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Trainee para negros da Bayer tem 19 vagas e 10.000 inscritos

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O programa de trainee para negros da multinacional química e farmacêutica alemã Bayer já atingiu 10.000 candidatos. Há 19 vagas. As inscrições foram abertas em 18 de setembro e vão até 21 de outubro. Ou seja, o número de concorrentes deve aumentar. A informação é do vice-presidente de Finanças da Bayer Crop Science para a América Latina, Maurício Rodrigues, 45 anos.

“É uma procura bastante alta. Se olhar todos os programas de trainee, de uma certa forma, eles sempre ocorrem da mesma maneira, existe uma procura muito grande. Mas acho que nesse caso específico veio reforçar uma espécie de demanda reprimida”, afirma o executivo, que participou da elaboração do processo seletivo.

Maurício tem mais de 20 anos de experiência no setor químico. Atualmente, trabalha na Bayer. A empresa conta com aproximadamente 100 mil funcionários em todo o mundo, sendo 7.000 no Brasil. Ele concedeu entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, apresentador do Poder em Foco, uma parceria editorial do SBT com o jornal digital Poder360.

Além da transmissão nacional em TV aberta, a atração também pode ser vista simultaneamente, ao vivo e “on demand”, nas plataformas digitais do SBT Online e no canal do YouTube do Poder360. A edição deste domingo foi gravada em 16 de outubro de 2020, por videoconferência. Assista abaixo (47min52s):

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Maurício relata que a Bayer verificou 1 desequilíbrio entre os funcionários negros de baixo escalão e os que exercem liderança dentro da companhia. O objetivo do programa de trainee é enfrentar essa assimetria.

Para atrair mais candidatos, o processo eliminou algumas barreiras que impedem as minorias de ascender na companhia, como a exigência de proficiência em inglês. A meta do projeto é auxiliar os selecionados a desenvolver as próprias carreiras para posições de liderança. “Uma vez identificadas essas pessoas com potencial altíssimo, elas entram na companhia. O inglês a gente treina. Não significa que o inglês não vá ser necessário. Eu, no meu dia a dia hoje, utilizo quase que 70% do tempo falando inglês ou espanhol. Mas acreditamos que isso é algo possível de treinar”, afirma Maurício.

A gigante química oferece salário de R$ 6.900 aos trainees mais benefícios, como assistência médica e odontológica, vale transporte, restaurante, previdência privada e seguro de vida. As 19 vagas são para 5 cidades: São Paulo (SP), Belford Roxo (RJ), Camaçari (BA), Petrolina (PE) e Uberlândia (MG).

“Espero genuinamente que a gente tenha mais e mais empresas que consigam dar esse espaço para que a gente consiga dar mais vazão para todas essas pessoas que têm o interesse de entrar nessas empresas”.

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Mauricio, que é negro, avalia que debate racial impulsionado pelo movimento Black Lives Matter é 1 “processo transformacional” que veio para ficar. Os protestos antirracistas ganharam tração nos Estados Unidos em maio de 2020. O estopim foi a morte de uma homem negro, George Floyd, asfixiado por 1 policial branco na cidade norte-americana de Minneapolis. O movimento se espalhou por diversos países, inclusive no Brasil.

“Estou seguro de que não é uma onda. É parte de 1 processo transformacional. Evidentemente, quando as primeiras notícias ocorrem, [o debate] fica mais efervescente. É natural que tenha muito mais discussão nos primeiros momentos. Mas eu não diria que ele diminuiu. Tanto não diminuiu que essas primeiras iniciativas [de trainee] geram o mesmo tipo de discussão e o mesmo tipo de debate na sociedade”, afirma.

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Assim como gigante química, o Magazine Luiza abriu processo de recrutamento apenas para negros. A notícia impulsionou o debate sobre tema. A rede varejista enfrenta uma ação na Justiça. Críticos acusam o processo de discriminatório.

Segundo o executivo, a Bayer não foi alvo de contestação judicial pelo programa, como o Magazine Luiza.

“É 1 momento importante. Toda nova onda gera algum tipo de controvérsia. Novamente, algo que a gente vem dizendo de maneira muito aberta, evidentemente a gente respeita todas as opiniões contrárias. Mas estamos muito seguros de que essas ações afirmativas são necessárias e parte dessa jornada”, diz.

REFERÊNCIAS NEGRAS

Maurício afirma que a falta de referências negras em cargos de liderança limita os sonhos dessa população. Diz que é mais fácil 1 jovem negro acreditar que pode ser jogador de futebol do que almejar outros cargos de sucesso.

O executivo conta que morou quase 3 anos nos Estados Unidos. Relata que lá, apesar de ter percentual menor de negros na população na comparação com o Brasil, viu mais referências negras no alto escalão das empresas do que aqui.

“Um jovem negro no Brasil não tem dúvida de que ele possa ser 1 bom jogador de futebol. Há várias pessoas negras que são jogadoras de futebol. A única complexidade é que para você ser 1 bom jogador de futebol precisa ter talento. Mas não falta referência nesse caso”, diz.

Para ele, é importante que essas referências negras sejam observadas também no Brasil.

“Seria ótimo que a gente tivesse referências dentro das empresas e tudo mais para que esses jovens pudessem almejar serem gerentes, presidentes de empresas, vice-presidentes de empresas, [e que] possam sonhar e terem cargos de relevância. E, antes de mais nada, exerceram aquilo que almejam e não limitar os sonhos que eventualmente tenham.”

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Indagado sobre qual o percentual de executivos negros nas empresas, Maurício respondeu que não tinha o dado exato, mas que basta chegar a 1 evento de líderes e observar como eles continuam sendo minoria.

“Você é o único ou uns dos 3 de um grupo de 400, 500, 600 pessoas. Não é muito difícil de imaginar que esse percentual é extremamente baixo.”

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O executivo diz que em sua trajetória enfrentou preconceitos e vivenciou a “síndrome do filho único”, por na maioria das vezes ser o único negro em algumas escolas e cargos.

“Isso faz com que você sempre tenha que se provar mais do que os outros. E, evidentemente, você passa por uma série de situações em que as pessoas não entendem como que você chegou aqui e porque está ali. Ao mesmo tempo em que eu tive bastante acesso e isso abriu muitas portas, você passa pelo preconceito e passa por ele de maneira bem contundente”, diz

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Hoje, Maurício é o patrocinador do BayAfro, grupo de diversidade da Bayer que trabalha a temática racial. Ele foi uns dos apoiadores do recém-criado programa de trainee exclusivo para negros na companhia, o Trainee Liderança Negra.

“Meu pai e minha mãe conseguiram se graduar no Rio Grande do Sul e vieram para São Paulo. Meu pai [se formou] em engenharia mecânica e ela, em direito. [Isso] fez com que houvesse uma mudança no padrão que existia na época dentro da família. Era mais difícil ter pessoas graduadas até [aquele] momento. Eles realmente quebraram esse ciclo. Para mim, já foi propiciado acesso à educação de qualidade.”

LETRAMENTO RACIAL

O executivo afirma que o governo tem muito mais poder do que as empresas no desenvolvimento de ações afirmativas. Segundo ele, o setor público tem a força de ditar tendências: “Ter 1 governo que de alguma maneira se envolva com isso e tenha isso dentro da agenda é fundamental”.

Maurício diz, no entanto, que isso não impede maior participação do setor privado e da sociedade civil em pautas afirmativas. Segundo ele, o grupo BayAfro promove o “letramento racial” na empresa.

“Até para as pessoas conseguirem se inserir e entender por que aquilo é um problema, como que a gente precisa tratar e como que é a responsabilidade de cada um. A gente trabalha em outros aspectos no desenvolvimento dessas pessoas”, afirma.

O letramento racial, porém, é 1 grande desafio no Brasil. Pesquisa PoderData360, de junho, mostrou que 76% dos brasileiros dizem haver preconceito contra negros no Brasil por causa da cor da pele. Mas apenas 28% admitem ter preconceito contra negros. Ou seja, parte da população tem vergonha de admitir o racismo.

Na avaliação de Maurício, não existe “fórmula mágica” para combater esse problema. É necessário cada vez mais ações afirmativas.

“Quando mais inclusivo o ambiente for, mais vai propiciar diversidade. Não queremos de uma hora para outra trabalhar só a questão racial e deixar de lado a questão de gênero. Se no nosso programa de trainee amanhã ou depois entrarem só homens negros, eu acho que a gente não atingiu o objetivo. Nós precisamos de alguma maneira tratar a diversidade de uma forma mais ampla.”

Maurício relata que a Bayer tem outras iniciativas que tratam da inclusão e a diversidade. “A questão étnico-racial é 1 dos 5 pilares que nós tratamos. Também passamos pela diversidade de gênero, LGBTQ, pessoas com deficiência e a questão de gerações.”

COMPETITIVIDADE

O vice-presidente de Finanças da Bayer Crop Science afirma que contratações que consideram a diversidade aumentam a competitividade criativa das companhias.

“Nós somos uma empresa de inovação e uma empresa de criatividade. Então, nós acreditamos que você tendo 1 ‘pool’ mais diverso de funcionários, você tem condições de ser uma empresa melhor”, afirma

Your browser does not support this video QUEM É MAURÍCIO RODRIGUES

Maurício Rodrigues tem 45 anos e é vice-presidente de Finanças da Divisão de Ciências Agrícolas da Bayer para América Latina. Ele é engenheiro civil pela Universidade de São Paulo (1992-1997). Tem MBA em finanças pelo Insper (2000-2001) e especializações no IMD Business School e The Wharton School.

Tem mais de 20 anos de experiência no setor e passagens pela Monsanto e pelo banco BBA. Na Bayer, também atua como patrocinador do BayAfro, grupo que trata de temas de afinidade étnico-raciais e é responsável por desenvolver e discutir políticas de inclusão e diversidade dentro da companhia em todos os níveis hierárquicos.

Fonte: Press From

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