A maioria desses papéis são negociados no mercado de balcão, mas alguns circulam em bolsas.

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A primeira companhia do ramo a fazer IPO (oferta inicial de ações) na Bolsa de Nova York (Nyse) foi a Innovative Industrial Properties (IIPR), em 2016. Hoje, há ao menos dez empresas afins na Nyse. Já a canadense Cronos Group, de biotecnologia, foi a primeira a ter ações, em 2018, na bolsa digital (e também um índice) Nasdaq. Já são 15 empresas de maconha por lá, como Arena Pharmaceuticals, firma americana de biotecnologia que produz remédios; Marrone Bio Innovations, que cria pesticidas e defensivos; New Age Beverages, companhia de bebidas focada em produtos à base de cânabis, como chás, refrigerantes e kombuchas; e Village Farms International, firma tradicional de horticultura que recentemente aderiu à maconha.

O faturamento no segmento deve saltar dos atuais US$ 10 bilhões para US$ 31,3 bilhões em 2022 – a estimativa é dos institutos ArcView e BDS Analytics. Outra firma, a Grand View Research, estima US$ 66,3 bilhões até 2025, ano em que, no mundo todo, a indústria deve girar US$ 166 bilhões, segundo a Euromonitor International.

Na América do Norte, nasceram sites especializados em investimentos em cânabis, e consultorias divulgam manuais sobre como investir. Há também gestoras, investidores-anjo e fundos de ?venture capital? para o segmento, e existe até um Instituto Nacional para Investidores em Cânabis (NICI, na sigla em inglês). E multiplicam-se, claro, relatos de gente que ganhou muito dinheiro. Como Bart Mackay, advogado de 57 anos de Las Vegas que, no papel, foi o primeiro bilionário das ações de maconha.

Mas nem tudo são flores. As ações dessas empresas têm alta volatilidade, devido a razões como variações na oferta e na demanda e riscos associados a proibições de governos. Desde 2016, por exemplo, o Marijuana Index – índice que reflete o desempenho de 47 ações de empresas americanas e canadenses com capitalização superior a US$ 30 milhões e giro diário acima de US$ 600 mil – subiu 103,5%. No período, o índice acionário S&P 500 subiu 41%. Observando-se apenas o último ano, porém, o indicador caiu 47,59%, enquanto o S&P 500 subiu 3,67%. Mas mesmo este revés pode significar oportunidades: nos EUA, especialistas têm identificado na atual baixa uma oportunidade para começar a investir em ações de cânabis.

Especialistas, no entanto, sugerem cuidados antes de colocar dinheiro nesse tipo de ação. O primeiro é meio subjetivo: faz sentido para seu perfil apostar nesse segmento. Quem pergunta é Fábio Gallo, professor de finanças da FGV-EAESP. “Muita gente é contra queimadas na Amazônia, mas tem ações de empresas que fomentam isso. Ou é contra o aborto, mas investe em laboratórios que vendem pílulas”, diz.

Também é essencial estudar o mercado, buscando entender a terminologia específica do segmento e seus modelos de negócios, dizem especialistas. É importante saber na hora de investir em firmas que produzem para uso recreativo que apenas nove Estados americanos o autorizam. Mesmo no caso de maconha medicinal, é preciso avaliar os critérios locais para requisição dos remédios, que podem ser mais ou menos restritivos, o que influencia o potencial da empresa. Além disso, ações negociadas em mercado de balcão, não em bolsa, obrigam o investidor a ser mais proativo na busca por informações contábeis e de compliance, por exemplo.

Também é importante diversificar dentro da indústria: há firmas que produzem remédios, droga recreativa (de cigarros a óleos), defensivos agrícolas e softwares, além de um crescente segmento de bebidas.

Mas a grande dúvida do brasileiro é: como faz para investir no setor. Esse investimento no exterior pode se dar por duas vias: comprando ações das empresas ou adquirindo cotas de ETFs (Exchange Traded Funds, os fundos de índice) que investem em companhias do segmento.

Adriano Cantreva, sócio da Portofino Investimentos, que tem escritórios em Nova York, São Paulo e Porto Alegre, traça um mapa para o brasileiro acessar esses ativos. “Uma maneira é na pessoa física. Digamos que você tem R$ 1 mil no Brasil. A primeira coisa é abrir uma conta em uma corretora”, diz. Depois, fecha um câmbio, gera US$ 250 na corretora, acessa o home broker e compra os ativos. Outra opção, diz, é abrir uma empresa em um paraíso fiscal, as chamadas “offshores”. Mas isso vale para investidores com mais recursos, dado os custos de criação e manutenção de uma companhia dessas.

Como pessoa física ou jurídica, o trâmite nas corretoras – que cobram taxas por ordens de compra ou venda – está se transformando graças à tecnologia, explica Roberto Lee, CEO da Avenue Securities, em Miami. Como funcionava: o cara tinha que vir aqui nos EUA, ia a uma agência da corretora, abria uma conta também em um banco, fazia a remessa financeira. Os spreads eram caros. Essa dinâmica, diz, acabava afugentando o pequeno investidor. Agora, para abrir conta precisa de CPF, RG e comprovante de residência no Brasil. Cinco minutos. E a remessa de valor aparece na plataforma em 90 segundos, enquanto no passado levava dias. Não há um piso para investir. Segundo Lee, a automação vem reduzindo custos e permitindo serviços mais acessíveis ao varejo. Tem gente que abre conta com US$ 10. Mas o público-alvo tem depositado entre US$ 15 mil e US$ 20 mil. E tem ações que custam US$ 1.800, mas é possível comprar frações.

Esse investimento, diz, requer apetite para risco: É para quem tolera perdas agressivas, inclusive do principal. Estrategista-chefe da Avenue, William Castro Alves detalha como ETFs podem mitigar esse risco. Todo setor nascente enfrenta dificuldades. O da canábis se assemelha ao da tecnologia 20 anos atrás: quantas empresas como o Google morreram É difícil saber qual vai ser bem-sucedida. Ele cita o Alternative Harvest (MJ), que aplica quase US$ 1 bilhão (US$ 932,62 milhões) em 36 empresas. Com um único ativo, a cota do ETF, o investidor se expõe a todo o setor em que acredita.

Lee relata um grande crescimento na demanda de brasileiros por ações do segmento. São 30 a 40 telefonemas todos os dias. O volume financeiro é residual, mas a quantidade de ordens é violenta. Cantreva, da Portofino, também relata maior procura por ações nos EUA, não só de maconha. Os juros em baixa e as opções limitadas no Brasil fazem as pessoas buscarem alternativas, como Apple ou Uber.

Veja também: https://panoramafarmaceutico.com.br/2019/08/29/brasil-registra-23-mil-casos-confirmados-de-sarampo/

Sócio de direito penal empresarial no escritório Mattos Filho, Rogério Taffarello diz que tanto a lei nacional quanto as do Canadá e dos Estados americanos onde a maconha é legalizada tornam sem sentido um brasileiro ser punido por investir nas ações de empresas que trabalham no setor. Um dos pressupostos do direito internacional para punição é a conduta ser crime nos dois lugares, ou seja, no país de onde a pessoa investe e naquele no qual é feito o investimento.

Também sócia do Mattos Filho, na área de life sciences e saúde, Ana Cândida Sammarco acrescenta um aspecto regulatório: fundos têm ainda mais resguardo do que ações. Haveria uma proteção adicional, pois os investidores não elegem quais ativos serão investidos; essa é atividade do gestor.

Arthur Pinto de Lemos Júnior, promotor de Justiça e coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal (Caocrim) do Ministério Público de São Paulo, concorda: Considerando que o investimento ocorra no exterior, em países com o respaldo legal, não verificamos problemas penais.

Ainda assim, Taffarello ressalva que há, sim, um risco residual de dor de cabeça no âmbito criminal – e o investidor deve estar ciente. Primeiro, porque os crimes na Lei de Drogas (11.343/06) são ?tipos penais abertos?: previsões pouco específicas pela dificuldade de antever novidades como essa. Outro risco é o de leituras distintas por parte de agentes policiais e do Ministério Público, que têm autonomia para formarem suas próprias convicções sobre casos e pessoas.

Fonte: Valor Online

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