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Hospitais do RS concentram mais de um terço das pesquisas para medicamentos contra a covid-19 no Brasil

Estado é reconhecido em nível nacional pela excelência das instituições e pela qualificação de trabalhadores da saúde

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Reconhecido em nível nacional pela excelência de hospitais e qualificação de trabalhadores da saúde, o Rio Grande do Sul vem se destacando no Brasil por conduzir estudos que buscam remédios para combater ou curar a covid-19.

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Hoje, 89 pesquisas clínicas (feitas com pessoas) para investigar possíveis medicações contra o coronavírus ocorrem no país, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Dados do site Clinical Trials, onde são registrados os estudos no mundo todo, mostram que ao menos 33 – mais de um terço – ocorrem no Rio Grande do Sul.

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– A indústria procura centros de excelência e em que protocolos internacionais serão facilmente cumpridos à risca. São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul têm os centros de pesquisa melhor montados. O Rio Grande do Sul sempre foi tido como um Estado de excelência na área da saúde e na incorporação de novas tecnologias. Isso não é de hoje, com a covid, mas de um investimento feito no passado – resume Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindicato da Indústria dos Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma).

Estudos foram ou estão sendo conduzidos em praticamente todos os grandes hospitais gaúchos: Clínicas de Porto Alegre e de Passo Fundo, Conceição, Moinhos de Vento, Santa Casa de Misericórdia, São Lucas da PUCRS, Mãe de Deus, Ernesto Dornelles e Universitário de Santa Maria são algumas das instituições.

Além de coroar a qualidade desses hospitais, a alta concentração de pesquisas clínicas coloca médicos gaúchos em contato com as mais recentes discussões sobre covid-19 do mundo.

A maioria das pesquisas é de fase 3 (para analisar a segurança e eficácia da medicação), patrocinadas por laboratórios estrangeiros e multicêntricas – isto é, integram iniciativas internacionais que recrutam milhares de voluntários de diversos países para assegurar que a medicação possa ser usada em diferentes perfis etários e étnicos.

– O Rio Grande do Sul tem centros de excelência, grandes hospitais e equipes qualificadas. Há muitos hospitais universitários e muitos centros de especialidades, o que facilita a execução de protocolos – resume o médico infectologista Alexandre Pasqualotto, professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

Os estudos buscam remédios em diversas frentes: para uso de forma precoce nos primeiros dias de sintoma; para evitar que pessoas que entraram em contato com algum caso positivo adoeçam; e para hospitalizados, no esforço de evitar a piora do quadro e a morte, explica o médico infectologista Eduardo Sprinz, coordenador de estudos para vacina e medicações no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).

O Rio Grande do Sul sempre foi tido como um Estado de excelência na área da saúde e na incorporação de novas tecnologias. Isso não é de hoje, com a covid, mas de um investimento feito no passado NELSON MUSSOLINI

Presidente-executivo do Sindusfarma

Nesse quesito, destaca Sprinz, a alta circulação viral no Rio Grande do Sul também dá um empurrão na escolha do Estado para testar os remédios – é preciso ter pessoas adoecidas para checar se uma fórmula funciona.

Em fevereiro, o HCPA começou a fase 3 de uma pesquisa para avaliar os efeitos de um remédio francês, chamado de ABX464, em pacientes hospitalizados. A pesquisa também é conduzida em outros 13 hospitais brasileiros, além de instituições da Europa e da Ásia.

– A gente tenta achar medicamentos que façam pessoas gravemente doentes melhorarem. Tem estudos para evitar ventilação mecânica e, mais recentemente, para evitar que a pessoa recentemente diagnosticada progrida a casos mais graves. Hoje, os remédios disponíveis são para dar suporte a hospitalizados e há o uso do corticoide, para pessoas com comprometimento do pulmão, com os quais a gente quer evitar que a doença progrida – resume Sprinz.

O Rio Grande do Sul tem centros de excelência, grandes hospitais e equipes qualificadas. Há muitos hospitais universitários e muitos centros de especialidades, o que facilita a execução de protocolos ALEXANDRE PASQUALOTTO

Médico infectologista e professor da UFCSPA

De todos os estudos em solo gaúcho, os mais promissores são para avaliar o uso de anticorpos monoclonais em pacientes hospitalizados. A ideia é pegar anticorpos gerados por pessoas já infectadas, purificá-los e inseri-los em pessoas hospitalizadas com covid-19 de forma a ensinar o sistema imune dos doentes mais graves a lutar contra o coronavírus.

Nos Estados Unidos, remédios com anticorpos monoclonais já foram aprovados pela agência reguladora para uso emergencial. A expectativa é de que o pedido seja feito também à Anvisa nos próximos meses.

– Conseguimos retirar do plasma o anticorpo que funciona contra covid, multiplicá-lo e transformá-lo em remédio para outras pessoas. São anticorpos que tentam impedir o vírus e a inflamação do vírus de agredir o pulmão do paciente – explica o médico Claudio Stadnik, coordenador do Centro de Pesquisa em Infectologia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

A Santa Casa conduz ao menos 11 estudos em busca de um remédio para o coronavírus, segundo registros no Clinical Trials. Um deles investiga o uso de gotas de cloridrato de tetraciclina no nariz de indivíduos contra a contaminação por coronavírus. Dois investigam possíveis remédios, em pílula, para uso de forma precoce – sem dados preliminares, ainda.

Outra referência é o Moinhos de Vento, que participa da Coalizão Covid Brasil, uma frente de hospitais do país que toca diferentes estudos em busca de medicações contra a doença. Fazem parte Sírio-Libanês, Albert Einstein, Oswaldo Cruz, HCor, Beneficência Portuguesa de São Paulo e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet), junto ao Ministério da Saúde.

Até agora, a Coalizão já iniciou 10 pesquisas. O melhor resultado mostrou que o uso do corticoide dexametasona em pacientes hospitalizados reduziu o tempo de internação e o número de mortes. Outros estudos mostraram que a hidroxicloroquina e a azitromicina não tiveram efeito em pacientes estudados.

– A Coalizão já finalizou cinco ensaios clínicos randomizados. Avaliamos a hidroxicloroquina, que não demonstrou benefício em pacientes hospitalizados. Também avaliamos o antibiótico azitromicina, que não demonstrou benefícios. No estudo com o dexametasona, houve benefício para pacientes em ventilação mecânica, e os resultados foram unidos a outros estudos do mundo e revisados pela OMS (Organização Mundial da Saúde), o que contribuiu de maneira importante para gerar evidência a um dos poucos medicamentos que existem hoje para a covid – diz Regis Goulart Rosa, médico intensivista e pesquisador do Hospital Moinhos de Vento.

No Mãe de Deus, um estudo multicêntrico, que ocorria em 22 países, foi encerrado no ano passado – os resultados estão sendo consolidados. Hoje, há uma pesquisa com anticorpo monoclonal, realizada em 26 nações. No Brasil, foram escolhidos apenas três outros hospitais: dois em São Paulo e um no Rio de Janeiro.

– Desvendar a covid, esse mistério, é muito importante para os pacientes que têm a oportunidade de usar essa medicação e para todos nós que nos beneficiaremos dos resultados – afirma Rodrigo Boldo, médico intensivista e pesquisador do Mãe de Deus.

O Grupo Hospitalar Conceição (GHC) participou do estudo Pioneer, que avaliou o uso de um antiviral em pessoas internadas – os resultados ainda não foram divulgados. A pesquisa foi patrocinada pelo NHS, o Sistema Único de Saúde (SUS) do Reino Unido.

Em junho, a instituição começou a fase 3 de uma nova pesquisa, com anticorpos monoclonais, em pessoas nos primeiros dias de sintomas com covid-19. O estudo ocorre em vários países e é organizado pelo National Institutes of Health (NIH, ou Instituto Nacional de Saúde na sigla em inglês), com a Universidade da Califórnia (UCLA) e o Instituto de Pesquisa em Aids do Rio Grande do Sul (Ipargs).

– Há um protocolo-base que, ao longo do tempo, elimina do estudo remédios que se provem não serem bons. Agora, estamos na fase seis. Ou seja, cinco outros remédios não deram resultado. O protocolo vem fechado para um local capacitado a desenvolver esse protocolo. E isso depende de o local ter capacidade técnica, organização, local para conduzir o estudo, equipe e voluntários – diz o médico infectologista Breno Riegel, líder da pesquisa no GHC.

O Hospital Ernesto Dornelles, a Santa Casa da capital e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre estudam em voluntários internados o uso do remdesivir associado a três moduladores do sistema imune – Infliximabe, Abatacept e Cenicriviroque.

A ideia é entender como esse coquetel pode controlar o avanço da doença, acelerar a recuperação e diminuir o risco de morte por coronavírus. A pesquisa, organizada pelo Duke Clinical Research Institute e supervisionada pelo NIH, vai acompanhar 2,1 mil adultos hospitalizados em Estados Unidos, Brasil, Peru e Argentina.

– Fazer pesquisa exige organização, comitê de ética e patrocínio. O Rio Grande do Sul é um celeiro de oportunidades para jovens médicos e pesquisadores. A pós-graduação na área da saúde é muito forte aqui, o que incentiva a ter projetos. Há centros para captar pacientes, registros informatizados e tradição em pesquisa há décadas – diz a médica pneumologista Juliana Cardozo Fernandes, coordenadora do estudo no Hospital Ernesto Dornelles.

Ela dá um exemplo pessoal para resumir como o investimento de anos em ciência traz resultados para o futuro:

– Eu mesma, 20 anos trás, fui bolsista de pesquisa da UFCSPA. Isso colocou uma pulga atrás da minha orelha. Hoje, sou uma pesquisadora.

Fonte: Gaúcha ZH

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