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Cobiçada no auge da pandemia, Sputnik V é deixada de lado pelos países

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Cobiçada no auge da pandemia, Sputnik V é deixada de lado pelos países

Sputnik V – Apesar de ter sido a primeira vacina contra o novo coronavírus (Sars-CoV-2) a ser registrada no mundo, em agosto do ano passado, a russa Sputnik V tem ficado para trás na corrida para imunizar a população geral.

Os países que num primeiro momento foram considerados vitrines da Sputnik V, como México e Argentina, passaram a priorizar outros imunizantes na vacinação.

No Brasil, o Ministério da Saúde chegou a firmar, em março deste ano, um contrato para a compra de 10 milhões de doses do imunizante russo, mas o seu uso não foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e o ministro Marcelo Queiroga já indicou que o país não precisa mais da vacina. ‘É preciso fazer análise de conveniência e oportunidade’, disse o gestor.

O Consórcio do Nordeste anunciou a aquisição de 37 milhões de doses, mas a negociação também não foi para frente – apesar de, neste caso, a Anvisa ter autorizado parte da importação, ‘sob condições controladas’.

Com isso, nenhuma dose da Sputnik V foi aplicada no Brasil.

O tão propagandeado voo da Sputnik V esbarra sobretudo na falta de transparência do governo russo sobre a produção da vacina e a conseguinte resistência de autoridades sanitárias. Além da Anvisa, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) ainda não aprovaram o uso do imunizante. Em novembro, a OMS informou que segue avaliando a vacina e não divulgou uma possível data de aprovação.

Ainda, os russos apresentam dificuldades de produzir o imunizante em alta escala, o que deixou alguns países na mão, pois precisaram usar outras vacinas para aplicar a segunda dose e completar a imunização da população.

‘Toda a produção russa está voltada para cobrir os 144 milhões de habitantes do país’, explica o médico sanitarista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo e da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP), Gonzalo Vecina Neto, em conversa com o Metrópoles.

‘A Sputnik V chegou a emplacar na Argentina e no México, o problema é que não tem quantidade, pois as fábricas russas não têm capacidade produtiva. Vejo que o Fundo Russo de Investimento Direto [RDIF] exagerou na retórica’, complementa ele.

Graças à Sputnik V, Argentina e México foram os primeiros países da América Latina a iniciar a vacinação contra a Covid-19. Contudo, o imunizante deixou de ser o mais usado por essas nações.

Dados publicados no último dia 24 pelo governo argentino mostram que o país recebeu, desde o início do Plano Estratégico de Vacinação, 94,4 milhões de doses de imunizantes contra o novo coronavírus. Desse total, 20,3 milhões (21,6%) correspondem à Sputnik V. Foram enviadas, porém, 31,7 milhões (33,5%) e 26,5 milhões (28,1%) de doses da Sinopharm e da AstraZeneca, respectivamente.

Por sua vez, das 185,9 milhões de vacinas aplicadas no México, 18,8 milhões (10,1%) foram Sputnik V.

No total, mais de 70 países aprovaram o uso da Sputnik V, segundo dados do RDIF. A lista inclui o Brasil. Em junho, a Anvisa autorizou, em caráter excepcional, a importação do imunizante.

As principais condições para o uso da Sputnik no país preveem pontos como: importação somente de vacinas das fábricas inspecionadas pela Anvisa na Rússia (Generium e Pharmstandard UfaVita); obrigação de análise lote a lote que comprove ausência de vírus replicantes e outras características de qualidade; e notificação de eventos adversos graves em até 24 horas.

Ficou autorizada a importação, pelos estados, de mais de 2 milhões de doses, correspondente à vacinação de 1% da população.

As condições impostas pela Anvisa, no entanto, desanimaram os gestores estaduais. Em agosto, o governador do Piauí e presidente do Consórcio Nordeste, Wellington Dias (PT), anunciou a suspensão da importação da Sputnik-V.

‘É lamentável, o Brasil vive uma situação com alta mortalidade, mais de mil óbitos por dia. Temos vacinas disponíveis, mas impedidas de entrar no Brasil devido uma decisão da Anvisa que faz uma alteração no padrão de teste junto com a não inclusão do Ministério da Saúde no plano nacional de vacinação e a falta da licença de importação, tivemos a suspensão da entrega da vacina até que se tenha uma autorização do uso do imunizante no Brasil’, declarou o petista.

Procurado desde sexta-feira (10/12), o Consórcio Nordeste não se manifestou sobre o andamento da negociação.

O pedido para uso da Sputnik no Brasil foi feito pela União Química. A Anvisa informou, ao Metrópoles, que fez questionamentos técnicos (chamado de exigência), e estes questionamentos ‘não foram respondidos para que a agência pudesse dar seguimento à análise’.

O principal argumento para rejeitar a vacina russa no Brasil foi a falta de informações suficientes para garantir a segurança e a eficácia do imunizante. De acordo com a área técnica da Anvisa, a partir das informações que foram apresentadas até o momento, o imunizante russo não provou que seus benefícios são maiores do que os riscos.

‘Aqui tivemos esse problema da Anvisa não aprovar, mas a informação que nós temos é que a OMS está avaliando para a aprovação’, explica o presidente da União Química, Fernando Marques, em conversa com o Metrópoles.

O CEO da RDIF, Kirill Dmitriev disse à TV Bloomberg esperar que a Sputnik V seja aprovada pela OMS até o final deste ano.

‘Então, o principal problema foi o rigor da Anvisa, com relação a uma vacina. Esse foi um aspecto que prejudicou a entrada. Além disso, a vacina que prevaleceu, a da Pfizer, disponibilizou uma quantidade muito grande para o Brasil. Isso diminuiu a pressão de trazer outras vacinas’, complementa o empresário.

Segundo registro do colunista Guilherme Amado, o governador Wellington Dias afirmou que a suspensão da compra da vacina Sputnik V afetará o cronograma de imunização das pessoas acima de 18 anos em todos os estados da região.

‘Estudávamos diminuir o intervalo das doses e não foi possível porque falta vacina. Com a variante Delta no exterior, a Jansen passou a entregar quantidades menores. Estamos em contato com a Pfizer para que eles também não atrasem. A Fiocruz tinha a previsão de concluir a análise de qualidade da produção do IFA em território nacional em julho, mas já estamos em agosto e os trâmites ainda não foram concluídos’, afirmou o governador.

Vecina avalia que, apesar de os governadores não terem conseguido ainda importar o imunizante, é preciso tirar o chapéu para eles.

‘Eles deram um pé na bunda do governo federal. O que sobrou dessa história foi muito positivo; a pressão que o consórcio fez sobre o ministério. Se desse certo, seria uma coisa desastrosa para o SUS. O consórcio foi muito importante no sentido de pressionar o Ministério da Saúde. Nós só fomos comprar vacina da Pfizer em março de 2021’, relata o especialista.

Fonte: Portal Metrópoles Online

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