Menor taxa de desemprego não evita problemas para contratar
“Engenharia de pessoas” surge como solução durante a escassez de mão de obra qualificada
por Gabriel Noronha em
Mesmo com o Brasil encerrando 2025 com a menor taxa de desemprego da série histórica, de 5,6%, diversas companhias têm enfrentado dificuldades na contratação de novos profissionais. O cenário, classificado como “pleno emprego” pela PNAD Contínua do IBGE, acaba mascarando a lacuna existente na mão de obra qualificada no país, o que gera bolsões de escassez em posições estratégicas.
“A fotografia macro mostra um país com vagas. Já o raio-X interno revela que falta gente qualificada. É uma crise de competência”, avalia Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, PhD pela Unicamp e gestor de carreiras.
Empresas evitam trocas, mesmo com menor taxa de desemprego
Essa dificuldade encarece o processo de contratação e reposição de profissionais. Estima-se que o preenchimento de uma vaga com mão de obra qualificada custe entre nove e 12 salários à empresa.
Por isso, torna-se cada vez mais comum que as companhias não se limitem a trabalhar em favor da retenção dos talentos, mas também adaptem seus métodos de contratação.
A tendência, batizada de “engenharia de gente”, consiste na criação de processos voltados à capacitação de novos contratados, ao mesmo tempo em que a empresa busca evitar o aumento do turnover. “É hora de abandonar a busca pelo currículo perfeito e contratar por perfil, complementando lacunas técnicas em um segundo momento. Isso significa criar condições para que os colaboradores não atravessem a rua por R$ 500 a mais”, reforça.
Capacitação ganha força no varejo farmacêutico
Em um varejo farmacêutico cada vez mais digitalizado, competitivo e orientado por dados, a qualificação das equipes deixou de ser diferencial e tornou-se condição básica para acompanhar o novo comportamento do consumidor. O elemento humano segue sendo determinante para gerar confiança, orientar o paciente, conduzir a venda consultiva e diferenciar uma farmácia da outra.
Esse ambiente acentua um dos maiores desafios das farmácias. O índice de rotatividade pode chegar a até 40% ao ano, o que compromete a continuidade do atendimento, encarece a operação e fragiliza a competitividade.
“Em um setor onde conhecimento técnico e atendimento consultivo importam tanto quanto o sortimento, perder pessoas significa perder performance. E há uma realidade adicional. Treinar gente custa caro, repor gente custa ainda mais, e muitas farmácias independentes simplesmente não têm estrutura para oferecer formações técnicas, trilhas de capacitação, reciclagens ou atualizações clínicas”, crava Ricardo Kunimi, CEO da Farmais e membro da diretoria da Fecofar.
Segundo ele, “o varejo farmacêutico mudou, e quem vai sustentar essa mudança não é o algoritmo mas as pessoas. Atendimento, experiência e confiança são construídos todos os dias no balcão. E isso só existe com equipes bem treinadas”, entende.