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Em ano de pandemia, BC entrega números inéditos puxados por medidas artificiais

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No ano em que uma pandemia devastou economias e mudou a dinâmica de consumo da população mundial, o Banco Central brasileiro entregou o que sempre perseguiu: inflação na meta, taxa de juros no menor patamar da história, mercado de crédito em pleno crescimento e inadimplência em seu menor nível.

Seria o cenário perfeito, não fossem os efeitos disso daqui para frente. Parte dos números extraordinários apresentados pela autoridade monetária foram fruto da baixa atividade econômica e de medidas emergenciais do governo de combate à pandemia da Covid-19.

“O governo intuiu que uma taxa de juros baixa iria estimular os investimentos dos empresários em suas próprias empresas na medida que eles não teriam opções melhores para empregar seu capital. Além disso o grande temor no começo deste ano era com a deflação”, afirma o economista Paulo Feldmann, professor da USP (Universidade de São Paulo).

Ao começar 2021 sem o decreto de calamidade que permitiu que o governo gastasse além do teto fixado em lei, editado por causa da crise sanitária, o BC terá de lidar com provável efeito rebote na economia.

Na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), o BC decidiu manter a taxa básica de juros (Selic) a 2% ao ano, no menor nível da história.

Ao mesmo tempo, a inflação medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), considerado o índice oficial, encerrou novembro acumulada em 4,31% e deve fechar o ano perto disso, dentro da meta fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), de 4%, mas com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.

Os números foram alcançados sob o custo de uma atividade econômica extremamente deprimida pela pandemia da Covid-19. Antes da crise, em fevereiro, a autoridade monetária havia indicado que a taxa ficaria em 4,25% ao ano nas reuniões seguintes, depois de cinco reduções seguidas. Com a deterioração do cenário econômico e com a necessidade de estímulo monetário (juros mais baixos para incentivar o consumo), foi retomado o ciclo de queda da Selic.

A crise também teve efeito deflacionário, especialmente nos meses mais agudos –em abril e maio, o IPCA foi negativo, ou seja, os preços caíram. A necessidade de isolamento social fez com que as pessoas consumissem menos, o que derrubou o índice. Isso também permitiu que o corte de juros.

Nos últimos meses, no entanto, a inflação voltou a subir, pressionada por alimentos e combustíveis. Segundo o BC, o auxílio emergencial, aliado ao aumento do consumo de comida dentro de casa, gerou parte dessa pressão. A autarquia, no entanto, avalia que o choque é temporário e deve desacelerar no próximo ano.

“O que vemos hoje no Brasil são dados de países ricos, da zona do euro, mas em um país empobrecido. É preciso pensar em soluções para aumentar a taxa de crescimento da atividade. A discussão de juros reais negativos, por exemplo, já vemos há muito tempo em economias desenvolvidas e agora começou a ser falado aqui”, afirma Eduardo Velho, economista-chefe da JF Trust Investimentos.

O analista concorda que a inflação observada nos últimos meses é temporária. “A inflação estrutural no Brasil está mais baixa, isso é bem claro. A partir do início do ano não teremos aceleração de alimentos, com o fim do auxílio, e teremos menor pressão do câmbio”, diz.

Para ele, o cenário traçado para o próximo ano não será tão ruim. “Temos um ambiente externo favorável às economias emergentes e é possível que tenhamos fluxo de investimentos.”

Já Paulo Feldmann, da USP, discorda que os preços vão desacelerar. “Acredito que o maior problema do país hoje é a inflação. Alguns índices, como os da FGV, em que alimentos têm maior peso, tiveram alta perto de 20%. É isso que pesa no bolso do brasileiro”, opina.

O mercado vem aumentando as estimativas para tanto para a inflação quanto para a taxa básica de juros de 2021, que agora estão em 3,37% e 3% ao ano, respectivamente, segundo o boletim Focus do BC. Há um mês, as previsões eram de 3,22% (inflação) e 2,75% ao ano (Selic).

A autoridade monetária anunciou, na última reunião do Copom, em 9 de dezembro, que deve abandonar em breve o compromisso de não subir juros, instrumento adicional de política monetária chamado de forward guidence, ou prescrição futura.

Além disso, embora o câmbio tenha dado trégua no último mês, a previsão do mercado é que o dólar ainda fique acima dos R$ 5 em 2021. De acordo com a última previsão da autoridade monetária, a atividade econômica deve crescer 3,8%, mas ainda não voltará aos níveis anteriores à crise.

O chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV/IBRE e ex-diretor do BC, José Júlio Senna, diz acreditar que a segunda onda de contaminações pode atrasar a recuperação da economia. “Essa é a principal geração de incertezas hoje, é paralisante. Com isso, o mercado de trabalho é muito afetado”, diz.

O economista-chefe do banco Fator José Francisco de Lima Gonçalves não descarta recessão no primeiro trimestre do próximo ano. “A percepção é que a virada do ano vai ser ruim por causa do fim dos estímulos, podemos ter contração no primeiro trimestre, depende do cenário de pandemia, que inclui vacinação. O viés de atividade é para baixo”, diz.

O BC projeta que o mercado de crédito fechará este ano com crescimento acima de 15%, puxado pelas linhas emergenciais do governo para micro e pequenas empresas, como Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), e estima crescimento de 7,8% para o próximo ano.

“Com baixa atividade, é difícil ver o mercado de crédito se expandindo”, afirma Senna.

O auxílio emergencial e o adiamento das parcelas de empréstimos contraídos antes da pandemia, concedido pelos maiores bancos, evitaram os calotes e a inadimplência chegou ao seu menor nível, com 2,4% em novembro, último dado divulgado.

A autarquia, porém, estima que esse índice pode chegar a 4% no primeiro trimestre do próximo ano, próximo ao pico, observado em maio de 2017, de 4,04%. Com o fim do auxílio e o retorno das parcelas, além da desaceleração no mercado de trabalho, os consumidores podem ter dificuldades para honrar seus compromissos.

A autoridade monetária também terá que traçar planos para lidar com o rombo nas contas públicas e com a dívida, que cresceu muito em decorrência dos gastos com a pandemia. Embora a autarquia não seja responsável pela política fiscal do país, o desequilíbrio traz danos econômicos e afeta a política monetária.

Para o ex-diretor do BC, o maior desafio para o próximo ano é lidar com o quadro fiscal. “Considero importante a manutenção do teto de gastos, mas isso não é tudo. O problema é que esta é a única âncora fiscal. Qualquer passo em falso é fatal, como, por exemplo, sinais concretos de que as reformas não serão feitas”, afirma.

Fonte: O Noroeste

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