Gigantes do varejo avançam sobre o canal farma
Movimentos de Mercado Livre e Assaí ampliam a disputa no setor e colocam segurança sanitária e regulação no centro do debate
por Ana Claudia Nagao em
O varejo farmacêutico brasileiro entrou definitivamente no radar de grandes grupos fora do eixo tradicional das drogarias. Os movimentos recentes do Mercado Livre, no ambiente digital, e do Assaí Atacadista sinalizam uma mudança estrutural no setor e reacendem um debate sensível.
A grande questão é como conciliar conveniência, escala e inovação com a segurança do consumidor e a responsabilidade sanitária nas mesmas conformidades que as farmácias devem seguir?
Mais do que uma nova frente competitiva, a entrada desses players redefine o equilíbrio de forças no mercado e mobiliza entidades representativas, como Abrafarma e ABCFarma, que intensificaram sua atuação institucional.
Mercado Livre testa o terreno do varejo farmacêutico
Em setembro do ano passado, o Mercado Livre deu um passo inédito ao adquirir a Cuidamos Farma (Target), farmácia física localizada em São Paulo de propriedade da Memed. A operação permitiu à companhia iniciar atividades dentro do marco regulatório atual, funcionando como um laboratório para compreender as exigências sanitárias, logísticas e operacionais do segmento farmacêutico.
Em entrevista ao Neofeed, o vice-presidente sênior do Mercado Livre Brasil, Fernando Yunes, afirma que a iniciativa faz parte de uma estratégia de aprendizado. “Estamos conversando com a Anvisa e diversos stakeholders para modernizar a regulação no Brasil”, destaca. Ele reforça que, no longo prazo, o interesse da companhia é viabilizar um modelo em que farmácias parceiras possam vender medicamentos via marketplace, algo ainda vedado pela legislação brasileira”, acrescenta.
A ambição é clara e visa replicar no Brasil modelos já adotados pela empresa em países como México, Chile e Argentina. Ainda assim, o Mercado Livre tem reiterado que não tem planos imediatos de operar diretamente o varejo farmacêutico online, ressaltando que atua em conformidade com a RDC 44/2009 da Anvisa.
Em outubro de 2025, a Abrafarma enviou um ofício ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) solicitando que a autarquia reavalie a aquisição da farmácia Cuidamos Farma, levantando questionamentos sobre o real escopo da operação e eventuais riscos concorrenciais e sanitários.
Para o CEO da Abrafarma, Sergio Mena Barreto, a companhia “insiste em afirmar que não atua no varejo farmacêutico, apesar de reconhecer que o marketplace é ilegalmente utilizado por terceiros para venda de medicamentos”. A entidade também classificou como “curioso” que o Mercado Livre consiga controlar “a venda de armas, munições e drogas ilícitas, mas não tenha qualquer controle sobre a comercialização de medicamentos”.
Assaí estrutura ecossistema com foco em saúde
No varejo alimentar, o Assaí avança de forma igualmente estratégica em meio a um embate de anos que envolve a venda de medicamentos isentos de prescrição em supermercados. A companhia anunciou a criação do Mundo Saúde, um projeto que integra farmácias, marcas próprias e serviços financeiros dentro de um ecossistema voltado à conveniência e à recorrência de consumo.
De acordo com Sérgio Leite, diretor executivo de Novos Negócios e Inovação e também ouvido pelo Neofeed, a iniciativa nasce da leitura do comportamento do consumidor. “Temos um olhar muito atento ao cliente e entendemos que é hora de nos transformarmos novamente e trazermos essas novidades”, comenta.
As farmácias devem operar em áreas segregadas das lojas, respeitando o modelo regulatório atual. O sortimento inclui medicamentos de prescrição, MIPs, produtos de higiene, dermocosméticos e perfumaria, além de integração com canais digitais e serviços financeiros próprios.
A varejista também acompanha de perto a tramitação do PL 2.158/2023, aprovado em setembro. O novo texto proíbe a venda direta em gôndolas, mas autoriza a instalação de farmácias ou drogarias completas dentro de supermercados. Esses PDVs deverão ser fisicamente separados das demais áreas do estabelecimento e seguir todas as normas sanitárias da Anvisa. Caso o ambiente regulatório evolua, o Assaí estaria posicionado para ampliar sua atuação no segmento.
Reformulação do projeto teve pressão do setor farmacêutico
O texto aprovado foi, em parte, bem recebido pelas principais entidades do setor farmacêutico. Para a Abrafarma, a proposta representa um avanço importante em relação ao projeto original, que autorizava a venda de medicamentos isentos de prescrição nas gôndolas de supermercados, como qualquer produto e sem qualquer cuidado de armazenamento, controle e manipulação.
Segundo a nota divulgada pela entidade, o substitutivo do senador Humberto Costa atendeu a pontos fundamentais levantados pela Abrafarma, que envolve o respeito a normas sanitárias, assistência do farmacêutico de forma contínua, garantia de segurança e rastreamento dos medicamentos.
“Outro ponto positivo é que a proposta final aprovada pelo Senado abre oportunidade de parcerias entre as redes de farmácia e setor supermercadista, em especial para aqueles que não optarem por explorar a venda de medicamentos com bandeira própria”, afirma Mena Barreto.
Para Rafael Espinhel, presidente executivo da ABCFarma, o que antes se configurava como uma proposta de venda indiscriminada de medicamentos isentos de prescrição, inclusive com possibilidade de gôndolas e sob um conceito amplo de ‘estabelecimentos congêneres’ aos supermercados, foi transformado em um texto mais equilibrado, fruto de intenso diálogo institucional conduzido pelas entidades do varejo farmacêutico.
“O relatório traz elementos importantes, como a necessidade de segregação física e funcional das farmácias dentro dos supermercados, o que reforça as regras sanitárias, fortalece a farmacovigilância e assegura a centralidade do profissional farmacêutico no processo de dispensação. Esses elementos reduzem riscos e contribuem para preservar a farmácia como espaço de saúde”, afirma.
Ainda assim, ele alerta para temas que permanecem sem solução. Um deles é a identidade fiscal das operações realizadas dentro dos supermercados. “Esse ponto precisa ser analisado com atenção pela Câmara dos Deputados, pois é essencial para distinguir a atividade típica da farmácia daquela exercida pelo supermercado, evitando distorções concorrenciais”, ressalta.
A ABCFarma defende que o equilíbrio do setor depende do reconhecimento da diversidade do varejo farmacêutico, garantindo condições isonômicas para diferentes perfis de farmácias, especialmente as pequenas e independentes, que têm papel fundamental na assistência à população.
“Seguiremos atuando de forma construtiva e técnica para que o texto final concilie inovação, segurança regulatória e equilíbrio concorrencial, fortalecendo o setor e protegendo o interesse público”, complementa Espinhel.
O presidente da Febrafar, Edison Tamascia, ressalta que o Brasil já conta com uma extensa rede de farmácias e drogarias, capaz de atender à população com qualidade e capilaridade. “Essa estrutura cumpre papel fundamental no cuidado farmacêutico e na promoção da saúde pública”, afirma. Tamascia reforça que a Febrafar considera a saúde um tema sério, que não pode ser tratado como mercadoria, e defende o acesso seguro, responsável e qualificado aos medicamentos. “A ampliação dos pontos de venda não pode ocorrer à custa da segurança sanitária nem da assistência farmacêutica adequada”, acrescenta.
André Bedran Jaber, do departamento jurídico do Sincofarma/SP, avalia positivamente, mas com ressalvas. “Estipulando que a farmácia em supermercados deve seguir as mesmas regras que as demais, previstas na legislação, entendemos que ocorreu uma boa evolução, observando o texto inicial proposto. Mas ainda devem ser feitos alguns ajustes, acerca da questão fiscal e sanitária, que poderão ser feitos na Câmara dos Deputados”.
A ofensiva de Mercado Livre e Assaí ocorre em um momento em que o varejo farmacêutico já avança em digitalização, omnicanalidade e serviços clínicos. A chegada de novos players pode acelerar a eficiência e ampliar o acesso, mas também impõe desafios regulatórios relevantes.