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No Rio, governo Paes vai tentar conciliar negociações sobre vacina

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O prefeito eleito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (DEM), assume a cidade com protagonismo quase automático no enfrentamento local à covid-19. Isso porque a derradeira administração de Marcelo Crivella (Republicanos) e a gestão do governador em exercício, Claudio Castro (PSC), aliadas de primeira hora do presidente Jair Bolsonaro, refugam a discussão sobre a vacina ou sobre medidas mais rígidas de combate ao vírus ante a nova escalada de casos.

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Ao Valor o secretário de Saúde escolhido por Paes, o médico sanitarista Daniel Soranz, que já ocupou o cargo entre 2013 e 2016, minimizou a questão política e afirmou que a nova prefeitura vai sim agir em várias frentes, ao respeitar o Plano Nacional de Imunização (PNI) e buscar alternativas junto ao Instituto Butantan e outros laboratórios estrangeiros.

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A equipe da transição municipal já tem acordos de cooperação assinados com os dois produtores nacionais de vacina, o Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), de onde Soranz é pesquisador natural. O futuro secretário também informou que o novo governo mantém conversa adiantada com a farmacêutica norte-americana Moderna e deu início a contatos com outros laboratórios pelo mundo. Ele não citou nomes, mas disse que as negociações acontecem diretamente com representantes de outros governos.

No dia 19, Paes se reuniu primeiro com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), para falar sobre a vacina da farmacêutica chinesa Sinovac. Só dois dias depois com a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade, visando o produto a ser usado em larga escala pelo governo federal, desenvolvido pela universidade de Oxford e o laboratório AstraZeneca.

“Não foi um erro político. É a demonstração clara de que o prefeito e a atual secretaria vão fazer de tudo para encurtar os tempos da vacina. Na prática, a relação com o Ministério da Saúde e com o presidente Jair Bolsonaro vai ser a melhor possível, o mesmo com o governador Claudio Castro”, diz Soranz. Ele frisa o caráter técnico da questão e aposta na harmonia entre as frentes de atuação de Paes.

Para fazer frente à disparada de contaminações por covid-19 na cidade, Soranz descarta novos hospitais de campanha e promete focar na abertura de leitos na rede existente, o que depende da contratação de pessoal. “Calculamos um número de 1,7 mil leitos fechados nas unidades públicas da cidade por falta de enfermeiros e médicos. É inadmissível pensar em abrir um hospital de campanha em uma estrutura temporária com tendas e banheiros químicos para cuidar de pessoas, quando temos 80 leitos fechados no Hospital de Acari e mais 380 no Hospital Geral de Bonsucesso”, diz sobre as duas unidades da zona norte da cidade.

Soranz estimara ao Valor, em agosto, que havia 2,1 mil leitos nessa situação. Mesmo assim, o então governador Wilson Witzel (PSC) anunciou a construção de sete estruturas temporárias, das quais só duas vingaram em iniciativas cercadas de denúncias de corrupção. Crivella também montou hospital de campanha no Riocentro, complexo de eventos na zona oeste, cujos 500 leitos disponíveis não foram totalmente utilizados.

Mais recentemente, Castro tem dito que o gargalo à reabertura de leitos é a falta de pessoal. O atual secretário estadual de Saúde, o médico Carlos Chaves, também adotou discurso semelhante ao de Soranz, que o define como amigo pessoal. Chaves é o quarto ocupante do cargo desde o início da crise, em março. Até então, as estratégias estaduais e municipais para a crise sanitária nunca conversaram e patinaram na execução.

Outra medida central nos planos de Soranz é o lançamento de aplicativo para autonotificação de pacientes com sintomas. O sistema construído por pesquisadores da Fiocruz será finalizado pela IplanRio, a empresa pública de informática da prefeitura do Rio, e deve ser lançado ainda em janeiro.

“As pessoas vão relatar que têm algum tipo de doença respiratória e as equipes de saúde da família vão investigar, ligar, fazer testagem e realizar as ações de bloqueio local com rastreamento de contatos. Isso aconteceu nos principais sistemas de saúde com bom desempenho na pandemia.”

Reforçar a rede de medicina da família é um dos objetivos estruturais da nova gestão carioca, após enxugamento da máquina da saúde sob Crivella, que desmobilizou mais de 400 equipes com médicos, enfermeiros e agentes responsáveis pela visitação e acompanhamento de pacientes em casa ou clínicas.

Soranz afirma que, ao proteger orçamento próprio via corte de pessoal e oferta de serviços para focar a compra de equipamentos médicos, a gestão anterior acabou renunciando a outras receitas vinculadas aos programas do Sistema Único de Saúde e repassadas pelo governo federal. O movimento teria ampliado ainda mais as dificuldades da pasta. A ideia, segundo ele, é recompor essas receitas para contratar pessoal e retomar a cobertura do sistema de quatro anos atrás.

Apesar do contexto de restrição fiscal, o novo secretário de Saúde do Rio afirma que há espaço para contratação de pessoal pela prefeitura, o que pretende fazer por meio de um mix de estruturas que passam pela administração direta, pela empresa pública Rio Saúde, capaz de contratar celetistas, e pelas Organizações Sociais (OSs).

Essas associações privadas sem fins lucrativos que assumem unidades do SUS de forma terceirizada perderam espaço na administração Crivella, que rompeu com cinco das oito OSs contratadas. Segundo o Tribunal de Contas do Município, o gasto com esse tipo de contrato na saúde chegou ao pico histórico de R$ 2,2 bilhões em 2016, último ano de Paes à frente da cidade, e desceu a R$ 1,38 bilhão em 2019 sob Crivella.

Soranz, porém, avalia tratar-se de instrumento indispensável à expansão célere da rede em uma cidade das dimensões do Rio de Janeiro, mas assente sobre a necessidade de maior fiscalização a fim de evitar a reedição de escândalos. O secretário afirmou que as inabilitações de OSs promovidas pela gestão Crivella serão mantidas até decisão judicial em contrário.

Fonte: Clip News

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