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‘A ciência sairá muito fortalecida desta pandemia’, afirma Pedro Hallal

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Há quatro meses, o doutor em epidemiologia Pedro Hallal luta em duas trincheiras. A primeira é a da pesquisa, à frente do Estudo de Prevalência da Covid-19 (Epicovid-19), o maior levantamento nacional sobre a propagação do novo coronavírus, que monitora letalidade e perfil de sintomas em 133 cidades por meio de testes de anticorpos e entrevistas. A segunda é a da defesa da ciência como política pública, diante da redução de investimentos e de ataques dos negacionistas.

Reitor da Universidade de Pelotas, Hallal atendeu a um convite do governo do Rio Grande do Sul em março e aceitou coordenar um estudo estadual da doença. Logo o vírus soaria o alarme no país e a pesquisa ganharia alcance nacional, com recursos federais. Os agentes saíram a campo e enfrentaram desde agressões a prisões pela polícia, percalços dignos dos vividos pelo sanitarista Oswaldo Cruz no início do século XX. Agora, o Epicovid-19 tenta recompor verbas para continuar depois que o Ministério da Saúde anunciou a não renovação do apoio.

Nesta entrevista, o pesquisador fala do papel dos dados no planejamento sanitário e dos legados da pandemia para a ciência.

O Ministério da Saúde não renovou o financiamento nacional da pesquisa. Como isso afeta as próximas fases?

O Epicovid do Rio Grande do Sul (RS) é todo custeado com recursos da sociedade civil. Aproveito para agradecer aos financiadores. Já o Epicovid-19 BR foi inicialmente financiado pelo Ministério da Saúde, por três fases. Após a apresentação dos resultados, o ministério optou por não financiar novas fases da pesquisa, uma decisão que não se sustenta por nenhum critério técnico ou científico, só podendo ter motivação política.

O capital privado pode garantir o futuro do estudo?

O Epicovid-BR não pode parar. Anunciaremos nos próximos dias os financiadores que garantirão a realização das fases 4, 5 e 6. A pesquisa não pertence a nós, pesquisadores, e muito menos ao governo. E o povo brasileiro não deixará que o país pague o mico histórico de parar, no meio da pandemia, seu maior estudo epidemiológico sobre o coronavírus. O ideal seria não termos esse lapso temporal entre a terceira e a quarta fase, mas foi inevitável, já que o Ministério da Saúde não se manifestou num prazo razoável. Aliás, quando o fez, foi pela mídia, sem ter a consideração de nos informar antes.

Como pesquisas como a sua podem ajudar em políticas públicas mais imediatas?

Um compromisso que assumimos desde o início do Epicovid-19 foi o de disponibilizar os dados para a população o mais rápido possível. Claro que algumas análises científicas mais complexas, que exigem modelos estatísticos sofisticados, estão sendo preparadas com mais calma. Mas, pelo menos os números mais descritivos do estudo, os que realmente importam para a população, esses estão sendo divulgados logo.

A pandemia serviu para aproximar a sociedade de assuntos científicos. Como a ciência deve se relacionar com a opinião pública?

Nunca vi tantos colegas pesquisadores na mídia, falando diretamente com a população. Isso é fundamental para diminuir a distância entre os laboratórios e as casas das pessoas. Resultados científicos, que normalmente demoram mais para serem divulgados, estão vindo a público em tempo recorde, pois a população tem o direito de saber imediatamente o que estamos descobrindo. Eu diria que onde não estamos conseguindo ajudar é na necessária derrubada do muro que hoje divide o Brasil. A polarização chegou a um extremo tão insalubre que a posição das pessoas sobre pautas importantes como cloroquina e lockdown parece ser independente da evidência científica.

Se hoje existe um movimento negacionista, por outro lado recorre-se à ciência para sair de crises como esta. Que saldo fica desse embate?

A ciência sairá muito fortalecida desta pandemia. Mesmo com a contínua redução dos investimentos no Brasil, na hora em que a população mais precisou da ciência, ela está dando a resposta. São os cientistas que vão desenvolver, em tempo recorde, uma vacina para o coronavírus. É a ciência que está estudando que medicamentos funcionam ou não para tratar a Covid-19. São os cientistas que estão coletando e divulgando dados epidemiológicos. Enfim, numa época em que alguns acham natural sugerir que a Terra é plana, os cientistas de verdade estão aqui, ajudando a humanidade a enfrentar essa pandemia. E a população saberá valorizar isso.

Desde Oswaldo Cruz, existem atritos entre ciência, sociedade e política. A pesquisa científica corre risco no cenário atual?

A ciência brasileira tem crescido muito nos últimos anos, apesar da redução nos investimentos. Existem instituições sólidas no país, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, e a Academia Brasileira de Ciências, só para citar duas, que garantem que a pauta não seja esquecida no país. O Brasil conta também com institutos de pesquisa de excelência, como a Fiocruz. Na minha área, o grupo de epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas não deve nada a qualquer outro grupo do mundo sobre o tema. O Brasil é líder mundial em pesquisas sobre desigualdades em saúde, por exemplo. Enfim, a ciência brasileira segue em pé.

Que legados a pandemia vai deixar nessa relação?

Vou citar dois. O primeiro é a comunicação científica. Sempre houve um abismo entre a linguagem dos pesquisadores e a linguagem da população. E esse descompasso não foi enfrentado adequadamente até hoje. Agora, com a pandemia, ele acabou sendo superado na marra, pois os pesquisadores se viram obrigados a dialogar com a população, por meio da mídia, diariamente. Acho essencial que todos os programas de pós-graduação do país exijam, junto com as dissertações e teses, que os alunos preparem um texto para a imprensa. O segundo legado é o da valorização popular. A população brasileira aprendeu, da pior forma possível, o quanto é necessário investir em ciência e tecnologia. Essas verbas não podem aparecer só na hora da pandemia. Devem ser contínuas e suficientes. Esse é o principal legado.

Ainda vemos pessoas resistindo à adoção de medidas sanitárias, como na época da Revolta da Vacina. O que pode ser feito?

Esse é um tema muito complexo. A primeira questão é que as recomendações da ciência devem fazer sentido para a população. Do contrário, elas serão ignoradas. Recomendar que as pessoas mantenham dois metros de distância entre elas, numa casa com dois cômodos e sete moradores, é um absurdo. Temos que adaptar nossas diretrizes à realidade da população. Um segundo ponto diz respeito à comunicação. Boas mensagens de saúde pública, caso sejam mal comunicadas, não são absorvidas. A terceira questão é que nós, pesquisadores, não podemos culpar as pessoas por não adotarem certos comportamentos, que, na verdade, dependem de muitos fatores. Isso se aplica a pautas como alimentação, por exemplo. Também devemos considerar que a ciência não pode ser arrogante e tentar impor suas ideias à população. É necessário que haja um diálogo com os saberes populares para se avançar. Por fim, o combate à desinformação, agora materializado pelas fake news, deve ser contínuo.

Fonte: Yahoo Brasil

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