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Alta de juro atrapalhará o governo menos do que inflação

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O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) inicia reunião de 2 dias nesta 3ª (3.ago.2021) para decidir como ficará a taxa básica de juros, a Selic. A expectativa do mercado é de alta de 1 ponto, para 5,25%.

A 2ª palavra do nome oficial do comitê pode parecer às vezes um pouco inconveniente. Afinal é um colegiado com objetivo essencialmente técnico. Busca deixar a inflação na meta estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional). Neste ano é de 3,5%, com tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos, em uma margem que vai de 2% a 5%.

A política monetária é um desses termos que se acomodam mal em português a partir do original em inglês: monetary policy. A política nesse caso é no sentido de conjunto de regras. Para a política da disputa de forças há outro termo: politics.

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O fato é que a política do Congresso e do Planalto muitas vezes paira como uma sombra sobre o Copom, que faz todo o esforço para se blindar de suas influências. A autonomia do BC sagrada em lei ajuda muito. Mas não elimina completamente a pressão.

A Selic saiu do piso histórico de 2% em 17 de março para 2,75%. Já está em 4,25%. O Copom a elevou em 0,75 ponto em junho e sinalizou na ata da reunião que faria outra elevação na mesma proporção na reunião de agosto. Mas já parece pouco. As apostas se concentram em 1 ponto. Se vier menos, vai parecer influência daquela política Congresso/Planalto.

Aumentar juro é reduzir crescimento. Nada mais inconveniente em um quadro de recuperação depois da recessão imposta pela pandemia, com queda de 4,1% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2020. A há também a ânsia para neutralizar o prejuízo da recessão acumulada de 2015 e 2016 (quedas de 3,5% e de 3,3%).

Mas para o governo é melhor que o Copom se decida por um aumento do tamanho que for preciso. A expectativa do IPCA de 2021 do mercado, pelo boletim Focus, veio com nova alta na 2ª (2.ago), para 6,79%. Vai estourar bastante o teto de 5% da meta. É já é a 17ª pesquisa semanal que vem com elevação de expectativa para o índice.

A inflação pesa de modo mais forte para os pobres. Alimentos, botijão de gás e luz, itens insubstituíveis, abocanham uma parte no orçamento dessas pessoas bem superior à da classe média. Se fica caro, deixa-se de consumir. Nos estratos superiores é sempre possível pagar todos esses itens e adiar a compra de roupas ou a troca de carro, por exemplo.

O governo quer aumentar o valor do Bolsa Família de R$ 190 médios para R$ 280 ou R$ 300. O novo desenho deverá ser anunciado até 6ª feira (6.ago). Será um anúncio bem-vindo para os beneficiários. Mas se a inflação for muito alta em 2021 e 2022, uma parte do aumento será apenas para compensá-la.

Uma preocupação óbvia para o presidente Jair Bolsonaro deve ser a popularidade e as intenções de voto. Nas pesquisa do PoderData, ele fica atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no 1º turno por 14 pontos. Entre os eleitores sem renda fixa, o público do Bolsa Família, a diferença é de 18 pontos.

Mas a inflação não atrapalha só a eleição. Mesmo vencendo, governar poderá ser bem difícil a partir de 2023 se a carestia não for contida. A Selic ficou muito abaixo do nível neutro no 1º mandato de Dilma Rousseff. Estimulou o crescimento, mas também a alta de preços. Para corrigir isso a Selic foi levada a 14,25% em agosto de 2015. E ficou ali até o fim de 2016.

Os 2 anos de recessão teriam sido melhores se algum tempo antes a política monetária fosse menos política.

Fonte: Poder 3

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