Anvisa detalha os desafios para implementação de IA
Autarquia testa plataformas e chatbots para apoiar decisões regulatórias e monitoramento sanitário
por Gabriel Noronha em
A implementação de soluções de IA na Anvisa tem obrigado a agência a superar inúmeros obstáculos. A diretora-adjunta da autarquia, Elkiane Macedo Rama, detalhou ao Panorama Farmacêutico as etapas de introdução da tecnologia no setor público e os planos de expansão do uso dessas ferramentas.
Entre as dificuldades listadas pela servidora, destacam-se a proibição do uso de sistemas comerciais internacionais, proveniente de uma legislação brasileira que não permite o armazenamento de dados sensíveis do país em ferramentas e bases de dados hospedadas no exterior. Outro entrave é a necessidade de interlocução com outros órgãos do sistema público.“Trabalho na agência há 21 anos e pude acompanhar a ampla transformação digital por que passou e vem passando o serviço público desde então. Naquela época, os processos eram realizados totalmente em papel, sendo substituídos posteriormente pelos peticionamentos eletrônicos e agora pelas IAs”, ilustra a diretora.
Como parte dessa mudança, a Anvisa proporcionou, desde 2023, a formação de 110 especialistas em ciência de dados e inteligência artificial. Os profissionais da agência foram treinados para criar algoritmos e avaliar seus resultados.
Em paralelo, a autarquia está avaliando e incubando os projetos de TCC concebidos durante essas formações, com soluções desenvolvidas pelos próprios servidores. A expectativa é que 100% das propostas sejam incorporadas pela agência até 2027.
Plano de implementação em cinco etapas
De acordo com a servidora, o planejamento da agência para a introdução de novas tecnologias tem cinco pontos fundamentais:
- Desenvolver produtos inovadores para impulsionar entregas e decisões estratégicas, eficiência regulatória e transparência
- Desenvolver talentos e capacidades para enfrentar os desafios na era de dados e IA
- Prover plataformas e serviços para viabilizar uma transformação orientada por dados impulsionados pela IA
- Interoperar as bases de dados prioritários com a RNDS para fortalecer tomadas de decisões baseadas em evidências
- Elevar a maturidade analítica para transformar dados e IA em motores de uma organização data-driven
“Nosso foco é empregar a IA em atividades mais morosas, que envolvem muitos textos e números, e em tarefas como o aperfeiçoamento de documentos regulatórios, aliado à padronização de processos burocráticos”, aponta Elkiane.
Conheça as ferramentas já utilizadas pela agência
A autarquia já opera e supervisiona o desenvolvimento de diversas plataformas de inteligência artificial, utilizadas em atividades como:
- Sugestão de punições em casos de infração em processos sanitários, por meio da consulta de medidas aplicadas anteriormente
- Redação de minutas de decisões e votos
- Criação de painéis automatizados para guiar decisões com base em dados analisados em tempo real
- Identificação de mudanças indevidas em bulas de medicamentos
- Fiscalização e denúncia de propagandas irregulares de produtos na internet
Uma lista de chatbots também já foi utilizada, mas todos se encontram em manutenção atualmente:
- ChatBula – Baseado no bulário da Anvisa, permite a busca de informações em todas as bulas aprovadas
- BotDoc – “ChatGPT” da Anvisa, responde perguntas após ter sido treinado com PDFs de documentos sigilosos da entidade (geralmente utilizado para estudo de reações adversas)
- ChatDOU – Utilizado para otimizar o processo de busca nos registros do Diário Oficial da União
- ChatGGPS – Voltado para a área de RH, foi criado com base nos dados já presentes na agência para auxiliar na otimização de demandas da equipe da autarquia, que sofria com desfalques por aposentadorias
- BotLab – Gera códigos/prompts para uso nos outros ChatBots
Todas essas soluções são avaliadas e implementadas pela Gerência Geral de Conhecimento, Inovação e Pesquisa (GGCIP), necessariamente passando pelo crivo de um dos servidores. “Como a Anvisa lida com aproximadamente 30% do PIB do país, qualquer falha nesse quesito pode se mostrar extremamente prejudicial não apenas para a autarquia, mas também para suas parcerias e, consequentemente, para a população”, reforça. Apesar
Autarquia ainda gerencia projetos de startups brasileiras
Outras ferramentas sob a tutela da autarquia tiveram sua origem em um chamamento para startups criado pelo Ministério de Gestão e Inovação do Governo Federal em 2022.
Entre os projetos submetidos estão o da AvalIA, plataforma que avalia as autorizações de funcionamento de empresas, auxiliando a autarquia na análise das mais de 30 mil petições recebidas anualmente. A implementação dessa ferramenta permitiu que o período mínimo de observação de três semanas caísse para dois a cinco dias.
“Nosso compromisso prioritário é a redução da fila de registros e a otimização do monitoramento de eventos adversos pós-mercado”, finaliza a executiva.