Ultrafarma fecha lojas históricas em São Paulo
Varejista aposta em megaloja enquanto enfrenta turbulência financeira
por César Ferro em e atualizado em
A decisão da Ultrafarma de encerrar suas tradicionais unidades na Avenida Jabaquara vai além de uma simples estratégia comercial ou de marketing. A ideia é sair da zona sul de São Paulo, onde o grupo concentrou suas operações por cerca de duas décadas, e migrar para uma megaloja de aproximadamente 3 mil metros quadrados na zona norte da capital.
De acordo com fontes ouvidas pelo Panorama Farmacêutico, o movimento ocorre em meio a uma situação financeira delicada, agravada por investigações recentes e falhas na condução da expansão via franquias.
O reposicionamento ocorre cerca de seis meses após a deflagração da Operação Ícaro, conduzida pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP). A investigação apura um suposto esquema de corrupção bilionário envolvendo o fundador da Ultrafarma, Sidney Oliveira, o diretor estatutário do grupo Fast Shop, Mário Otávio Gomes, e auditores fiscais da Secretaria da Fazenda paulista (Sefaz-SP). Segundo as denúncias, créditos de ICMS teriam sido liberados de forma acelerada mediante pagamento de propina, estimada em mais de R$ 1 bilhão ao longo dos anos.
Especialistas do setor avaliam que a investigação teria impactado diretamente a capacidade da Ultrafarma de antecipar créditos de ICMS – prática que, até então, ajudava a sustentar condições comerciais mais agressivas com a indústria. Sem esse mecanismo financeiro, a rede passou a enfrentar maior resistência por parte de fornecedores e instituições financeiras. “O risco percebido aumentou. Prazos encurtaram, condições pioraram e a liquidez ficou mais pressionada”, resume uma fonte ouvida pelo portal.
Nesse contexto, a concentração da operação física em um único endereço pode ser interpretada como uma resposta defensiva. O novo espaço reunirá venda de medicamentos, ótica, farmácia de manipulação e operação logística para entregas expressas na Grande São Paulo, enquanto o centro de distribuição de Santa Isabel (SP) seguirá atendendo o restante do país. Em comunicado oficial, a Ultrafarma define o projeto como uma “virada de mentalidade” e uma “mudança estrutural capaz de reposicionar a empresa”.
Nos bastidores da Ultrafarma: franquias, litígios e fogo amigo
Nos bastidores, porém, o cenário é mais complexo. Fontes ouvidas com exclusividade pelo Panorama Farmacêutico relatam cancelamento de contratos por diversos licenciados da bandeira Ultrafarma Popular, além de litígios judiciais em curso. Há também relatos de reestruturações societárias nas quais dívidas parceladas e impostos não pagos teriam sido concentrados em empresas antigas do grupo, enquanto novas operações surgiam com estruturas mais leves.
O cenário se agrava ao se observar a trajetória da Ultrafarma Popular. Lançada com força a partir de 2019, a rede chegou rapidamente a cerca de 400 unidades em diferentes estados, com a ambição de ultrapassar R$ 2 bilhões em faturamento. No entanto, desde meados de 2022, o ritmo de inaugurações estagnou.
Analistas do mercado apontam que parte do problema estaria na estratégia de ‘empurrar’ a marca própria Sidney Oliveira aos franqueados com descontos agressivos. Enquanto as lojas próprias operavam com margens próximas a 60%, os franqueados ficavam com algo em torno de 25%, o que inviabilizava a política de preços. “A conta não fechava”, relata uma fonte. O resultado foi insatisfação generalizada, conflitos comerciais e reclamações de consumidores diante da diferença de preços entre lojas físicas, franquias e o e-commerce.
A conclusão dos analistas é que a rede enfrenta hoje um paradoxo ao tentar projetar ao mercado a imagem de inovação e ousadia, enquanto lida internamente com restrições financeiras, desgaste reputacional e um modelo de crescimento que perdeu tração. A megaloja, nesse sentido, pode representar tanto um novo capítulo quanto uma tentativa de ganhar fôlego em meio a um dos períodos mais desafiadores da história da companhia.