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Hipnóticos são remédios mais modernos e sem efeitos colaterais para tratar insônia

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Antes considerada apenas um sintoma, a insônia é, hoje, registrada como doença. Seja por problemas que não deixam a pessoa em paz, incômodos com barulhos e luzes ou, até, sem motivo algum, é bom saber que ela tem tratamento e cura, que só dependem de um diagnóstico correto.

Olhar Conceito conversou com o otorrinolaringologista e especialista em medicina do sono Anderson Botti sobre o assunto. A conversa completa você lê abaixo:

Olhar Conceito(OC)  – O que é a insônia?

Dr. Botti (AB) – A insônia por muito tempo foi considerada não uma doença, mas um sintoma, muitas vezes associada à ansiedade ou depressão. No entanto, hoje em dia ela é considerada uma doença somente, com CID [Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde] e tudo. Claro, que tem as comorbidades, ou seja, está associada a outras patologias, mas ela em si é uma doença. E que está sendo agravada nos dias de hoje por vários fatores sociais, econômicos, de fundo emocional… Na maioria das vezes a pessoa tem uma tendência a ter a insônia. Pode ser familiar, o sexo feminino tem mais propensão, tem a insônia que vem desde a infância e adolescência… Se a mãe tinha insônia, a tia tinha insônia…

OC – Podemos falar que é uma doença genética?

AB – Não. Ela não tem fundo genético! Mas tem essa questão familiar. No entanto, a insônia mais prevalente, que se vê mais no dia a dia, é a insônia psico-fisiológica, que é a insônia que tem muito a ver com a questão do cérebro que não desliga. A pessoa por si só tem uma tendência de fazer com que os problemas que ela tem, de uma maneira geral, sejam norteados pela insônia. Por exemplo, eu tenho muitos problemas e tenho dor de cabeça. Tem pessoas que tem muitos problemas e têm insônia. E isso tem aumentado. Hoje a prevalência da insônia ocorre em mais de 30% da população, que tem ou teve em alguma época da vida episódios de insônia. E ela tem aumentado bastante com a idade. Porque hoje a pessoa está parando de trabalhar mais tarde, vivenciando socialmente os problemas da família, de uma maneira geral, então tem participação, muito mais, nos problemas.

OC – Como assim?

AB – O idoso ficava mais com os problemas próprios da idade. Hoje ele convive com os problemas da própria família. Isso pode propiciar um aumento da insônia. Também os próprios problemas de saúde do idoso. O paciente acamado, com doenças degenerativas, doenças que interferem no próprio sono, doenças neurológicas, Parkinson, Alzheimer, são todas doenças neurodegenerativas que podem influenciar no sono.

OC – Os idosos têm mais insônia, então?

AB – Acima dos 40 anos as pessoas têm uma tendência a ter mais insônia. Principalmente no sexo feminino. A mulher quando entra na menopausa tem uma tendência a ter mais insônia. É claro que isso é muito pessoal, mas todos esses pacientes tem uma coisa em comum, que é o cérebro que não desliga. Eles falam: ‘Doutor, eu deito, não consigo dormir, e fico ruminando – eles usam muito esse termo – os problemas do dia a dia’. Então isso é considerado hoje como ‘estado de hiper alerta’. Além deste estado de hiper alerta, quando eles dormem, o sono não aprofunda. Então o insone, diferente das outras pessoas, quando está dormindo, tem uma sensação de que o sono não é profundo. Exemplificando: ele está dormindo, e se alguém acende uma luz no corredor, ele não acorda, mas sabe que tem uma pessoa que acendeu a luz. Um cachorro latiu lá fora, mexeram no trinco… eles têm essa sensação. Então essa sensação de um sono mais leve, que não faz com que a pessoa chegue num sono profundo, e não tem aquela sensação de que dormiu.

OC – A partir de quanto tempo já é considerado insônia?

AB – Existe uma classificação. A insônia aguda é de menos de trinta dias, e a insônia crônica de mais de trinta dias. Mas existe, por exemplo, a insônia situacional, que normalmente é mais de quadro agudo. Por exemplo, a pessoa teve um parente que ficou hospitalizado e ficava muito à noite com essa pessoa, então o sono ficou irregular, o que a gente chama de distúrbio de ritmo. Este distúrbio de ritmo tende a voltar ao normal sozinho, com uma semana, mas para muitas pessoas ela persiste, então pode cronificar.

Existem três tipos de insônia. A insônia inicial, em que o paciente deita num horário como dez e meia, onze horas, e não dorme. Vai dormir uma e meia, duas horas da manhã. Aí ele dorme e acorda no horário normal, por exemplo, seis da manhã.

Existe a insônia de manutenção, que é aquele paciente que deita, dorme 11h, acorda 1h, não dorme, acorda 3h… é o famoso ‘sono picado’. E existe o despertar precoce, que é o paciente que deita 22h, vai até três horas da manhã, e depois não dorme mais. Esse paciente do despertar precoce dá um sinal, de que muitas vezes ele tem depressão. O paciente deprimido tem essa casualidade de acordar de madrugada.

OC – Por quê?

AB – É um aspecto da depressão. Não é que todo insone tem depressão, mas a gente fica suspeitando. O paciente acorda de madrugada e vêm pensamentos negativos. Ele acorda com pensamentos negativos. Porque a insônia é, muitas vezes, associada à depressão, à ansiedade, mas existe um perfil da insônia. Normalmente é um paciente que é muito correto nas coisas, perfeccionista, que tudo tem que ser do jeito dele. São pessoas não muito maleáveis, irritadiças, e a própria doença, durante o dia, pode levar a isso.

O paciente que tem insônia não tem sono durante o dia. Ele fala: ‘Olha, a tarde eu tenho oportunidade pra dormir, mas mesmo assim eu não durmo’. Às vezes ele cochila brevemente, por quinze minutos, e fala assim: ‘O olho arde, mas eu não durmo’.

E mesmo se ele não dormir a noite, ele acorda no horário que tem que acordar, 6h da manhã [se for o caso]. Se ele vai dormir Às três horas, ele acorda às 6h. Se ele vai dormir meia noite, ele acorda às 6h, tem aquele horário dele de acordar, e se puder dormir de manhã, ele não dorme. Diferente de uma pessoa que está com um distúrbio de ritmo, que vai dormir cada vez mais tarde, e tem uma tendência a acordar mais tarde.

OC – Qual é o tratamento da insônia?

AB – Este que é o grande problema. Para a insônia, esse estado de hiper alerta, o tratamento é super complexo, porque as medicações que temos hoje em dia não são para frear esse estado de hiper alerta. As medicações que temos hoje em dia são medicações que tratam outras patologias, e como efeito colateral dão sono, e acabam, entre aspas, tratando a insônia. Por exemplo, alguns antidepressivos que tem como efeito colateral a sonolência, os benzodiazepínicos, como rivotril, são medicações que são utilizadas pra ansiedade, mas tratam a insônia.

No entanto, a insônia também é acusada como um problema psico-comportamental. Atualmente, a gente tem associada a higiene do sono. O que é a higiene do sono? Hábitos que melhoram o quadro de insônia de uma maneira geral. Por exemplo, não tomar café, coca cola, bebidas com cafeína, estimulantes, depois das 18h; não fazer atividade física após as 19h, porque tende a excitar mais o cérebro; ter o hábito de dormir sempre no mesmo horário… Outra coisa importante, e é mais complicado isso aí, é colocar os problemas numa caixinha e resolver no outro dia. Não é fácil, mas também é importante que tenha esse pensamento positivo.

A insônia, muitas vezes, vem associada a ideias errôneas. São hábitos que a pessoa adquire e vão se perpetuando. Então, por exemplo, a pessoa tem insônia, e vai chegando a noite, ele já fala, ‘Olha, está chegando a noite e eu não vou dormir’. Vai ficando aquela coisa crônica, e ele vai ficando até com medo do escurecer, e medo da cama. Tem insone que dorme no sofá, e quando levanta pra ir pra cama definitivamente, ele não consegue dormir.

OC- Mas isso é resolvido com tratamento psicológico?

AB – Atualmente a gente usa o termo ‘tratamento psico-comportamental’ do paciente de insônia.

OC – Mas é com psicólogo?

AB – É com psicólogo. A gente une o tratamento do médico, com medicamento o menos tempo possível, com menos efeitos colaterais, associado ao tratamento psico-comportamental, que é essa questão da psicóloga associada.

OC – A alimentação pode influenciar de alguma forma?

AB – Se a pessoa tiver hábito de dormir com o estômago muito cheio, isso atrapalha o sono de uma maneira geral. Dá mais despertares noturnos. Se o paciente tiver apneia [parada respiratória por mais de dez segundos] associada à insônia, piora, e isso faz parte da higiene do sono: não jantar muito à noite e ter o horário certo para ir pra cama.

OC – Você acha que o uso do celular por aumentar a insônia? Se as pessoas mexerem muito antes de dormir?

AB – Piora porque o celular faz barulho, e o insone já tem certa sensibilidade a ruídos, sons, então qualquer barulho incomoda. Um barulho que passaria despercebido pra uma pessoa que tem um sono pesado, pro insone é complicado. Às vezes um flash de luz, uma luz que acende no corredor acorda o paciente, porque ele tem esse estado de hiper alerta. Ou seja, é bom desligar o telefone uma hora antes de dormir, isso ajuda bastante a desligar um pouco esse cérebro que fica em muita atividade.

OC – Tem alguma receita que resolva de maneira imediata a insônia, além da higiene do sono?

AB – A gente usa a higiene do sono, que são os comportamentos, e a questão de medicamentos o menos tempo possível. É importante fazer um diagnóstico diferencial de ansiedade e depressão e encaminhar os pacientes que tiverem esses problemas ao psiquiatra. Esse tratamento com o psicólogo é importante. E é bastante complicado, mas de uma maneira geral esses pacientes têm uma tendência ao isolamento. Então, ter atividades sociais, comportamentais de amizade, tudo isso ajuda a pessoa de uma maneira em geral. Ter pensamentos proativos também. Por exemplo, hoje é quarta-feira, então não adianta eu ficar pensando nos problemas da quinta-feira, que não vai mudar. Colocar isso em mente, fazer os planejamentos de cada dia. Tudo isso melhora o paciente.

OC – Os indutores do sono, como florais, funcionam?

AB – Pra alguns pacientes o valeriane, florais, funcionam. Mas tem muitos pacientes para quem não fazem efeito nenhum. E existem os hipnóticos, atualmente, que são medicações modernas, que induzem ao sono, mas não são antidepressivos e nem ansiolíticos, então eles têm menos efeitos colaterais. São os mais modernos que tem se usado.

OC – Tem mais alguma coisa que o senhor acha importante falar sobre este assunto?

AB – Atualmente a gente tem feito a polissonografia em alguns pacientes de insônia pra fazer um diagnóstico diferencial de outras patologias associadas. Polissonografia é o exame de noite inteira, que se faz no laboratório do sono, pra fazer diagnóstico dos problemas de sono. E para os pacientes insones, às vezes, a gente pede polissonografia pra fazer diagnóstico diferencial, principalmente de apneia do sono e de movimentos periódicos dos membros, ou a ‘síndrome das pernas inquietas’, movimentos de membros que a pessoa tem a noite.

OC – O principal é fazer esse exame para descobrir o que é, e depois tratar a coisa certa, é isso?

AB – Isso. Porque o paciente da insônia pode estar fazendo o micro despertar e acordando a noite não pela insônia em si, mas por outra doença que está levando a isso. A fibromialgia também pode dar dor no paciente quando ele está dormindo, e ele acordar várias vezes à noite e pensar: ‘Ah, estou acordando porque estou com insônia!’. E na verdade está acordando porque está com fibromialgia e com dor crônica.

Fonte: Olhar Direto

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