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Cidade do ES reforça estoque de cloroquina, mesmo após Anvisa refutar remédio

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Sem eficácia contra a Covid-19, a cloroquina perdeu ainda mais espaço após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) refutar a existência de tratamento precoce para combater o coronavírus. Até mesmo o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), um dos maiores defensores do uso do medicamento, admitiu que a droga “poderia ser um placebo”. E o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, após incentivar o uso do remédio, agora diz que nunca incentivou. No entanto, em Jaguaré, cidade no Norte do Espírito Santo, o prefeito Marcos Guerra (Cidadania) reforçou no último mês o pedido para o envio de mais comprimidos de cloroquina.

Levantamento da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), feito por solicitação de A Gazeta, indica que o município foi o único no Espírito Santo a solicitar o medicamento em 2021. O pedido foi enviado à Sesa no dia 28 de janeiro, 11 dias depois que diretores da Anvisa, ao aprovar o uso emergencial das vacinas Coronavac e de Oxford, afirmarem que não havia, até aquele momento, alternativa terapêutica para tratar a doença.

A cidade, de acordo com a prefeitura, solicitou 300 comprimidos de cloroquina em julho de 2020 e foi um dos 36 municípios capixabas que usaram o medicamento naquele ano. Até dezembro de 2020, 290 comprimidos já tinham sido distribuídos em Jaguaré.

O pedido feito ao Estado é que sejam enviados mais 50 comprimidos para o município. Segundo a Prefeitura de Jaguaré, o novo lote ainda não chegou na cidade.

Além de não ter eficácia comprovada, a medicação também pode trazer efeitos adversos. Alguns pacientes podem apresentar tontura, alterações gastrointestinais e aumento da pressão arterial. Para o infectologista Lauro Ferreira Pinto, um dos principais fatores de risco no uso da cloroquina é o de que muitos pacientes, ao tomarem o medicamento como tratamento precoce, deixam de tomar outros cuidados mais efetivos no combate ao vírus, como o uso de máscaras e o distanciamento social.

“Há inúmeras pesquisas sérias mostrando que não há nenhuma eficácia na cloroquina para tratar de Covid-19. Não é só a Anvisa, todas as agências regulatórias do mundo já refutaram esse medicamento há muito tempo. Até mesmo o médico francês Didier Raoult, que foi um dos primeiros a defender a cloroquina, disse, recentemente, que não há nenhum efeito. É complicado, consigo entender alguns médicos que cedem a um pedido de paciente que pede algum medicamento e acabam receitando, achando que aquilo não vai fazer mal. O problema é que a cloroquina faz mal”, avalia.

A professora da Ufes e doutora em epidemiologia Ethel Maciel alerta que as evidências mostram que o uso da cloroquina é até pior do que o de placebos. Ela afirma que é preciso conscientizar as pessoas e deixar de insistir no medicamento.

“Foge da racionalidade essa utilização. As pessoas estão vendendo uma mensagem de um falso tratamento. Não faz mais sentido. O Brasil é o único país do mundo onde continuamos insistindo nisso. Se houvesse tratamento precoce já comprovado, todos os outros países estariam utilizando”, observa.

Segundo a Sesa, no Espírito Santo, já foram distribuídos 94.710 comprimidos de cloroquina. Em 2020, solicitaram o medicamento, além de Jaguaré, as cidades de Afonso Cláudio; Alto Rio Novo; Aracruz; Atílio Vivácqua; Cachoeiro de Itapemirim; Castelo; Colatina; Conceição da Barra; Dores do Rio Preto; Guarapari; Ibatiba; Ibiraçu; Itarana; João Neiva; Laranja da Terra; Marataízes; Marilândia; Montanha; Muniz Freire; Nova Venécia; Pancas; Pedro Canário; Pinheiros; Presidente Kennedy; Rio Novo do Sul; Santa Leopoldina; Santa Maria de Jetibá; Santa Teresa; São Domingos do Norte; São Gabriel da Palha; São Mateus; São Roque do Canaã; Sooretama; Venda Nova do Imigrante e Vila Pavão.

A reportagem procurou a Sesa para saber quanto foi o gasto com o medicamento desde o início da pandemia, mas ainda não obteve retorno. Segundo dados das compras do governo em 2020, disponíveis no Portal da Transparência, o Estado licitou R$ 647,8 mil somente para a compra de cloroquina.

O QUE DIZ A PREFEITURA DE JAGUARÉ

A Prefeitura de Jaguaré, por nota, afirmou que as decisões sobre o combate ao coronavírus são da alçada do Centro de Operações de Emergência (COE), uma equipe formada no município por médicos, enfermeiros, farmacêuticos e membros da sociedade civil. Foi o conselho que deliberou pela adoção do protocolo do Ministério da Saúde para o manuseio do medicamento para pacientes com Covid-19.

O prefeito da cidade, Marcos Guerra, que está em seu primeiro mandato no município, também foi questionado sobre seu posicionamento a respeito do uso da medicação. Também em nota, ele frisa que não influencia nas decisões do COE, mas que ‘é favorável à liberdade dos médicos de prescrever ou não o uso do medicamento, uma vez que os mesmos têm a capacidade técnica de identificar as necessidades de cada paciente’.

Fonte: A Gazeta Online ES

Veja também: https://panoramafarmaceutico.com.br/2021/02/22/covid-19-o-alto-custo-da-cloroquina-para-o-brasil/

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