Patente do Ozempic chega ao fim. Quem sairá na frente na corrida do GLP-1?
Perda de exclusividade do blockbuster da Novo Nordisk abre mercado para concorrentes e pode pulverizar ainda mais o faturamento da categoria
por César Ferro em
Esta sexta-feira, dia 20, marca o fim da exclusividade da Novo Nordisk para produzir medicamentos à base de semaglutida. O princípio ativo está presente em sucessos de vendas como Ozempic, Rybelsus e Wegovy.
Com o encerramento da patente, farmacêuticas prometem entrar para valer na disputa desse mercado por meio de genéricos ou similares. Com o aumento da concorrência, a expectativa é que os preços caiam, principalmente por causa dos genéricos, que obrigatoriamente devem ser ao menos 35% mais baratos do que os remédios de referência.
Com preços mais baixos e maior acessibilidade no varejo, o fármaco também poderá ter um caminho mais simples para o fornecimento via SUS. No ano passado, por exemplo, a Conitec deu parecer desfavorável à incorporação da terapia – assim como da liraglutida –, devido ao impacto orçamentário superior a R$ 8 bilhões. A título de comparação, esse montante é quase o dobro do orçamento do Farmácia Popular em 2025.
Para agilizar a chegada de opções mais acessíveis de agonistas de GLP-1, o Ministério da Saúde solicitou à Anvisa prioridade na análise de registros de medicamentos à base de liraglutida ou semaglutida. Ambos os princípios ativos são utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.
Novo Nordisk se diz preparada para o fim da patente do Ozempic
Procurada pelo Panorama Farmacêutico, a Novo Nordisk ressaltou que o encerramento de uma patente é uma etapa natural do ciclo de vida de qualquer inovação. A farmacêutica afirmou estar preparada para atuar com solidez no novo contexto.
“Mais do que responder à competição, a empresa segue investindo em ciência capaz de antecipar necessidades futuras, ampliar possibilidades terapêuticas e gerar valor duradouro para pacientes, profissionais de saúde e sistemas públicos e privados”, declara.
O laboratório também ressalta que o Brasil continua sendo um dos mercados mais estratégicos globalmente e que a fábrica em Montes Claros (MG) – responsável por 25% da produção mundial de insulinas da companhia – também passará a produzir medicamentos injetáveis no futuro. “Esse plano reflete a convicção de que o País seguirá ocupando um papel central na estratégia global da companhia”, completa.
Preços mais acessíveis impulsionarão acesso e margem
O custo elevado configura uma importante barreira ao consumo de agonistas de GLP-1, como a semaglutida. Atualmente, o tratamento mensal varia de R$ 1.000 a R$ 2.000. A situação, porém, deve mudar com o fim da patente do Ozempic e a entrada de versões similares e genéricas.
“A redução de preços é inevitável. Com a queda de R$ 1.000 para R$ 500, o mercado tende a dobrar. Se o preço recuar para R$ 300, a expansão pode quase triplicar. A experiência com a liraglutida, que já conta com o genérico de marca Olire, da EMS, reforça essa expectativa”, destaca o consultor Paulo Paiva.
A margem das farmácias também deve ser positivamente impactada com o aumento de opções. Segundo uma simulação feita por Fernando Ferreira, fundador da Retail Jedi, uma caneta de semaglutida de referência, com custo de fábrica de R$ 1.050 e preço de venda de R$ 1.270, gera margem de 17,3% e lucro bruto de R$ 219,92. Com a chegada do genérico, o custo de aquisição cairia para R$ 682,55 e o preço ao consumidor ficaria em torno de R$ 950, elevando a margem para 28,2% e o lucro bruto para R$ 267,45.
“Isso permite que as farmácias ganhem mais em reais, mesmo vendendo a preços menores, graças à redução do capital imobilizado e ao aumento do volume de vendas”, explica.
Fim da patente do Ozempic pauta disputa nos tribunais
Enquanto diferentes laboratórios se preparavam para lançar versões genéricas do Ozempic, a Novo Nordisk buscava no Judiciário alternativas para proteger sua principal fonte de receita.
No Legislativo, a farmacêutica apoiou um projeto de lei que poderia estender por cinco anos seus direitos sobre o medicamento, sob o argumento de que o INPI, órgão responsável pela análise de patentes, teria permanecido inerte por quase oito anos.
O PL 5810/2025 foi o movimento mais recente da companhia para compensar o período que alega ter perdido. Em novembro do ano passado, a empresa apresentou o mesmo pleito ao STJ, que o rejeitou e manteve a data original de vencimento da patente.
O projeto, de autoria dos deputados Capitão Alberto Neto (PL-AM), Dr. Zacharias Calil (União-GO) e Mersinho Lucena (PP-PB), foi apresentado em novembro de 2025. Desde fevereiro, a proposta está em análise pela Comissão de Indústria, Comércio e Serviços, em tramitação ordinária.
Farmacêuticas aquecem os motores
As farmacêuticas já tomaram suas posições para o que será a largada da corrida pelos genéricos do Ozempic. Um dos primeiros laboratórios nacionais a se mexer foi a EMS. A companhia investiu mais de R$ 1 bilhão em sua planta de Hortolândia (SP) para produzir a semaglutida. Com o medicamento, a empresa projeta faturar US$ 4 bilhões (cerca de R$ 21 bilhões) no médio prazo, entre vendas no Brasil e no exterior.
A Cimed também promete levar a “canetinha amarela” às farmácias assim que encerrada a exclusividade. A farmacêutica projeta 150 novos produtos nos próximos cinco anos, investindo R$ 2 bilhões para alcançar R$ 10 bilhões de receita até o fim da década.
Outros candidatos a essa disputa são a Hypera; a Biomm, por meio de acordo com a indiana Biocon; e a Nexus, que investiu R$ 60 milhões para instalar uma fábrica em Sorocaba (SP), com foco no GLP-1.Quem resolveu pegar um “atalho” foi a Eurofarma. O laboratório brasileiro firmou parceria com a Novo Nordisk para distribuir e promover novas marcas de semaglutida biológica no Brasil.
Em 2023, o Ozempic registrou R$ 3,1 bilhões em vendas, o maior faturamento anual já alcançado por um remédio no país. O setor de canetas injetáveis para o controle metabólico movimenta aproximadamente R$ 11 bilhões por ano. Com a oferta de genéricos, especialistas estimam que esse montante quase dobrará já em 2026, alcançando R$ 20 bilhões.
PróGenéricos ressalta dificuldades para lançar versão
A PróGenéricos classificou o fim da patente do Ozempic como “um marco relevante para a ampliação do acesso a tratamentos”. Apesar do otimismo, a entidade ressalta que o encerramento da exclusividade não implica a entrada imediata de versões genéricas ou biossimilares.
“A expiração da patente é uma condição necessária, mas representa um dos pontos de partida de uma jornada complexa que envolve o desenvolvimento, a fabricação e a comercialização do medicamento. No caso da semaglutida, esse processo inclui desafios científicos e regulatórios significativos”, pondera o presidente executivo Tiago de Moraes Vicente.
Ainda na visão de Vicente, embora a indústria já esteja se preparando, não é possível prever com exatidão quando esses produtos chegarão ao mercado.
Grupo FarmaBrasil acredita no potencial da indústria nacional
Em 2024, o mercado farmacêutico brasileiro movimentou cerca de R$ 160,7 bilhões, com a comercialização de mais de 6 bilhões de unidades. Para Adriana Diaféria Marwell, vice-presidente executiva do Grupo FarmaBrasil, esses números mostram que a indústria nacional pode se adaptar com agilidade a esse novo cenário.
“Essa escala permite a rápida absorção de medicamentos genéricos e similares, criando condições concretas para a entrada simultânea de múltiplos produtores de semaglutida após o término da patente”, opina.
De acordo com a executiva, esse processo é potencializado pela capacidade produtiva das empresas brasileiras, responsáveis pela fabricação de 58,1% dos medicamentos consumidos no País. “Assim, a entrada de genéricos não é apenas uma expectativa, mas uma possibilidade concreta de produção em larga escala, com efeitos diretos sobre o acesso da população”, finaliza.