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Vacina de covid-19: Aposta do Brasil foi na hora certa, diz AstraZeneca

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A decisão do governo de Jair Bolsonaro de investir no desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus trouxe esperança para milhares de brasileiros nos últimos dias. E, segundo os fabricantes da vacina, veio no momento exato. É que o governo vai investir no estudo que hoje se mostra como o mais avançado e promissor do mundo na busca por uma vacina eficaz contra a covid-19 e que, por isso, também é o mais demandado pelos líderes globais.

A “vacina de Oxford” está sendo desenvolvida pela Universidade de Oxford e já está na terceira fase de testes, mas só terá sua eficácia comprovada em setembro ou outubro deste ano. Ainda assim, a farmacêutica britânica AstraZeneca já preparou uma operação de guerra para produzir dois bilhões de vacinas nos próximos meses.

E a companhia diz que esses dois bilhões de vacinas já estão quase todos encomendados. Por isso, se não decidisse aportar US$ 127 milhões no desenvolvimento e na transferência tecnológica da vacina agora, o Brasil corria o risco de ficar de fora desse primeiro lote de imunização.

A decisão, apesar de arriscada, veio, portanto, no momento certo para garantir uma chance de vacinação os brasileiros, segundo o representante da farmacêutica britânica ao Brasil. Confira a entrevista com o diretor executivo de Relações Corporativas, Regulatório e Acesso ao Mercado da AstraZeneca, Jorge Mazzei.

Desenvolvimento da vacina

A descoberta foi feita pela Universidade de Oxford. A AstraZeneca entrou no processo para viabilizar o desenvolvimento e a produção em larga escala, na dimensão necessária para atender uma pandemia. E antecipamos esse trabalho para que tenhamos as vacinas prontas antes da conclusão dos estudos clínicos para, sendo positivo os estudos, possamos começar a vacinar a população imediatamente.

Parcerias

O desenvolvimento da vacina está concentrado na Europa e nós produzimos vacina nos Estados Unidos. Porém, mesmo que todas nossas fábricas trabalhassem nisso, não conseguiríamos fazer a produção necessária para atender o mundo todo com celeridade. Por isso, estamos desenvolvendo fornecedores e parceiros em todo o mundo para, a vacina dando certo, conseguir entregar dois bilhões de vacinas em um período curto de tempo. Vamos mandar o insumo e o parceiro vai fazer a produção, envasar a vacina e distribuir. É uma logística complexa, quase de guerra.

Brasil

Já fechamos parceria com a Inglaterra, Estados Unidos, Índia, Itália, Holanda, França, Alemanha e duas ONGs que vão distribuir as vacinas em países de baixa renda. E, agora, com o Brasil. Reconhecemos a qualidade e a capacidade de produção da Fiocruz no Brasil. Por isso, conversamos com o Ministério da Saúde e a Fiocruz. E, após essas conversas, a Saúde chegou à conclusão de que faria o investimento e apostaria na vacina, garantindo que o brasileiro tenha acesso à vacina ao mesmo tempo que outros países do mundo. Dando tudo certo, provavelmente em dezembro já teremos brasileiros sendo vacinados.

Custo

A decisão da AstraZeneza foi de que, durante a pandemia, não vamos buscar lucro no desenvolvimento e na produção da vacina. É nossa responsabilidade social enquanto uma empresa que quer contribuir para que a pandemia acabe. Então, estamos oferecendo a vacina com lucro zero. Todo o investimento do governo é para a transferência de tecnologia e a fabricação da vacina.

Alta demanda

Nossa capacidade de produção nesse primeiro momento é de dois bilhões de vacinas. E isso já está praticamente todo encomendado. Se não entrasse agora, o Brasil teria que esperar a gente conseguir a produção de mais matéria prima. Lógico que estamos tentando buscar mais capacidade de produção, mas não é algo fácil. Então, o Brasil entrou no período certo e, com isso, garantiu o acesso à vacina. Se não tivesse chegado agora, teria o risco de não ter acesso à vacina logo no início, porque, da mesma forma com que conversamos com o Brasil, outros países também estão em contato para ter acesso à vacina. E não dá para garantir quanto cada um vai encomendar. De toda forma, desde que começamos a conversar com o governo brasileiro, a companhia deixou reservado esse lote de 100 milhões de vacinas para o Brasil, até que o governo tivesse uma decisão final.

Negociação

Foram de três a quatro semanas de conversa com o governo. Foi uma conversa muito aberta, no sentido de mostrar o processo de desenvolvimento da vacina. A discussão foi muito sobre como o governo poderia se comprometer com recursos agora sob o risco de que a vacina não seja aprovada mais na frente. Sabemos que é uma decisão difícil. Então, acreditamos que foi um tempo célere, dada a complexidade que existe no processo de compras do governo e dada a dificuldade de o governo brasileiro fazer uma encomenda tecnológica como essa. É uma decisão ousada, mas importante no sentido de garantir que, os testes dando certo, o Brasil vai ter a vacina.

Compromisso/Preocupação com o Brasil

A AstraZeneca deixou essas vacinas reservadas para o Brasil nesse período porque tem um compromisso com o Brasil. Nós estamos no Brasil; o Brasil é um país importante; e existe uma preocupação com a situação da pandemia aqui. Há um compromisso da empresa de atender todos os países que estão chegando nessa conversa e nós tentamos trazer essa tecnologia de forma muito rápida para o Brasil, tanto que 5 mil voluntários estão sendo vacinados e testados aqui.

100 milhões de vacinas

A quantidade de vacinas foi uma decisão foi do governo brasileiro. Não tivemos interferência nisso. Eles decidiram. Poderiam ter decidido 50 milhões, 150 milhões, mas decidiram 100 milhões. Mas, pelo que a Saúde falou, existe todo um racional por trás dessa decisão. Eles fizeram estudos de imunização do grupo de risco e do restante da população. Acredito que seja o volume que o Brasil precisa.

Próximos passos da parceria

Recebemos a carta de intenções e agora vamos sentar com a Fundação Oswaldo Cruz para definir os detalhes do contrato. Temos muito trabalho pela frente, porque transferir a tecnologia não é uma coisa fácil. Tudo vai ser muito acelerado para que a Fiocruz possa ser rápida no momento da chegada da matéria prima, mas precisamos entrar na parte operacional do contrato, adquirir os materiais e transferir a tecnologia para estarmos aptos a produzir.

Fases

No primeiro momento, o insumo vai vir pronto de fora. Vai vir concentrado e a Fiocruz vai fazer o processamento e o envase da dose. É uma operação complexa. Já no segundo momento, o objetivo é passar a produzir esse ativo aqui. Mas isso vai depender dos prazos e dos processos que serão conversados agora para a transferência de tecnologia da produção e do ativo em si.

Prazos

A previsão é que as primeiras 30,4 milhões de vacinas fiquem prontas entre dezembro e janeiro. As outras 70 milhões vão depender dos prazos do contrato e de quando, após a comprovação de efetividade da vacina, o governo vai reiterar o compromisso de compra. Mas nossa previsão é de que os resultados finais dos testes aconteçam em setembro ou outubro e que o primeiro lote de 2 bilhões de vacinas seja concluído até o primeiro semestre do ano que vem, até junho.

Registro

Já estamos conversando com a Anvisa, porque, além da produção, precisamos trabalhar no registro sanitário do produto no Brasil. E essa conversa tem sido muito intensa para que consigamos acelerar esse processo e ter uma aprovação rápida, para que a vacina seja aprovada no momento em que estiver pronta,. Queremos a aprovação até o final do ano e a Anvisa está comprometida com isso.

Teste

Estamos na fase três de testes, que é a última. Para garantir a segurança e a eficácia da vacina, precisamos testá-la em certo número de pacientes. Por isso, teremos 50 mil indivíduos sendo testados no mundo – 5 mil aqui no Brasil, 30 mil nos Estados Unidos, 10 mil no Reino Unido e 5 mil mil na África e na Ásia. Aqui, começamos na semana passada e vamos até abril. Mas já é possível perceber a reação do sistema imunológico em 28 dias. Então, até setembro ou outubro teremos o resultado final desses testes. Se comprovada sua eficácia, a vacina vai ser produzida em tempo recorde.

Tempo de imunidade

Nesses 28 dias, a gente percebe a imunidade, mas vamos precisar continuar acompanhando os voluntários por um ano para entender o tempo que a vacina os mantém imune. Talvez não teremos a resposta sobre o tempo de imunização e quantidade ideal de doses, se a pessoa fica imune o resto da vida se for vacinada na infância ou se é preciso se vacinar todo ano, por exemplo, agora. São perguntas que vão ser respondidas com o tempo. Mas, em setembro ou outubro, já vamos ter a resposta sobre a eficácia e a segurança da vacina. Então, se tudo correr dentro do cronograma, em dezembro já teremos parte da população sendo vacina. As primeiras 30,4 milhões de doses do Brasil já vão começar a ser preparadas nos próximos meses para estarem prontas caso essa aposta dê certo.

Confiança

São mais de 100 vacinas em teste no mundo. Mas a nossa é a que está na fase mais avançada de testes e já tem uma plataforma conhecida, porque a Universidade de Oxford já desenvolveu outras vacinas. Então, a probabilidade de dar certo é maior. A própria OMS já disse que esta é a vacina que se mostra mais promissora e deve chegar mais cedo para a população.

Divisor de águas

A vacina vai ser a grande solução para a pandemia do novo coronavírus. Por mais que se desenvolvam medicamentos paliativos para ajudar quem tem a doença, a grande solução para esse problema vai ser a imunização da população. Então, a vacina vai ser o divisor de águas entre a pandemia e o pós-pandemia. Então, fico feliz de ver que os testes estão evoluindo e que o governo brasileiro reconheceu isso. Foi um movimento admirável do governo ter apostado, mesmo com o risco de a vacina não dar certo, para permitir que os brasileiros comecem a se vacinar ainda neste ano caso tudo ocorra como esperado.

Fonte: Correio Braziliense Online

Leia também: https://panoramafarmaceutico.com.br/2020/06/24/brasil-deve-ter-acordo-com-universidade-de-oxford-para-produzir-vacina-contra-o-coronavirus/

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