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Brasil reúne condições perfeitas para as próximas tempestades pandêmicas

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Sou dependente de rituais. Invento novas cerimônias ao sabor das circunstâncias, como na pandemia: descobri que não posso mais iniciar domingos sem o podcast sobre virologia de Vincent Racaniello. Saber que já tem quase 700 episódios me conforta. Ritual bom deve nos dar alguma garantia de longevidade.

Veja também: Covid 19: países pobres poderão receber vacinas apenas em 2024

Sou contraditório: confuciano/taoísta ao mesmo tempo. Adoro grandes mudança, apesar de me sentir seguro ao descobrir coisas que demoram a mudar no mundo. Por exemplo: não saberia viver no Rio sem a certeza de que todo santo dia, há séculos, as vésperas do Mosteiro de São Bento abençoam a cidade com o imutável latim de seus cantos gregorianos.

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Então, todo santo domingo ao acordar clico no YouTube para ver a edição de “This Week in Virology” (TWiV) que Vincent Racaniello publica religiosamente ao final dos sábados. Não somos muitas pessoas nessa estranha missa. Seus episódios não competem em popularidade com clipes da Marília Mendonça: os hits virológicos não ultrapassam a marca de 30 mil views. Mas é turma fiel, espalhada pelo planeta inteiro.

E fora do planeta: no TWiV 682, a astronauta/microbiologista Kate Rubins, com cabelos louros se divertindo com a microgravidade, contou que o povo da Estação Espacial Internacional também é viciado no meu ritual, sempre interrompendo seus domingos para ouvir as pregações da turma do sacerdote Racaniello.

O doutor Daniel Griffin é uma espécie de coroinha na cerimônia. Sempre de gravata borboleta, começando sua fala com uma citação —muito Churchill— e seguindo didaticamente com as descobertas mais recentes de tratamentos para cada fase da Covid-19.

Fui iniciado no TWiV a partir de outro podcast, esse com entrevistas do físico Sean Carroll com grandes cientistas/pensadore(a)s. Nas notas que acompanhavam a conversa com o Nobel de Medicina David Baltimore encontrei link para para seu vídeo no iBiology, canal que disponibiliza pequenas aulas dos melhores biólogos de língua inglesa, tudo de graça. O “veja também” do YouTube sempre funciona comigo. Assim fui parar no curso de virologia que Racaniello dá todos os anos na Universidade Columbia, e depois no TWiV.

No caminho também descobri outro vídeo no iBiology que teve impacto de epifania em minha vida confinada, transformando-se em missão “religiosa”. Em seus 7 minutos, pesquisadores do Instituto One Health compactam informações sobre transmissão de vírus de animais para seres humanos e pesquisas para vacinas.

Repete algo que David Baltimore deixou claro no podcast de Sean Carroll: “Todos os coronavírus estão relacionados uns com os outros. Todos fazem basicamente o mesmo conjunto de coisas. Eu diria que a indústria farmacêutica, com tempo e dinheiro suficientes, poderia produzir um remédio contra os coronavírus, e não seria necessário saber qual coronavírus específico para ter moléculas inibidoras”. O que esperamos para fazer isso? Outra pandemia?

Uma imagem do vídeo do Instituto One Health não me saiu mais da cabeça: o mapa do mundo com cores mostrando lugares onde há mais diversidade de morcegos, animais que são os principais reflorestadores naturais e predadores de insetos que causam pragas, ao mesmo tempo que dão guarida para muitos vírus, tornando-se origem ancestral de quase todos os coronavírus que pularam a cerca das espécies e provocam doenças em seres humanos. O Brasil só não é “vermelho” na região Sul.

Em nosso território reunimos as condições perfeitas para as próximas tempestades pandêmicas. Desmatamento brutal, 183 espécies de morcegos (15% da diversidade global), grandes rebanhos cada vez mais próximos dos locais onde esses grupos de morcegos —bichos que ficam estressados— antes viviam sossegados.

Por outro lado temos muito conhecimento acumulado para virar protagonista no desenvolvimento de soluções. Como o trabalho do Luiz Gustavo Bentim Góes na USP, há anos dedicado aos coronavírus “de” morcegos. Ou a identificação, no ano passado, dos vírus Xapuri e Aporé, em trabalho coordenado pela equipe de Elba Lemos, na Fiocruz.

E também temos uma reflexão secular sobre a relação entre morcegos e seres humanos. Felizmente ela está bem mapeada, em toda sua estonteante diversidade, em “Parece Morto”, dissertação de mestrado em filosofia de Shirlei Cristina Massapust, defendida em 2017. De Hans Staden a Eduardo Viveiros de Castro, passando por Antonio Bento, e pelo pensamento de povos indígenas como meinacos, caapores, desanas e muitos outros.

Ali aprendemos, com pesquisa de excelência maravilhosa, que —minha utopia desesperada continua em ação— somos um bat-país. Precisamos usar, de verdade, nosso cinto de utilidades.

Fonte: Clip News

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