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Hugo Nisenbom, CEO da MSD: ‘Antiviral contra Covid-19 tem capacidade de ser uma virada de jogo na pandemia’

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Enquanto todos os olhos ainda estavam voltados para as vacinas contra o novo coronavírus, a farmacêutica MSD anunciou no início de outubro resultados preliminares positivos para o molnupiravir, um antiviral que, quando administrado nos primeiros cinco dias do Covid-19, pode reduzir em até 50% o número de casos de hospitalização e óbitos.De acordo com Hugo Nisenbom, CEO da MSD no Brasil, o medicamento tem o potencial de representar uma virada de jogo na pandemia.

O executivo é o entrevistado do mês em Futuro da Saúde . Além de trazer informações sobre o molnupiravir, ele explorou temas extremamente relevantes para o setor como pesquisa, inovação, saúde pública, custo da saúde, atenção primária e a importância de que todos os atores do setor trabalhem em conjunto com foco no paciente.

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Há mais de 25 anos na MSD, Nisenbom também contou onde está o foco da farmacêutica para um horizonte de cinco a dez anos e a importância de melhorar os marcos regulatórios no País: ‘O Brasil está sempre entre os primeiros dez mercados farmacêuticos do mundo, mas em pesquisa está na faixa dos 20, porque precisamos melhorar o marco regulatório, acelerando os tempos e evitando entraves’. Confira os principais trechos da entrevista:

Vocês anunciaram recentemente resultados com o molnupiravir para o tratamento da Covid-19 e a notícia deixou muita gente animada. Quão promissores são esses resultados na sua visão?

Hugo Nisenbom – Poucas vezes vimos resultados tão contundentes com um antiviral em outras patologias. Os dados preliminares mostraram com clareza uma redução de 50% em hospitalizações e óbitos. O ensaio foi feito com grupo de risco, ou seja, população com mais de 60 anos, diabéticos, e o tratamento ocorreu dentro dos primeiros cinco dias da enfermidade, o que seria uma grande vantagem essa possibilidade de tratar em casa, com duas cápsulas por dia.

Existe a possibilidade de que os estudos avancem para pessoas que não sejam do grupo de risco?

Hugo Nisenbom – Este primeiro estudo em fase 3 apresentou os resultados que comentei independentemente da cepa. Agora quem vai dizer para quem o produto será recomendado são as autoridades regulatórias. Mas ainda em agosto começamos outro estudo para verificar o uso profilático. E por que fizemos o estudo primeiro no grupo de risco? Porque nesse grupo a comprovação é mais rápida, pois quando há mais risco, maior a chance de hospitalizações e óbitos. Estamos em uma corrida contra a pandemia e esse foi o desenho do estudo.

Hoje o foco das pessoas em geral está na vacina, mas qual o impacto de um tratamento como esse no nosso cenário atual?

Hugo Nisenbom – Primeiro, temos que ter o entendimento e a humildade de que vamos aprendendo com a pandemia. Segundo, temos que continuar a vacinação, porque a vacina é a forma como as pessoas previnem a enfermidade.

‘Mas essa solução tem a capacidade de ser um game changer, porque mesmo as pessoas vacinadas podem contrair a doença e as vacinas ainda possuem eficácias diferentes dependendo das variantes’.

Então ter agora a possibilidade de um tratamento quando a pessoa tem a doença nos primeiros cinco dias, antes de passar para a fase inflamatória, e evitar ou diminuir significativamente hospitalização e óbito, é uma grande conquista no combate da enfermidade. Os cientistas envolvidos na pesquisa até se perguntavam: o que teria acontecido se tivéssemos isso antes? Agora, sendo muito prudente, é preciso seguir a ciência e aguardar as aprovações regulatórias, que ainda vão definir como e quando usaremos o produto.

Inicialmente se falava que seria muito difícil encontrar um medicamento antiviral contra a Covid-19.

Hugo Nisenbom – A colaboração é uma coisa fantástica. Isso começou em um laboratório pequeno nos EUA, o Ridgeback, com estudos preliminares e desde meados do ano passado a gente acelerou em tempo recorde para seguir com os testes para as fases 2 e 3, até chegar nesses resultados incríveis. E temos que seguir trabalhando, porque aceleramos as pesquisas em tempo recorde, mas imagina como será a produção? É o mesmo desafio com as vacinas. Comentaram internamente que precisaríamos produzir em um ano o que demorou 15 para produzir a droga de maior sucesso da MSD. Por isso essa cooperação é importante. Um exemplo foi na questão da vacina. Muita gente cooperou para levar acesso a diversos países. Nós mesmos colocamos nossas fábricas para acelerar a produção da vacina da Johnson & Johnson [Janssen].

Como a MSD está se preparando para que não falte esse medicamento como aconteceu com as vacinas?

Hugo Nisenbom – Nós já produzimos dez milhões de cartelas desse medicamente à risco. Estamos nos adequando, associando com todo o ecossistema. Claro que no começo não tem jeito, mas estamos trabalhando de perto com todas as autoridades no mundo para realmente fazer o produto chegar da forma mais eficiente e rápida possível. Isso depois de aprovado.

No caso da produção, onde está o maior desafio?

Hugo Nisenbom – Acho que na complexidade do processo de produção, volume e tempo. Quando for liberado, cada país vai querer o medicamento o quanto antes.

É difícil falar agora sobre prazos, mas é possível estimar quando isso estaria disponível para as pessoas?

Hugo Nisenbom – É difícil porque não depende de nós, depende das autoridades regulatórias. Já existem países, como os Estados Unidos, que anunciaram a compra do produto antes de ser aprovado. Compraram 1,7 milhão de unidades. Outros países certamente vão anunciar nas próximas semanas. No caso das vacinas as agências regulatórias aprovaram em três, quatro semanas, mas não dá para dizer, é pura especulação.

As conversas já estão acontecendo aqui no Brasil?

Hugo Nisenbom – Sim, já há conversas com órgãos técnicos.

E em relação ao custo? Algumas notícias falam de US$ 700 por pessoa. Está no radar negociar esse valor com o Governo, é um valor fechado?

Hugo Nisenbom – Não posso fazer declarações de preço porque seria imprudente de minha parte, mas vamos trabalhar para garantir o acesso de acordo com as possibilidades de cada país.

No começo do ano vocês anunciaram que estavam abandonando o desenvolvimento de duas candidatas à vacina e, como você comentou, apoiaram a da Janssen. Vacina para Covid-19 saiu do portfólio da MSD de uma vez por todas?

Hugo Nisenbom – Sim, saiu porque os primeiros resultados não saíram conforme esperávamos. Sabemos que a indústria está aberta ao risco quando o assunto é inovação. Às vezes dá certo e às vezes não.

Mas com tudo o que passou, com movimentos anti-vacina e fake news, inclusive a vacina de HPV da MSD foi alvo, você acha que as vacinas e a ciência saem fortalecidas?

Hugo Nisenbom – Sem dúvida, definitivamente temos que seguir a ciência. Tomar decisões baseadas em dados robustos e não em opiniões, por mais bem intencionadas que sejam. Depois da água potável, nada salvou mais vidas no mundo do que as vacinas. Sempre falo que se fosse ministro da saúde de qualquer país, em primeiro lugar garantiria água potável para todos e vacinaria contra tudo, porque são tratamentos preventivos por excelência. A vacinação tem que continuar. E uma coisa bem importante é trabalhar para que não nos esqueçamos das outras vacinas além da Covid-19.

‘Nos últimos anos, o Brasil, que é um grande modelo, teve uma queda na vacinação, provavelmente por essas fake news. Temos que tomar cuidado para não voltem doenças que estavam erradicadas’.

Mudando um pouco de assunto, a MSD sempre demonstrou um olhar para saúde pública. Por que essa postura de olhar mais para a saúde populacional?

Hugo Nisenbom – Muitas empresas falam de propósito hoje em dia, mas isso não é novo na MSD, que possui 135 anos. Entre as décadas de 1930 e 1950 tivemos um CEO muito marcante, George Merck, que falava que a gente tem que fazer a coisa certa pelo paciente e o lucro é consequência. Isso se vive no dia a dia da MSD. Como CEO da MSD no Brasil já tomei decisões de prejuízo para a companhia em favor do propósito. Um exemplo: na intubação de pacientes durante a terapia intensiva, explodiu a demanda por um determinado remédio que nós tínhamos. O Brasil precisava do equivalente a toda produção mundial desse remédio pela MSD em um mês. Começamos a trabalhar imediatamente e falar com outras localidades, como Austrália. Quando olhamos os custos de transporte, vimos que daria prejuízo, mas trouxemos o produto mesmo assim sem repassar nenhum custo. Esse é apenas um jeito de mostrar como a missão é importante.

Você está há 25 anos na MSD. Esses últimos dois anos foram os mais desafiadores?

Hugo Nisenbom – Comecei como pesquisador na Argentina e depois atuei em outros países como Equador, Peru, Venezuela e há seis anos estou aqui no Brasil. Vivi momentos muito desafiadores em alguns destes países e a pandemia foi um deles, porque era algo desconhecido. O que foi bem tranquilizador foi a clareza de quais eram nossos objetivos. O primeiro era manter a saúde dos colaboradores de duas formas: proteger contra a Covid e preservar a saúde mental e o estresse. O segundo era garantir os produtos, tanto para a população como para os estudos clínicos, pois as atividades não podiam parar. O terceiro era trazer soluções para o Covid-19, por isso ajudamos a Janssen com a vacina e hoje podemos falar do nosso antiviral. Uma outra coisa que ajudou também foi o fato de que já havíamos iniciado uma transformação na empresa no sentido de empoderar as pessoas e adotar metodologias ágeis.

Como está a situação do Brasil quando falamos de inovação?

Hugo Nisenbom – Um dos pilares fundamentais da saúde é inovação. Temos que fomentar a inovação inclusive com apoio de marcos regulatórios. Sempre cito Israel como exemplo, onde há o maior número de patentes por habitante no mundo. Lá eles possuem organismos que conectam indústria, universidade e fomentam a inovação. Na área de pesquisa novamente temos que olhar o marco regulatório. O Brasil está sempre entre os primeiros dez mercados farmacêuticos do mundo, mas em pesquisa está na faixa dos 20, porque precisamos melhorar o marco, acelerando os tempos e evitando entraves. E é uma indústria fantástica, porque é limpa, traz conhecimento e é exportadora. De outro lado, temos que cuidar da inovação que ocorre no Brasil por meio de instituições como Fiocruz, Butantã. Quanto mais você protege a inovação, mais soluções e impacto na saúde e na economia você tem.

E com relação ao acesso?

Hugo Nisenbom – Quando falamos de acesso, no Brasil existem áreas que funcionam muito bem no sistema público, como as vacinas e tratamento de HIV, mas em outras áreas temos que acelerar. No sistema privado, temos oportunidade de incorporar mais rápido inovação e, quanto antes você implanta, mais rapidamente ocorre o impacto na vida e na economia.

‘Temos que sair da discussão sobre o preço do remédio. No sistema privado, isso representa 7% do custo. No sistema público é 15%. É muito pouco. Todos os atores do setor, pagadores, governo, deveriam trabalhar juntos para encontrar formas de melhorar a eficiência’.

Nesse contexto de que os diversos atores precisam conversar, qual o papel da indústria farmacêutica nesse diálogo? Está na dianteira ou mais passiva na questão da sustentabilidade do setor da saúde?

Hugo Nisenbom – A indústria está ativa tanto no acesso quanto no entendimento da jornada do paciente de ponta a ponta. Um exemplo está nas parcerias público-privadas, como no caso da vacina de HPV. Um dos maiores programas públicos do mundo hoje em vacina de HPV é do Brasil, que traz uma economia enorme e salva milhares de vidas a cada ano. São parcerias que visam dar acesso. Agora, todos temos que trabalhar. É um esforço conjunto da sociedade. A própria indústria está fazendo estudos para mostrar a importância do impacto econômico e na saúde com a incorporação de tecnologia. O problema é quando você reduz a discussão a preço. Muitas vezes você encontra áreas de oportunidade que permitem financiar o acesso à inovação e possibilitam uma vida melhor.

Dentro dessa mudança de setor fala-se cada vez mais em atenção primária, inclusive com atuação de médico de família na prevenção. E você abordou agora essa questão da jornada do paciente. Como você enxerga esse novo momento do setor?

Hugo Nisenbom – Um aprendizado que temos desse novo jeito de trabalhar é que ninguém pode fazer nada sozinho. Para executar esses exemplos que mencionei você necessita de dados de laboratório, médicos, hospital, programas de dados, inteligência artificial, startups, e juntar tudo isso em prol de um objetivo que é salvar a vida do paciente. Hoje temos que entender que trabalhamos em um ecossistema. Com a Covid-19 isso aconteceu. Empresas trabalharam entre si. Governo acelerou aprovações. Todas essas coisas boas que aconteceram temos que continuar a fazer como sociedade. Quando trabalharmos juntos, deixando interesses, política e ideologias de fora, a humanidade será melhor.

Você acha que pós-Covid toda essa colaboração e visão de ecossistema vão continuar?

Hugo Nisenbom – Não tenho dúvida. Sempre digo que o Covid-19 não inventou nada, foi apenas um catalisador. Já tínhamos processos de digitalização, novas formas de trabalho, ecossistema, e isso só acelerou. Quando você entende que o paciente está no centro e que não há nada mais importante que ele, teremos melhores desfechos.

Pensando no futuro, onde está o olhar da MSD em um horizonte de 5 a 10 anos?

Hugo Nisenbom – Nestes 135 anos de MSD nunca perdemos o foco em duas coisas: propósito e inovação. Só em 2020 investimos quase R$ 14 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. Onde? Uma área é a oncologia, que ainda há muito para se descobrir. Outra é a área de vacinas, como a de pneumocócicos, vírus respiratórios, dengue. Também estamos trabalhando em HIV e Alzheimer.

‘Agora uma coisa interessante é que nós não acreditamos que toda a ciência está nos nossos laboratórios, embora tenhamos uma grande tradição. Por isso a MSD abriu centros de pesquisa nas cidades americanas São Francisco e em Cambridge, ou seja, lugares onde está a inovação’.

Além disso, na semana passada anunciamos a compra da Acceleron por US$ 11 bilhões. Hoje eles são pequenos, mas estão desenvolvendo uma droga para os casos de hipertensão pulmonar arterial, uma doença que não está controlada e causa muitas mortes. Em outras palavras, o nosso foco em inovação não muda, seja interno ou por meio de aquisições e alianças. Entramos de vez no mundo digital e vamos fazer cada vez mais rápido os estudos clínicos, ter mais dados, provavelmente entrar na medicina de precisão. Sempre falo que a digitalização é o mesmo que a eletricidade no começo do outro século: antes você fazia uma coisa, mas depois consegue fazer mais, melhor e com mais eficiência. Tudo sem esquecer do nosso propósito e do paciente no foco de tudo.

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Você foi eleito recentemente presidente da Interfarma. Como está lidando com liderança da entidade e da MSD ao mesmo tempo?

Hugo Nisenbom – Na Interfarma você tem que representar o que há em comum nas empresas. E o que há em comum? O primeiro ponto é desenvolver o acesso dos pacientes à inovação, o segundo é o respeito à inovação e o terceiro é melhorar os mecanismos regulatórios, porque às vezes você tem a tecnologia, dinheiro, acesso, mas o processo regulatório não acompanha. Acredito que as empresas podem competir para ter as melhores inovações, mas têm interesses comuns para melhorar esse acesso à inovação. E outra coisa muito importante é a ética. Os valores éticos e de compliance precisam estar muito claros quando você está tratando um paciente, esse é outro ponto em comum na associação.

Fonte: Futuro da Saúde

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