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O medicamento personalizado que está ajudando menina com doença rara e fatal

Uma garota com uma doença fatal no cérebro recebeu uma medicação singular que foi inventada “do zero” especificamente para ela e em tempo recorde.

 

Mila Makovec, hoje com oito anos, foi diagnosticada com a doença de Batten, condição sem tratamento conhecido e que leva à morte.

 

Em menos de um ano, médicos do Hospital da Criança de Boston, nos Estados Unidos, criaram uma droga feita sob medida para corrigir falhas específicas do DNA de Mila.

 

Agora ela tem tido muito menos convulsões, mas ainda não está curada.

 

Doença de Batten

Essa doença é incrivelmente rara, piora progressivamente e é sempre fatal.

 

Mila tinha três anos quando seu pé direito começou a entortar. Um ano depois, ela passou a precisar segurar os livros bem perto do rosto porque estava perdendo a visão e aos cinco anos de idade ela sofria quedas e andava com dificuldade.

 

Aos seis, ela ficou cega, mal falava e tinha convulsões.

 

A doença pode ser causada por uma série de mutações genéticas que atrapalham a capacidade das células de quebrarem e reciclarem resíduos.

 

Em vez disso, eles se avolumam e podem levar à morte das células do cérebro.

 

O caminho do tratamento

A família de Mila recebeu o diagnóstico da doença de Batten e sabia que as causas eram genéticas.

 

Eles começaram uma campanha — a Fundação do Milagre de Mila — em busca de curar algo incurável.

 

“Eu estava jantando num certo dia e minha mulher falou que uma amiga havia compartilhado um post no Facebook de uma família no Colorado em busca de ajuda”, relata o médico Timothy Yu à BBC.

 

Ele encontrou Mila pela primeira vez em janeiro de 2017. E o que se seguiu foi algo extremamente rápido e sem precedentes.

 

A equipe em Boston realizou um sequenciamento genético completo do DNA de Mila e identificou uma única mutação que causava a doença.

 

Após identificarem a falha, os pesquisadores avaliaram que seria possível tratá-la.

 

Eles então desenvolveram uma droga, que foi testada em células de Mila e em animais de laboratório e recebeu aprovação do órgão regulatório dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês).

 

Mila foi tratada com o medicamento, batizado de Milasen, em 31 de janeiro de 2019.

 

Normalmente, drogas levam uma década e meia para sair do laboratório, passar por testes clínicos e chegar aos pacientes.

 

A equipe médica americana completou esse processo em um ano.

 

“Quando paramos e olhamos para trás, ficamos bastante orgulhosos e surpresos. Às vezes ajuda ser ingênuo, e saber que tínhamos uma criança que estava sofrendo nos motivou a realizar um trabalho incrivelmente rápido”, relata Timothy Yu.

 

E acrescenta: “Nós não temos conhecimento de nenhuma outra droga que foi confeccionada dessa maneira”.

 

O que esse processo representa para Mila?

A droga que a garota recebe não é capaz de desfazer todo o dano causado pela doença.

 

“Eu diria que no primeiro ano ficamos muito emocionados. Aparentemente houve pouco progresso da doença”, relata Yu à BBC.

 

Esta é uma doença na qual o avanço é normalmente inexorável.

 

A frequência de convulsões de Mila passou de 15 a 30 por dia (com duração em torno de dois minutos) para algo entre 0 a 20 por dia, em geral durando alguns poucos segundos.

 

Segundo a família dela, a garota tem tido melhoras em sua postura e na deglutição.

 

“Avaliamos que a doença está progredindo mais lentamente do que o normal e esperamos que ela estabilize”, afirma Yu.

 

Ele acredita que em futuros casos seja possível intervir com mais antecedência, quando a criança tiver três ou quatro anos, algo que “poderia fazer uma grande diferença”.

 

Como o medicamento funciona?

A abordagem adotada neste caso é bastante inteligente e demanda um entendimento preciso do que exatamente está acontecendo de errado.

 

Uma instrução genética para a formação de proteína estava defeituosa no DNA de Mila, e a proteína desfuncional estava causando a doença.

 

Para sair do DNA à proteína, há um estágio intermediário: um “mensageiro” (o mRNA) é criado para levar as instruções do DNA no núcleo celular para o lugar no qual as proteínas são feitas.

 

Mas havia um problema na formação desse “mensageiro”.

 

O código genético nesta seção do DNA era copiado incompletamente para o mRNA — algumas partes são recortadas em uma das etapas do processo, chamada de splicing.

 

No caso de Mila, o splicing estava com problemas, levando à fabricação de um mensageiro errado e, por consequência, de uma proteína defeituosa.

 

A equipe médica desenvolveu um medicamento que “remenda” a formação do mRNA e impede que o corte seja feito no lugar errado.

 

Esta é a mesma tecnologia que está sendo usada como esperança de tratamento para a devastadora doença de Huntington. Mais detalhes podem ser vistos na publicação científica New England Journal of Medicine (em inglês).

 

Quanto custa o tratamento?

O custo de uma terapia extremamente personalizada é uma das principais barreiras para ampliar o alcance dessa abordagem médica.

 

A equipe de pesquisadores não divulgará quanto custou o desenvolvimento dessa droga.

 

Mas Yu ressalta: “Não teríamos ido adiante se não víssemos possibilidade de torná-la acessível. A ideia de gastar milhões de dólares em remédios para milionários não se encaixa no que estamos fazendo aqui.”

 

Este tratamento pode ser adotado para outras doenças?

Sim. Há mais de 7.000 doenças raras causadas por anormalidades genéticas, que geralmente sofrem com falta de tratamento.

 

Nem todas as doenças raras, nem todos os pacientes com doença de Batten podem ser tratados da mesma maneira que Mila.

 

Mas a esperança está na medicina de fato personalizada, baseada em entendimento genético detalhado das causas da doença pode levar a um tipo de tratamentos precisos.

 

Janet Woodcock, da equipe de regulação de drogas do órgão regulatório americano (FD), afirma que a medicina personalizada levanta novas questões,

“Nessas situações, que tipo de evidências são necessárias para expor um humano a uma nova droga? Mesmo com progresso rápido em doenças fatais, complicações graves ou mesmo a morte não são aceitáveis, então qual é o mínimo de garantia de segurança que precisaremos ter?”

Fonte: BBC

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