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Como as fake news mudaram a vida de um cientista

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As fake news – Ninguém sabe bem o que é ser vítima de uma fake news até passar pela experiência. Do dia para a noite, tudo muda. A sensação de injustiça e de revolta é muito grande. Sou médico e pesquisador. Nos últimos meses fiz parte de uma equipe que pesquisou os efeitos da cloroquina. Em meados de abril, publicamos os dados preliminares de nossa pesquisa. Isso é praxe. Permite que outros pesquisadores revisem o trabalho e apresentem sugestões. Nossa conclusão preliminar foi que doses mais altas de cloroquina para os pacientes graves da Covid-19 são muito tóxicas.

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Nosso trabalho foi o primeiro estudo controlado e randomizado com a cloroquina para a Covid-19. Escolhemos as doses que seriam dadas aos pacientes com todo o cuidado. Os primeiros trabalhos na China mostraram que a cloroquina só matava o coronavírus em doses mais altas. Os chineses usaram a cloroquina durante dez dias. Nós optamos pela maior dose possível desde que fosse segura para o paciente, o que ficou abaixo da dose na China. Além disso, no Brasil, o remédio foi dado por cinco dias, também para garantir a segurança. Nosso projeto foi aprovado pelo Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Todos os pacientes assinaram termos de autorização e consentimento. Eles e suas famílias sabiam dos riscos.

Marcus Lacerda liderou a pesquisa sobre a cloroquina tentando encontrar uma solução para a Covid-19. Ao descobrir que não funcionava, virou alvo do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Foto: Érico Xavier / Instituto Carlos Borborema

Nunca tomamos decisão alguma de forma individual. Sempre fomos acompanhados por um comitê independente externo. Essas pessoas avaliavam dia a dia o que estava acontecendo no estudo. Houve um momento em que perceberam que as pessoas que recebiam doses mais altas estavam apresentando arritmia cardíaca. Paramos o estudo e, na primeira avaliação, identificamos que sete pessoas morreram no grupo da dose alta e quatro no grupo da dose baixa. Por isso, repito, nossa conclusão na versão preliminar do estudo foi que doses mais altas de cloroquina para os pacientes graves da Covid-19 são muito tóxicas.

Até o estudo preliminar se tornar público, em meados de abril, tudo que aconteceu é praxe na área científica. O que veio depois, não. No mesmo dia da publicação, houve uma repercussão muito forte na imprensa americana. O canal de TV CNN e o jornal The New York Times divulgaram amplamente o artigo como um sinal de cautela. No dia seguinte, tivemos uma retaliação de um lobista americano que publicou no Twitter uma mensagem nos acusando de termos feito coisas absurdas no Brasil. Disse que a pesquisa era antiética, que usamos doses muito altas e que tínhamos matado 11 pessoas. Foi uma fake news de quem não leu o artigo.

“É uma sensação de injustiça e de revolta muito grande. A vida muda muito com esses ataques. Quando você percebe que sua profissão pode impactar a vida de sua família, é aterrorizante”

Em seguida, houve uma enorme repercussão no Brasil. A partir do momento em que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) disse que pagaríamos pelo que fizemos, comecei a receber muitas ameaças de morte direcionadas a mim e a minha família no Facebook e no Instagram. Foi um momento de muito medo. É uma sensação de injustiça e de revolta muito grande. A vida muda muito com esses ataques. Quando você percebe que sua profissão pode impactar a vida de sua família, é aterrorizante.

A polícia do Amazonas está investigando o perfil de cada um que fez ameaças, e nós começamos a tentar combater as notícias falsas. Instituições da sociedade científica se manifestaram a nosso favor, como a Academia Brasileira de Ciência, a Academia Nacional de Medicina, a Sociedade de Medicina Tropical Brasileira, que obviamente conhecem o trabalho que a gente faz em Manaus. Temos uma tradição de quase duas décadas de pesquisa muito séria.

Mais para o final de abril, quando recebemos as análises de nossa pesquisa feitas por outros pesquisadores, ganhamos novamente grande visibilidade nos Estados Unidos. Ficou claro que tínhamos feito um trabalho sério. As ameaças, então, deram uma freada. Nosso trabalho acabou motivando a Food and Drug Administration (agência de regulação americana equivalente à Anvisa no Brasil) a fazer uma nota de cautela em relação ao uso da cloroquina. No começo da pesquisa, nossa intenção era ver se a cloroquina era uma saída para os pacientes graves de Covid-19. Infelizmente, os resultados não provaram isso. Mas é assim que funciona a ciência.

Fonte: Época Online

Veja também: https://panoramafarmaceutico.com.br/2020/05/08/clinicarx-cria-servico-para-garantia-de-qualidade-de-testes-de-covid-19/

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