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Um ano de sequelas em 49% dos pacientes

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Um ano depois da hospitalização, pacientes da primeira onda da covid-19 na cidade chinesa de Wuhan ainda sofriam sequelas da doença. Um em cada três internados que receberam alta entre janeiro e maio de 2020 no local considerado o epicentro da pandemia relatava falta de ar 12 meses depois, e os parâmetros de bem-estar geral eram piores nesse período nos que foram infectados pelo Sars-CoV-2, comparados a pessoas com o mesmo perfil que não tiveram a doença. Esse é o resultado de um estudo com 1.276 adultos com mais de 18 anos publicado, ontem, na revista The Lancet.

Segundo um dos autores, Bin Cao, do Centro Nacional de Medicina Respiratória do Hospital da Amizade China-Japão, na China, possivelmente, muitos sobreviventes exibirão sintomas por mais de um ano. “Nosso estudo é o maior até agora para avaliar os resultados de saúde de sobreviventes de covid-19 hospitalizados após 12 meses de adoecimento. Embora a maioria tenha se recuperado bem, os problemas de saúde persistiram especialmente naqueles que haviam estado gravemente enfermos durante a internação. Isso deve ser levado em consideração ao planejar a prestação de serviços de saúde pós-pandemia”, afirmou, em nota.

Desde os primeiros meses do Sars-CoV-2, há relatos sobre a persistência de sintomas, e a covid-19 longa hoje é considerada uma preocupação crescente. O artigo publicado ontem é parte de um estudo maior, dos mesmos pesquisadores, que, anteriormente, haviam detectado, em outro coorte de pacientes, que três quartos deles continuavam com problemas de saúde passados seis meses da infecção. Agora, o prazo da pesquisa foi ampliado para um ano.

Os participantes tinham idade média de 57 anos, haviam sido internados no Hospital Jin Yin-tan, de Wuhan, e foram avaliados detalhadamente seis e 12 meses depois de receberem alta. A análise incluiu questionários, exames físicos e laboratoriais e um teste de caminhada de seis minutos, para avaliar o nível de resistência.

Embora muitos sintomas tenham desaparecido com o tempo, inclusive em quem esteve mais grave, seis meses após a alta, 68% dos sobreviventes apresentavam ao menos um sinal da doença, percentual que caiu para 49% em um ano. A sequela mais comum foi fraqueza muscular, presente em 52% (seis meses) e 20% (12 meses) dos ex-pacientes. Um terço relatou falta de ar após um ano, sequela mais frequente naqueles que precisaram de ventilação mecânica quando hospitalizados.

Na primeira avaliação, 349 participantes foram submetidos a testes de função pulmonar, sendo que 244 deles repetiram o exame em 12 meses. A proporção de pacientes com comprometimento da difusão pulmonar (habilidade do órgão de fazer a troca de gases) não melhorou de seis meses a um ano, independentemente da gravidade da infecção inicial. Entre os que não precisaram de suplementação de oxigênio, 21% (seis meses) e 23% (um ano) apresentavam o problema. Já nos que dependeram de ventilação mecânica, os percentuais foram de 57% e 54%, respectivamente.

Os pacientes também passaram por entrevistas que deixaram claro a forma como a doença pode afetar a vida de quem é infectado pelo Sars-CoV-2. Um ano após a alta, 12% não haviam voltado ao trabalho, sendo que 32% desses estavam nessa condição devido à diminuição da capacidade física. As mulheres relataram 1,4 vezes mais probabilidade de ter fadiga ou fraqueza muscular; duas, de ansiedade e/ou depressão; e quase três, de comprometimento da difusão pulmonar. Pessoas que foram tratadas com corticosteroides durante a fase aguda da doença tiveram 1,5 vezes mais probabilidade de sentir fadiga ou fraqueza muscular após 12 meses, em comparação com aquelas que não receberam esses medicamentos na internação.

O estudo também avaliou a saúde mental dos pacientes recuperados da covid-19. Em um ano, 23% tiveram depressão e/ou ansiedade, percentual que aumentou para 26% passado um ano. “Ainda não entendemos completamente por que os sintomas psiquiátricos são ligeiramente mais comuns em um ano do que em seis meses”, admitiu, em nota, Xiaoying Gu, um dos autores e pesquisador do Hospital da Amizade China-Japão. “Isso pode ser causado por um processo biológico ligado à própria infecção do vírus ou pela resposta imunológica do corpo a ele. Ou pode estar ligado à redução do contato social, solidão, recuperação incompleta da saúde física ou perda do emprego associada a doenças. Grandes estudos de longo prazo de sobreviventes de covid-19 são necessários para que possamos entender melhor as consequências de longo prazo para a saúde física e mental da doença”, afirmou.

Trauma

Um dos impactos da covid-19 na saúde mental dos sobreviventes é o aumento de casos de estresse pós-traumático, um sintoma que, segundo outro estudo publicado ontem, está associado a mudanças na conectividade do cérebro. Segundo Vince Calhoun, da Universidade Estadual da Geórgia, nos EUA, está cada vez mais claro que a doença afeta, em longo prazo, o sistema nervoso, causando sintomas neurológicos e mentais, como ansiedade e depressão.

Calhoun é um dos autores de um estudo que examinou anomalias funcionais no cérebro que podem estar por trás desses problemas. Em um artigo publicado na revista Neurobiology of Stress, ele os outros pesquisadores fizeram exames de ressonância magnética funcional (fMRI) em 50 sobreviventes que receberam alta entre fevereiro e março de 2020 em Wuhan e que relataram sintomas de estresse pós-traumático. Seis meses após a alta, os participantes foram analisados.

Os resultados mostraram, primeiramente, que os sobreviventes de covid relataram significativamente mais sintomas do transtorno do que os do grupo de controle. O estudo também revelou padrões anormais de conectividade cerebral ao longo do tempo nesses pacientes. “Quando observamos o grupo de sobreviventes de covid, encontramos uma relação significativa entre a gravidade dos sintomas de estresse pós-traumático e a frequência com que seus padrões cerebrais estão nesse estado alterado”, diz Calhoun.

De acordo com ele, os resultados destacam a importância de avaliar mudanças transitórias na rede funcional entre ex-pacientes de covid. Contudo, Calhoun observa que ainda há muitas perguntas sem resposta, incluindo por que esse estado cerebral está associado ao estresse pós-traumático.

Fonte: Jornal Correio Brasiliense – DF

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