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Mulheres negras relatam como abraçaram raízes afro ao aceitar os cabelos naturais

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O cabelo crespo e cacheado nem sempre foi visto como um referencial de beleza. Durante muito tempo, a população negra sofreu com falas preconceituosas que afirmavam a existência de um modelo ideal de cabelo: o liso. Quem estivesse fora desse padrão, precisava conviver com um cabelo considerado feio e, muitas vezes, “ruim”. Uma imposição refletida nas prateleiras das lojas de cosméticos que, orgulhosamente, ofereciam produtos para alisar ou diminuir o volume dos cabelos “rebeldes”. Entretanto, um movimento contrário a esse apagamento dos traços e cultura afrodescente tem ganhado cada vez mais espaço na mídia e redes sociais, ajudando homens e mulheres a se aceitar e valorizar as madeixas naturais, uma forma de empoderamento para muitos brasileiros.

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A empreendedora e digital influencer Pity Sulivan, 24 anos, conta que começou a alisar os fios crespos aos 7 anos. “Sempre escutava que meu cabelo era bombril, cabelo de bucha. Então, eu não gostava da forma dele”, relata. A mudança de perspectiva veio dez anos depois, após o incentivo de uma professora de história. “Era a semana da consciência negra e a minha professora passou um trabalho para recitar um poema. Só que ela falou que eu só poderia recitar a poesia, valendo nota, se eu estivesse com meu cabelo natural”, relembra a moradora de Santa Maria. Após anos de processos químicos, os fios não tinham forma e Pity encarou o desafio de parar de mudar a estrutura do cabelo e iniciar a transição capilar.

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“Esse dia na escola foi a primeira vez, em muito tempo, que me vi com o cabelo natural. E a partir desse trabalho, na semana da consciência negra, fui entender e aprender a gostar das minhas raízes”, afirma a jovem que, atualmente, utiliza as redes sociais para ressaltar o cabelo crespo e empoderar outras mulheres negras. “Quando você se aceita, não importa o que as outras pessoas pensam, isso não afeta mais. A gente passou tanto tempo tentando diferenciar o bonito do feio, que é bom tirar esse peso”, destaca.

O caminho trilhado por Pity Sulivan foi árduo. “Foram três anos que eu não queria sair de casa. O meu cabelo estava esquisito, com a raiz inchada e as pontas lisas. Essa é a pior parte”, pontua. Durante esse período, as tranças e o turbante foram grandes aliados. Uma alternativa encontrada por ela para se sentir bonita, até recuperar a forma natural dos fios.

Estranhamento

Para Isabelly Vieira, 22, a escuta de que o cabelo crespo é ruim começou na família. Moradora de Ceilândia, ela relata que passou por três alisamentos com progressiva mais o relaxamento. “Era a única coisa que deixava meu cabelo mais prático para a escovação e chapinha”, afirma. Os procedimentos com química iniciaram na adolescência. “Decidi alisar depois de muito escutar, principalmente, da minha família, que meu cabelo era muito rebelde, que o ideal seria casar com uma pessoa branca de ‘cabelo bom’, pois ‘de cabelo ruim’ já bastava a nossa família'”, conta a jovem que iniciou o processo de transição após os fios começarem a cair em decorrência as intervenções que ela fazia.

“Passei pela transição durante alguns meses e, aos 16 anos, pedi para que uma amiga cortasse ele bem curtinho, em um comprimento que eu nem prendia, para me livrar logo de toda a química”, ressalta. A partir desse momento, Isabelly iniciou um processo de redescoberta. Pouco tempo depois, ela foi contratada como recepcionista em um salão especializado em crespos e cacheados e acompanhando o trabalho, acabou tendo a oportunidade de se formar como técnica do salão. “Nesses últimos seis anos de cabelo natural, tenho me esforçado para aprender cada dia mais a arrumar, tratar e cortar de forma correta e passar adiante esses conhecimentos, ajudar quem ainda está passando por este processo”, destaca.

Para a cabeleireira, toda essa trajetória foi importante para sua autoestima e personalidade. “Todos os dias é uma construção e uma aceitação. Ainda lido com olhares de estranheza e comentários desagradáveis, e trabalhar como especialista de cabelos cacheados me deu mais força, pois sei que tem muita gente, principalmente, crianças e adolescentes, passando por essas situações dentro da própria casa”, finaliza.

Ressignificar

Natural do Rio Grande do Sul, Rosi Ribeiro, 36, enfrentou a solidão de não se reconhecer na maioria das pessoas da cidade de onde morava – em que a predominância é de pessoas com pele clara. Entretanto, foi quando mudou para Brasília, aos 24, que ouviu as piores críticas raciais. “Enfrentei o preconceito, não podia usar trança, nem black Power. Para ser aceita, tive que alisar o meu cabelo. Até que comecei a apresentar calvície temporária e precisei parar com tudo. Não dava mais para deixar ele liso”, relata a publicitária e empreendedora.

Rosi conta que quando resolveu passar pelo processo de transição encontrou salões que se intitulavam “afro”, mas que trabalhavam com relaxamento ou permanente afro. Para um cabelo tão fragilizado, não era uma opção. “Em um dos locais que eu fui, a cabeleireira falou que eu deveria raspar a cabeça. Como você fala para uma mulher, já com a autoestima baixa, que tem que raspar o cabelo?”, indaga. O baque de perceber que os fios estavam caindo foi grande. Rosi entrou em depressão e não conseguia sair mais de casa.

Reclusa, ela começou a estudar. A entender como ela poderia recuperar o cabelo dela de forma saudável. Fez cursos on-line, posteriormente um workshop em São Paulo, até que se tornou especialista na área. Em julho de 2015, Rosi abriu o Via Cachos, um espaço destinado à recuperação dos fios e da autoestima da população negra. “Eu percebi que não existia locais voltados para esse cuidado. Eu queria trazer algo que tivesse como foco esse resgate de identidade e autoestima. Porque o cabelo influencia muito no psicológico”, afirma a empreendedora, que também faz trabalho social ensinando mães de crianças negras a cuidar do cabelo crespo.

O projeto Alisa não Mamãe voltado para o público de 2 a 12 anos, estudantes da rede pública de educação, visa apresentar de forma simples a forma correta de tratar o cabelos crespos e cacheados. Além de fazer esse resgate de identidade e empoderamento desde cedo. “Tudo que eu ofereço para as minhas clientes, em algum momento da minha vida eu senti essa carência. O empoderamento começa com uma sementinha que é preciso se espalhar. Não é um trabalho que a gente faz sozinho”, acrescenta.

Origens

Nascida em uma família que sempre prezou pela identidade cultural e ancestralidade, Wania Abreu, 40, cresceu sabendo a força que tem uma trança. O penteado de origem africana está presente na vida dela desde pequena. “Minha mãe trançava sempre o meu cabelo para evitar ficar penteando sempre. Ouvi muitos comentários me chamando de ‘medusa’, quando era criança, mas eu não ligava. Queria ficar com o cabelo arrumado”, relata a moradora de Santa Maria. Na adolescência ela começou a fazer as tranças sozinha no próprio cabelo e com o tempo veio a ideia e oportunidade de empreender como trancista.

Para além de um penteado, Wania reforça e mantém presente a importância de entender a origem por trás de cada tipo de trança. Atualmente, ela dá palestras e cursos sobre o assunto e sempre que pode repassa o conhecimento adiante. “Sempre me perguntam porque eu ainda não tenho um espaço físico para atender minhas clientes. E a resposta é muito simples, eu quero abrir um espaço cultural, onde a pessoa vai ter contato com a música africana, vestimenta africana, e outras manifestações além do cabelo”, destaca Wania que atende a domicílio.

Na avaliação dela, qualquer pessoa pode fazer uma trança, basta ter cabelo. “Muito se fala em apropriação cultural. Se uma pessoa branca quer trançar o cabelo e entende a história por trás e acha bonito, não vejo problema. Agora, se busca como um acessório para o carnaval, por exemplo, não acho correto. Inclusive nem atendo”, comenta. Outra reflexão que a trancista faz é sobre como a sociedade encara e segrega. “Uma pessoa branca usando trança é moda. Um negro usando trança é porque o cabelo é ruim”, critica.

Mais que beleza

A trança surgiu 3.500 anos antes de Cristo, na África. O estilo era o cornrows, conhecido no Brasil como trança nagô ou trança raiz. Naquela época, as tranças eram usadas para identificar as tribos, origem, idade, estado civil, religião, riqueza e posição social.

Fonte: Trancista Wania Abreu

Saiba quais são os estilos de trança mais comuns

Trança nagô: também conhecida como trança raiz, é caracterizada por ficar rente ao couro cabeludo. Pode ser feita com o próprio cabelo ou com fios sintéticos. O estilo permite, ainda, fazer desenhos na cabeça.

Trança fulani: trança fina, popularizada pelo povo Fulani, da África. O estilo geralmente incorpora os seguintes elementos: uma nagô trançada no centro da cabeça; outras em diferentes direções; e, muitas vezes, inclui acessórios como contas, para finalização.

Trança boxeadora – A trança boxeadora, também conhecida como boxer braid, é um penteado feito com duas tranças embutidas, sendo uma de cada lado da cabeça. No modelo mais tradicional, elas ficam bem no alto da cabeça, mas existem algumas variações.

Trança box braids: também conhecidas como Kanekalon, tranças sintéticas ou tranças soltas, é um estilo de penteado protetor em que o entrelaçamento é feito nos fios naturais, com adição de cabelos sintéticos. Os sintéticos geralmente são de materiais Jumbo (fibra com aspecto natural do cabelo) ou Kanekalon (fibra grossa e brilhosa).

Trança twist: esse tipo não é necessariamente uma trança. Trata-se de uma técnica que entrelaça cabelos naturais aos sintéticos, unindo duas mechas, em vez de três, como nos formatos tradicionais.

Fonte: The World News

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