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Mesmo com venda restrita, pacientes de doenças autoimunes relatam falta de cloroquina

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Após a cloroquina e a hidroxicloroquina serem anunciadas como possíveis medicamentos para o tratamento do coronavírus e o presidente Jair Bolsonaro passar a defender a sua utilização, ainda no mês de março, o Brasil registrou uma verdadeira corrida às farmácias para a compra do medicamento. O fato obrigou a Anvisa a, no dia 21 de março, decretar a restrição da venda das substâncias. Ainda assim, passados dois meses da imposição das restrições, pacientes de doenças autoimunes que necessitam destes medicamentos seguem relatando a falta deles nas farmácias.

“É uma dificuldade de encontrar uma medicação que tem que ser tomada todos os dias”, diz a publicitária Amaralina Xavier. Paciente de lúpus, uma doença autoimune, desde 2016 ela é usuária de hidroxicloroquina, medicação de uso contínuo para o tratamento da doença.

Amaralina conta que, antes da pandemia, o medicamento era facilmente encontrado e barato. “Até então, antes de começarem a divulgar o nome do medicamento como uma salvação da covid, por ele ser um remédio de uso contínuo e muito básico para o tratamento dessas doenças, era muito simples de comprar. Em qualquer farmácia tinha, tanto a questão da oferta, quanto não precisar de nenhum tipo de receita especial”.

Amaralina diz que, quando a hidroxicloroquina começou a ser ventilada como um possível medicamento com resultados positivos para o tratamento da covid-19, ocorreu uma primeira falta do remédio na farmácia. Como tinha comprado uma caixa de hidroxicloroquina antes da pandemia, ela precisou comprar uma nova apenas no início de abril. Como houve uma corrida às farmácias para a compra da hidroxicloroquina, Amaralina diz que os estabelecimentos começaram a limitar o número de unidades vendidas. “Eu tinha que comprar duas caixas para o meu tratamento e a farmácia falou que só venderia uma por CPF. Acho que não era nada vinculado à legislação, acho que era para limitar essa compra de todo mundo que estava indo atrás mesmo sem necessidade. Foi difícil conseguir, tive que pedir para a minha médica me enviar diversas formas de requisição até que eles entendessem que eu era uma paciente que tinha uma comorbidade e precisava da medicação”.

Na época, a publicitária acabou conseguindo comprar as duas caixas que buscava, que duraram até o início de junho, quando Amaralina pediu à sua médica uma nova receita. “Agora eu estou precisando comprar uma nova leva de remédios e não estou encontrando em nenhuma das farmácias maiores de Porto Alegre, nem nas pequenas de esquina de bairro. Eu já liguei, não há disponibilidade da cloroquina e nem da hidroxicloroquina”, diz.

Reumatologista e professor da Faculdade de Medicina da UFRGS, Ricardo Xavier corrobora o relato de que o medicamento está em falta. Ele destaca que, após os primeiros anúncios de que a cloroquina e a hidroxicloroquina poderiam ajudar no tratamento da covid-19, houve uma grande corrida às farmácias por parte do público e foram tomadas medidas para controlar a venda, como a exigência de receita especial para prescrição dos medicamentos. “Antes não precisava, passou a precisar justamente porque estava todo mundo indo na farmácia comprar hidroxicloroquina, nem sabia como usar, nem nada, mas estavam comprando, fazendo estoque”, diz.

Ainda assim, ele afirma que continua recebendo relatos de pessoas com dificuldades de encontrar o medicamento e de que isso ocorre em todo o País. “Está faltando há algum tempo. Já teve pior, deu uma melhorada e agora parece que está piorando de novo. Tenho vários pacientes com dificuldades de encontrar nas farmácias. Em outros estados, eu sei que está bem pior, inclusive do ponto de vista do fornecimento público. Eu tive colegas do Amazonas em que a própria fabricante fez uma doação grande, mas é uma dificuldade”, explica.

Amaralina diz que não imaginava que, em junho, o medicamento ainda estaria em falta nas farmácias. “Se tem todo esse controle, não sei por que está faltando. Não sei onde elas estão”, diz. “É uma situação que, apesar de chata, é bem simples. É uma busca por uma medicação que era muito comum e usual no mercado, que trata comorbidades que, dependendo do grau da doença, podem ser muito incômodas, com muitas dores, que era de fácil de acesso e agora não é”, complementa.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia, o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES ou apenas lúpus) é uma doença inflamatória crônica de origem autoimune, cujos sintomas podem surgir em diversos órgãos de forma lenta e progressiva (em meses) ou mais rapidamente (em semanas). Uma das principais manifestações da doença é por meio de manchas na pele, mas também causa febre, emagrecimento, perda de apetite, fraqueza e desânimo, entre outros sintomas.

O reumatologista Ricardo Machado Xavier destaca que o uso contínuo da hidroxicloroquina previne a ocorrência de surtos da doença, que podem voltar sem a utilização do remédio. “O Lúpus é uma doença autoimune, que se caracteriza por entrar em atividade em surtos, que podem ser menos graves ou gravíssimos. Quando o paciente tem um surto, a gente tem que usar corticoide e outros imunossupressores pesados para o paciente sair do surto. Quando ele sai do surto é que a hidroxicloroquina cumpre o seu melhor papel, ela previne outros surtos. Se o paciente fica um tempo sem, ele está sujeito a reativar a doença”, diz.

Sem conseguir encontrar o medicamento desde a semana passada, Amaralina fez um desabafo nas redes sociais e mobilizou amigos que trabalham na área da saúde que poderiam ter contatos com farmácias mais distantes da área central da cidade ou no interior do Estado. “Foi uma comoção, muitos amigos se colocaram à disposição para ver se tem nas suas cidades, onde talvez pudesse ter mais disponibilidade do que na Capital”.

Ainda assim, até a quarta-feira (17), nenhum conhecido de Amaralina tinha conseguido encontrar a medicação. O que conseguiu foi uma solução temporária, pessoas que sofrem de doenças autoimunes ou têm parentes com essas comorbidades se dispuseram a compartilhar cartelas de hidroxicloroquina com ela. Por outro lado, a publicitária avalia que a situação dela ainda envolve diversos privilégios, pois tem acesso a plano de saúde e condições de pagar consultas particulares para obter novas receitas. “Quem não tem esse acesso, a cada nova consulta tem que pagar mais uma vez para ter só a receita do médico. Isso também é ruim”.

Guilherme Leiptniz, executivo do Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos do Estado do Rio Grande do Sul (Sinprofar-RS), diz que tomou conhecimento de notícias da falta do medicamento, mas afirma que a entidade não recebeu nenhuma informação sobre o problema. “O sindicato desconhece se existe a falta desse produto farmacêutico no mercado”, diz.

Ele também ressalta o fato de que a hidroxicloroquina passou a ser controlada em abril e que isso deveria ter resolvido o problema da falta de medicamento. “Hoje é um remédio que, para tu vender, tu precisa ter uma receita em duas vias, um receituário especial”, diz.

Procurada com um pedido de posicionamento, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) diz que não cabe à pasta “tarefa de fiscalizar farmácias da rede privada”. Vale destacar ainda que a prescrição de cloroquina e hidroxicloroquina para o tratamento de covid-19 é prerrogativa exclusiva dos médicos, de acordo com Nota Técnica do Ministério da Saúde e orientação da SES.

Fonte: Portal Sul21

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