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Dogmas: Antidepressivos funcionam?

A ciência médica é baseada em dogmas, assim como a ciência psicanalítica. Acreditamos que certos pressupostos são verdadeiros para podermos executar nossa prática em direção ao outro. Mas se não questionássemos com certa regularidade esses pilares do conhecimento não teríamos ido muito além da teoria dos humores de Hipócrates, com seus fluídos coloridos de mais de 2000 anos atrás.

Hoje em dia chega a ser herético o questionamento da eficácia dos medicamentos psiquiátricos. Eu mesmo não consigo de fato me imaginar exercendo a psiquiatria sem o meu arsenal de substâncias tão preciosas. Por outro lado não é demais pensar que estamos sob pressão constante da indústria farmacêutica para prescrever mais remédios e remédios mais caros, muitas vezes para pessoas que simplesmente não precisam deles.

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Pois bem, um novo trabalho científico da Dinamarca torpedeou seriamente um pilar central dessa estrutura. O artigo, publicado no conceituado British Medical Journal, questiona esses dogmas, o quanto os antidepressivos são de fato mais eficientes do que o placebo. Como se sabe, para se provar se determinado remédio serve ou não, muitas vezes ele é testado em comparação com pílulas falsas, sem a substância dentro. Como o paciente não sabe se existe a medicação de fato, muitas vezes ele melhora somente por acreditar que está tomando o remédio. Esse é o chamado “efeito placebo“. E ele é tão poderoso que muitas vezes acaba por ser equivalente à própria medicação que está sendo testada.

Não é de hoje que sabemos que os antidepressivos nunca tiveram vida fácil em comparação com o placebo. Os benefícios só começam a ficar evidentes em grandes estudos com grande quantidade de pacientes testados. O que o estudo agora mostra é que mesmo nos grandes estudos a diferença talvez seja muito pequena ainda. Entre vários possíveis vieses, saliento aqui dois deles.

Em primeiro lugar uma crítica em relação à suposta superioridade do placebo é a respeito do que é chamado de “placebo run-in”. O que seria isso? É uma fase antes do estudo começar, onde os pacientes recebem placebo por um curto período de tempo e, se melhorarem, são eliminados do estudo. Isso mesmo, só entra no estudo quem não mostrou uma resposta ao placebo antes. Isso obviamente pode levar a uma distorção dos resultados a favor da substância testada e contra o placebo.  Não é uma norma; pode ser utilizado ou não a critério do pesquisador.

Outra crítica importante nesse dogmas é que muitas vezes as pesquisas que mostram pouca efetividade do remédio testado simplesmente não são publicadas. É muito mais interessante publicar “novo remédio trata depressão” do que “nova molécula fracassa e empata com placebo”. Desse modo, quando fazemos as grandes revisões científicas, aparecem muito mais trabalhos positivos do que negativos na literatura.

Mesmo com todos esses vieses, a diferença encontrada entre o placebo e os antidepressivos foi de 1,97 pontos numa escala de 52. Isso mesmo, em 52 pontos possíveis pela escala de depressão, os antidepressivos chegaram menos de dois pontos à frente. Isso é muito pouco, digno de VAR para se tirar a dúvida, meia chuteira à frente.

Isso não significa que eu vá parar de prescrever antidepressivos, nem inclusive parar de trabalhar com a psicanálise, mais carente ainda de evidências científicas que a psiquiatria. Mas é bom para a gente manter o senso crítico e pensar se de fato estamos fazendo a escolha certa em cada caso.

Fonte: UOL

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