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Não há solução mágica para o crescimento sustentável

Um dos maiores bancos de investimentos do mundo, o Morgan Stanley tem perspectiva de crescimento do País inferior a de seus concorrentes. Enquanto o mercado estima alta do PIB de 2,2% em 2020, o Morgan estima 1,7%. Mesmo assim, Alessandro Zema, que está à frente da instituição no Brasil, enxerga boas perspectivas. “Não existe solução mágica para o crescimento sustentável: ele é lento e gradual”, diz. “Tentamos soluções mágicas no passado, e todas falharam.

Para ele, a agenda macroeconômica está correta e o País tem a maior agenda de privatizações do mundo, o que cria uma perspectiva de longo prazo atraente. Zema afirma, ainda, que os investidores estrangeiros não estão fugindo do Brasil. Pelo contrário: participaram de metade das emissões do mercado de capitais este ano, que movimentaram quase R$ 60 bilhões, e estão de olho em aquisiçõe. A seguir, os principais trechos da entrevista:

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Como o sr. vê o desempenho da economia em 2019? Ficou menor que o mercado esperava.

Estamos vendo um alinhamento da política monetária e fiscal, o que tem gerado resultados super positivos. Taxa de juros baixas, inflação sob controle, percepção de risco-País muito baixa. Dito isso, o crescimento virá de forma muito gradual. A gente já começa a ver os primeiros sinais disso acontecendo, que é sair de uma geração de formação formal de 20 mil empregos por mês no início do ano, para 50 mil por mês agora. Temos visto aumento de concessão de crédito para pessoa física e jurídica por volta de 10% no ano a ano. Os índices de confiança do consumidor estão lentamente voltando. Existem sinais de que esse crescimento paulatinamente está começando a voltar, mas não será exponencial. Não existe solução mágica para criar crescimento sustentado. O governo está na direção correta e tem feito a agenda que o mercado esperava. Teremos sinais mais auspiciosos daqui para frente.

Auspiciosos mesmo com esse cenário externo levantando preocupação?

O cenário internacional, sem dúvida nenhuma, preocupa e a gente não consegue ficar isolado do que acontece no mercado internacional, que vive tensões internacionais e os bancos centrais reduzindo taxas de juros. Mas a gente está vivendo um momento interessante de Brasil sob o ponto de vista de atratividade de recursos para os investidores do que nos últimos anos. Mesmo com cenário adverso, o Brasil está sub-alocado nos portfólios de mercados emergentes. O Brasil representa hoje 8% do MSI, índice que mede emergentes. Essa é um alocação muito baixa. Temos um potencial de atratividade de recursos muito maior sob o ponto de vista macro. Vivemos no Brasil o programa de privatização mais ambicioso globalmente. O governo está dizendo que está saindo de 135 empresas estatais para 12, até 2022. Aliado a isso, tem todos os programas de concessões, os leilões de pré-sal e cessão onerosa. Estamos falando de um volume expressivo de recursos, que pode chegar a R$ 1 trilhão vindo para o Brasil, nos próximos anos.

Esperava-se essa chegada de recursos para antes, mas houve um atraso. Isso depende de aprovações de reformas macro?

O governo está avançando na agenda de reformas. Começou com a Previdência, ainda tem muito coisa, como a aprovação do marco de saneamento, independência do Banco Central, reforma tributária, administrativa. À medida que se vai avançando nessa agenda de reformas, maior a atratividade que o Brasil consegue ter para investidores de fora. Este ano, as empresas fizeram uma emissão de dívidas no exterior 44% maior que no ano passado, atingindo US$ 20,8 bilhões. O mercado local de dívidas cresceu quase 10% neste ano. As emissões de ações este ano também cresceram muito. Tivemos quase R$ 60 bilhões e vamos ver pelo menos mais R$ 30 bilhões em operações podem ocorrer até o fim do ano. A normalidade do ponto de vista macro, da política macro andando em consonância com a política fiscal, tem feito com que a atratividade do Brasil para os investidores tenha aumentado.

Mas os investidores estrangeiros não vieram…

Queria desmistificar o fato de o investidores estrangeiro estejam saindo do Brasil. A B3 publicou a informação de que teve um fluxo de saída de R$ 22 bilhões de investidores da bolsa brasileira. Tem dois aspectos que as pessoas não estão considerando. Primeiro, desconsideram as emissões de ações que as empresas realizaram esse ano. Dos R$ 58 bilhões, sendo que os estrangeiros entraram com 50% disto. Teve uma saída de R$ 22 bilhões e uma entrada de 29 bilhões. O segundo aspecto é que o Brasil representa 8% do MSI (índice de país emergente). Houve uma saída de mercado emergentes como um todo de US$ 35 bilhões para desenvolvidos. Isso representa US$ 2,8 bilhões quando se calcula o quanto o Brasil representa, ou R$ 11 bilhões. Dos 22 bilhões, R$ 11 bilhões são fundos passivos que saíram de mercados emergentes como um todo. Não é movimento de Brasil. Quando você incorpora fluxo que entrou de emissões de ações, vê um fluxo líquido de R$ 17,6 bilhões até agora no País. O investidor gringo está vindo e existe potencial de atrair mais.

Estamos vendo as empresas trocando investimento de banco público e de fomento por financiamento privado. Existe uma estimativa de quanto pode chegar nessa troca de origem do financiamento?

Não tem um numero para passar. É fato que o setor privado ainda não preencheu o espaço que o setor publico deixou para trás no que diz respeito a investimento na economia. Só a Petrobras investia US$ 50 bilhões por ano. O setor privado não tomou esse protagonismo, até porque existe ociosidade muito grande na indústria ainda. O mercado de capitais se desenvolveu tanto que pode ocupar um espaço que o BNDES deixou. Este ano tivemos emissão local de R$ 170 bilhões no Brasil. Vemos esse mercado crescendo em termos de volume e de prazo. Antigamente no mercado local, era possível emitir por três a cinco anos, no máximo. Hoje há emissões mais longas. O mercado de capitais conseguiu ocupar boa parte do espaço que o setor público fazia e vai continuar sendo daqui para frente. Com taxas de juros historicamente baixas como a gente está vivendo, ajuda muito. A projeção do banco de taxa de juros é de 4,5% para o fim do ano, e 4,25% para o ano que vem. A gente está falando de ter taxa de juros real no Brasil entre 0,5% e 1% ano que vem. Algo absolutamente inédito.

Os discursos mais polêmicos do presidente não afugentam investidores?

Os investidores estão preocupados com assuntos macroeconômicos e têm acompanhado com atenção a melhora no cenário macro. Essa perspectiva de bons fundamentos para o Brasil não escapa da atenção dos investidores. O que fariam eles virem mais para o Brasil? Mais crescimento do PIB, que virá de forma gradual. De novo, a gente tentou soluções mágicas no passado e todas elas falharam. Desta vez, tem uma agenda muito clara do que tem sido feito e do que será feito. Ela vai ser lenta, gradual, mas vai ser sustentável, diferente de outras oportunidades do nosso passado recente, quando a gente teve um pico de crescimento muito alto e custou muito mais depois. Não existe solução mágica para trazer crescimento sustentável: é lento e gradual.

Ainda há empresas com capacidade ociosa. O crescimento da economia ainda será baixo em 2020?

O consenso de mercado para o ano que vem é de crescimento de 2,2% do PIB. É o consenso do mercado, não do Morgan Stanley.

Qual é a do Morgan?

De 0,7% para este ano e 1,7% para 2020. A gente tem visto o crescimento trimestre a trimestre este ano. O que me deixa mais confiente com relação ao crescimento do PIB daqui para frente é o aumento de concessão do crédito, a diminuição do desemprego e as privatizações.

As privatizações serão a porta de entrada maciça de investidores ou há outra setores que vão atrair negócios?

Temos visto na Bolsa, nos últimos meses, que os setores de consumo e varejo, imobiliário, educação, saúde e tecnologia, têm atraído investidores de maneira mais forte. Isso tem a ver com a demografia e disrupção de determinados setores, como as fintechs de pagamento, crédito e serviços.

Veja também: https://panoramafarmaceutico.com.br/2019/05/24/a-historia-e-as-estrategias-da-natura-empresa-brasileira-que-comprou-a-avon/

Mas setores como educação e saúde já passam por um movimento de consolidação há algum tempo…

Por isso eu falo que a demografia é importante. Esses setores passam por esse movimento, mas ainda há muito espaço para avançar. Há um porcentual da população que não tem acesso a serviços básicos, seja em educação ou saúde. Quando investidor olha, muita coisa aconteceu, mas tem um mundo de coisa que falta acontecer. Disrupção digital em saúde e educação, com espaço que o setor privado ocupar espaço que o setor público não conseguiu oferecer serviços de qualidade. Os setores de consumo e varejo têm estado aquecidos por conta da perspectiva de melhora da economia. Não são mais os exportadores, como há algum tempo, que animam os investidores.

Quais outros benefícios da privatização, além dos recursos que o governo poderá levantar com a venda dessas empresas?

Muitos falam do potencial de privatização. O que pouca gente fala é que essas empresas, uma vez privatizadas, vão se tornar mais eficientes, gerar muito mais resultados e deverão pagar muitos mais impostos do que quando eram empresas estatais. A Vale paga hoje valor muito maior de impostos do que antes. Não é só a monetizaçao em si com a venda das estatais brasileiras. Mas a capacidade de gestão dessas empresas livre das amarras de pagar muito mais impostos para o governo daqui para frente. Para o setor público, é um valor bem maior que o beneficio imediato da venda. É a capacidade das empresas mais eficientes pagarem mais impostos dali para frente.

Quais são os planos para o Morgan Stanley no Brasil?

Estamos no Brasil há 23 anos e nunca estivemos mais otimistas com o futuro do País do que agora. Além de preservar nossa posição de liderança em equities (ações), mercado de capitais e M&A (fusões e aquisições), queremos também expandir nossa atuação em asset management (gestão de ativos, que iniciaram no ano passado) e private wealth management (gestão de fortunas, área que o Morgan Stanley é um dos maiores gestores do mundo com US$ 2,6 trilhões sob gestão).

Fonte: Terra

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