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País não está preparado para acolher pessoas com Alzheimer

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O diagnóstico da doença de Alzheimer – que tem causa multifatorial e que leva ao comprometimento progressivo das funções cognitivas, ou seja, memória, atenção, linguagem e orientação – só foi confirmado há cerca de oito meses, mas há cinco anos lapsos de raciocínio já vinham sendo percebidos por familiares de Márcio Nunes, hoje com 72 anos. “Meu pai é produtor rural, tem uma pequena propriedade em Serro (na área central da serra do Espinhaço, em Minas Gerais). A gente já tinha percebido que ele apresentava um quadro de confusão, se esquecia de algumas coisas e acabava não conseguindo cuidar dos negócios, tendo prejuízos nas transações que fazia”, relata o administrador André Nunes, 37, que passou a cuidar das finanças da família. Ele explica que, a princípio, essas dificuldades cognitivas eram interpretadas como algo natural, decorrentes da idade. Além disso, o patriarca conseguia desenvolver atividades com independência. Porém, depois de ele apresentar um quadro de intoxicação grave, houve uma aceleração da evolução da doença neurodegenerativa, a mais frequente na espécie humana. “Então, ele foi proibido de dirigir, e tivemos que entrar com medicações. Hoje, noto que ele se tornou muito dependente dos cuidados de toda a família, mas em especial de minha mãe”, comenta.

A realidade enfrentada pelo produtor rural e por seus familiares tende a ser cada vez mais comum em todo o mudo. Hoje, estima-se que pelo menos 50 milhões de pessoas possuam o diagnóstico da doença, sendo que, no Brasil, aproximadamente 2 milhões têm algum tipo de síndrome de demência – ocasionada, em até 60% dos casos, pelo Alzheimer. E se os números já parecem altos, é um consenso que eles devem disparar nos próximos anos. Ocorre que – principalmente em razão do envelhecimento da população, decorrente do aumento da expectativa de vida – a previsão é que, até 2050, o contingente de pacientes com a moléstia triplique. A idade, afinal, é o principal fator de risco para a enfermidade: de acordo com especialistas, a partir dos 65 anos, o risco de desenvolvimento do Alzheimer dobra a cada meia década. Ilustra essa progressão da incidência em relação ao tempo de vida o fato de, atualmente, cerca de um terço dos brasileiros com mais de 85 anos apresentar a doença, segundo dados do Ministério da Saúde. Contudo, é fundamental dizer que o quadro não é uma condição etária, dado que muitas pessoas, mesmo com mais idade, permanecem lúcidas e independentes.

Questão que se impõe diante desse cenário, especialistas ouvidas por O TEMPO acreditam que o país não vem se preparando adequadamente para atender essa população. “Definitivamente, não estamos preparados hoje e não estamos nos preparando para o amanh, crava Elisa de Paula França Resende, doutora em neurociência pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Até existiu a tentativa de criar um plano nacional de demência, que começou a ser feito por profissionais de saúde que lidam com esse universo, mas que nunca foi levado para a frente”, observa, lembrando que em um país vizinho, o Chile, existe um projeto nacional de assistência às pessoas com Alzheimer e seus familiares.

“Há uma enorme carência de políticas públicas para o envelhecimento como um todo, que fica ainda mais grave pensando na situação de idosos com demência. A verdade é que não estamos preparados e que esta é uma população que está desamparada”, complementa a geriatra Bárbara Corrêa, que é membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e preceptora da residência de geriatria do Hospital das Clínicas da UFMG.

É preciso um olhar mais cuidadoso para a velhice

Mesmo em relação aos cuidados mais primários, Elisa Resende sublinha que falta preparação. “Os centros de saúde, por exemplo, não estão adequados ao atendimento de pacientes com dificuldades cognitivas, que vão ter problemas para se comunicar, o que dificulta o suporte”, cita. Contudo, ela reconhece que a disponibilização de medicamentos que agem para estabilizar ou para reduzir a velocidade de progressão da doença, cuja cura é desconhecida, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é um avanço importante.

A neurologista também observa que a própria sociedade já vem se organizando, construindo redes de apoio para famílias e cuidadores de pessoas com a doença, caso da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz), mas indica que faltam ações governamentais para institucionalizar essas iniciativas. “O primordial, agora, passa por esse tipo de ação: qualificar equipes para que possam fazer o diagnóstico no atendimento básico e formar grupos, nos centros de saúde, para capacitar cuidadores, que na maioria das vezes são os familiares do paciente e poderiam ter nesses espaços um lugar de troca de experiências”, avalia.

Elisa também defende a implementação de políticas de prevenção. “É urgente pensar em maneiras de estimular a população a adotar comportamentos que possam reduzir fatores de risco”, sinaliza, observando que conselhos para evitar doenças cardiovasculares são válidos também para a prevenção do Alzheimer, sendo, portanto, indicado que se evite o consumo de açúcar, de carboidratos refinados e de gordura saturada. A prática de atividades físicas e a socialização também são destacados por exercer papel importante para a preservação das funções cognitivas. É fundamental, ainda, o esforço de controlar doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e colesterol alto, que são não apenas fatores de risco, como também potencializadores da evolução do Alzheimer.

Bárbara Corrêa concorda e ressalta que, além de faltar estímulo, sobram empecilhos para que idosos mantenham uma rotina ativa, principalmente nos grandes centros urbanos. “Falta acesso. Até pegar um ônibus, para eles, torna-se uma tarefa difícil”, argumenta. A geriatra defende campanhas de informação, para que famílias aprendam sobre a doença e saibam como garantir melhor qualidade de vida para seus entes enfermos, e faz coro com a necessidade de, passada a pandemia da Covid-19, investir em centros de convivência e espaços para acolhimento dos idosos, tanto do ponto de vista de saúde como do ponto de vista social. Ela ainda lembra que a Prefeitura de Belo Horizonte possui programas de atenção domiciliar dedicados aos idosos, mas que se mostram insuficientes para suprir a demanda por essas iniciativas.

Alfabetização. Outro fator de risco para o desenvolvimento da doença de Alzheimer é a baixa alfabetização. “Em 20% dos casos, o quadro está associado ao baixo nível educacional”, informa Elisa Resende. A pesquisadora indica que, teoricamente, bastam quatro anos de estudos para reduzir as possibilidades de manifestação da enfermidade. Em seu doutorado, ela pesquisava se a alfabetização já na idade adulta seria também eficiente na ativação do hipocampo para o processamento de memórias, porém a crise sanitária impediu que o estudo fosse concluído.

Avanços da ciência. Um grupo de cinco pesquisadores brasileiros, em parceria com cientistas da Universidade da Califórnia, identificou células cerebrais mais vulneráveis ao Alzheimer, conforme noticiou uma publicação da Universidade de São Paulo (USP). “No caso da doença de Alzheimer, existe uma proteína que acomete os neurônios e realiza sempre o mesmo caminho. Começa por uma região do hipocampo relacionada à memória e vai ascendendo, de forma muito previsível em todos os pacientes, até atingir todo o cérebro. Os pesquisadores descobriram que alguns neurônios são acometidos, e outros, não, dentro da mesma região. A questão central para o estudo, então, é exatamente essa vulnerabilidade seletiva”, explicou o periódico universitário.

Conheça os fatores de risco, o tratamento e como se dá a evolução do Alzheimer

Fatores de risco. “A doença tem fatores genéticos, que levam ao envelhecimento de proteínas cerebrais e morte de neurônios. Sabe-se, inclusive, que o cérebro tem uma atrofia maior que um cérebro que não sofre com o distúrbio. E essa deterioração neuronal vem de um código genético, mas ainda é um mistério o porquê de algumas pessoas desenvolverem a doença, e outras, não, mesmo possuindo esses mesmos genes”, indica a geriatra Bárbara Corrêa, que sublinha que, em alguns casos, a doença ocorre de forma precoce, antes dos 50 anos. Em geral, em tais casos, o Alzheimer evolui mais rapidamente.

A preceptora do HC/UFMG assinala que são determinantes para o desenvolvimento da enfermidade outros fatores ambientais e biológicos. “Doenças cardiovasculares estão muito relacionadas, sendo importante que o paciente trate problemas como colesterol alto e hipertensão arterial. A falta de atividade física também é um complicador, assim como o excesso de glicose, que leva ao envelhecimento celular. Outros elementos a serem considerados são a poluição ambiental, a falta de audição e a baixa escolaridade”, explica.

Sintomas iniciais. “O Alzheimer começa a ser manifestado, frequentemente, com perda da memória recente, quando a pessoa fica muito esquecida e deixa de lembrar onde guarda alguns objetos, não recorda que deixou o fogo ligado, perde compromissos e começa a ficar repetitivo, além de demonstrar dificuldades em tarefas que antes desempenhava bem”, situa Bárbara. Outro sinal é a desorientação temporal e espacial, quando não lembra o dia da semana ou do mês ou se perde em percursos que antes eram rotineiros. Contudo, raramente busca-se ajuda diante desses primeiros sintomas, seja por vergonha ou por se considerar que são situações comuns tratando-se de pessoas idosas.

Diagnóstico. “Para realizar o diagnóstico, é preciso afastar outras doenças que possam ocasionar a perda de memória, como depressão, deficiências de vitaminas, disfunção da glândula tireoide e doenças infecciosas, dentre elas até a Covid-19, além de problemas metabólicos de fígado e de rim”, expõe a geriatra.

Tratamento. Ela detalha que, quanto mais cedo identificada a moléstia, mais eficaz será o tratamento. Entretanto, é fundamental lembrar que o Alzheimer é irreversível. “Se o quadro é compreendido mais rapidamente, ainda em fase inicial, podemos estabelecer tratamentos com medicação visando estabilizar a memória ou fazer com que a perda da capacidade cognitiva ocorra de forma mais lenta. Já em fases avançadas, há poucas alternativas. É importante também controlar fatores de risco – como doenças crônicas – para reduzir a velocidade de evolução da enfermidade”, diz.

Bárbara cita que há estudos sobre o uso do canabidiol – uma das mais de 400 substâncias químicas canabinoides encontradas na Cannabis sativa – como recurso terapêutico no tratamento da Alzheimer. Porém, como pesquisas ainda não são conclusivas, a alternativa não é reconhecida pela comunidade médica.

Fase mais difícil. “Na transição entre a fase moderada para a avançada, vamos perceber alterações comportamentais do paciente. Esse é o momento mais difícil para todos, porque perde-se aquela autonomia e independência que se tinha no início, e então outros sintomas surgem, como a agressividade, o não reconhecimento de pessoas próximas, as alucinações e outras oscilações de humor”, expõe Bárbara. Nesse momento, para que o Alzheimer não seja devastador para a dinâmica familiar, é fundamental que todos busquem se informar e criem um ambiente de aceitação, compreensão e acolhimento.

Dependência. Da fase inicial ao quadro terminal da doença, podem passar cerca de 15 anos. “No estágio mais avançado, o paciente fica acamado, precisa de ajuda para se alimentar, não consegue usar o banheiro e se torna totalmente dependente do cuidado do outro. Nessa etapa, a gente tem que entender que, quanto menos intervenção, mais a pessoa vai ter qualidade de vida, optando-se por cuidados paliativos”, assegura a especialista.

Fonte: Jornal Pampulha

Veja também: https://panoramafarmaceutico.com.br/2019/11/27/cientistas-descobrem-uma-molecula-que-pode-por-fim-ao-mal-de-alzheimer/

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