Exclusivo: Aché e Eurofarma podem se unir para comprar a Medley
Rumores sobre aliança surgem em meio a uma disputa que tem EMS como favorita e Sun Pharma como opção menos arriscada
por Leandro Luize em e atualizado em
A reta final pela aquisição da Medley ganhou um novo ingrediente nos bastidores. Segundo fontes ligadas às indústrias farmacêuticas que participam da concorrência, o Aché estaria avaliando uma aliança estratégica com a Eurofarma para fortalecer sua posição na disputa pelo ativo da Sanofi.
A tese em circulação seria a formação de um “grande laboratório farmacêutico nacional”, com musculatura suficiente para vencer a concorrência e abocanhar uma fatia relevante do mercado de genéricos. Na prática, a Medley funcionaria como peça-chave de um movimento mais amplo de consolidação doméstica.
Considerando dados da Close-Up Intermational referentes às vendas em farmácias no ano passado, uma eventual união entre Aché e Eurofarma resultaria em uma companhia com R$ 32,8 bilhões em volume de vendas.
Coincidência em não, as duas farmacêuticas foram as que mais cresceram em 2025, considerando o top 7 do setor. O número desbancaria a liderança do Grupo NC, controlador da EMS e hoje com movimentação de R$ 29,1 bilhões.
Cautela no mercado
Apesar do apelo estratégico, as mesmas fontes tratam esse possível namoro com cautela. A integração entre Aché e Eurofarma, por si só, já envolveria desafios societários, culturais e operacionais relevantes. Acrescentar a aquisição da Medley na mesma tacada elevaria significativamente o grau de complexidade da operação. A avaliação predominante é de que a hipótese, embora possível, teria baixa probabilidade de concretização nos moldes especulados.
O processo entrou oficialmente na fase decisiva após as novas exigências impostas pela Sanofi. A multinacional fixou o dia 13 de março como prazo final para o recebimento das propostas vinculantes e estabeleceu condições mais rígidas para o comprador, incluindo a manutenção de cerca de 850 colaboradores por ao menos um ano e um valor mínimo estimado em US$ 500 milhões.
A empresa ganhadora também teria que manter, por pelo menos um ano, a executiva Lucia Rossato como diretora geral. Ela assumiu o cargo em julho de 2025 com a atribuição de assegurar a venda da unidade de genéricos.
A redação do Panorama Farmacêutico contatou as duas farmacêuticas para obter um posicionamento oficial. A Eurofarma declarou que “está sempre atenta a oportunidades estratégicas com foco principalmente nos seus planos de crescimento sustentável e internacionalização. A empresa não tem nenhum comentário a fazer em relação aos temas levantados e, a exemplo de sua prática histórica, manterá uma comunicação transparente com o mercado sempre que firmar acordos relevantes”. Já o Aché não se manifestou até o fechamento da reportagem,
EMS larga na frente
No desenho atual, a EMS desponta como principal candidata. Fontes próximas às negociações atribuem à companhia cerca de 50% de chance de vitória. A leitura é de que a companhia reúne a combinação mais consistente de sinergia logística, capilaridade nacional, força de marca e capacidade de integração rápida. A incorporação da Medley ampliaria sua participação em genéricos e reforçaria o poder de negociação junto a distribuidores e grandes redes de farmácias.
O ponto sensível está na análise do Cade. Uma eventual consolidação entre dois pesos-pesados do segmento exigiria escrutínio detalhado da autoridade antitruste, sobretudo em determinadas classes terapêuticas e regiões. Ainda assim, interlocutores avaliam que a EMS teria disposição para negociar eventuais remédios concorrenciais, caso necessário.
Sun Pharma: capital e menor risco regulatório
Com estimativa de 30% de probabilidade nas apostas do mercado, a Sun Pharma surge como alternativa robusta. A farmacêutica indiana dispõe de capital, apetite por expansão e experiência internacional em aquisições.
O diferencial competitivo, no entanto, pode estar justamente no menor ruído concorrencial. Por não deter posição dominante no mercado brasileiro de genéricos, sua aquisição da Medley tende a enfrentar menos resistência regulatória. Para parte dos analistas, a Sun Pharma representaria a escolha “menos prejudicial” sob a ótica do Cade — fator que pode pesar na balança caso o risco antitruste se torne decisivo.
Com menos de um mês até a entrega das propostas vinculantes, a decisão da Sanofi deve considerar não apenas o maior cheque, mas a combinação entre preço, previsibilidade regulatória e capacidade de execução.