Onze farmacêuticas ocupam clube do bilhão de dólares
Número de corporações com faturamento bilionário no mercado brasileiro, considerando valores em dólar, tem salto de 57% em um ano
por Ana Claudia Nagao em
O mercado farmacêutico brasileiro atravessa uma transformação sem precedentes, marcada por uma aceleração vertiginosa no faturamento das grandes corporações. Estudo da IQVIA revela o chamado “clube do bilhão”, formado por corporações que alcançaram cifras bilionárias em faturamento (preço lista dólar constante) nos últimos 12 meses até janeiro de 2026.
E a lista aumentou de forma expressiva. Em 2025, havia sete empresas nesse patamar. Agora esse número saltou para 11, um aumento de 57,14%. As corporações que compõem esse grupo de elite são NC Farma (EMS), Eurofarma, Hypera Pharma, Cimed, Aché, Sanofi, Novo Nordisk, Teuto, Lilly, União Química e Biolab.
Juntas, essas farmacêuticas exercem um domínio esmagador, ditando o ritmo de inovações, preços e distribuição em todo o território nacional.
O clube do bilhão e sua escalação de 1 a 11
(Preço lista dólar constante em bilhão de US$ + aumento %)

“Esse fenômeno não é apenas um crescimento orgânico, mas uma reconfiguração estrutural do setor. A entrada de quatro empresas no clube do bilhão em apenas 12 meses demonstra como o consumo de medicamentos e produtos de saúde no Brasil escalou para um novo patamar de valor agregado”, avalia Fernando Ferreira, consultor de varejo e fundador da Retail Jedi.
Lilly entra para o clube do bilhão
O caso mais emblemático dessa transformação é, sem dúvida, o da Lilly. Em um movimento que pode ser descrito como uma das ascensões mais rápidas da história do varejo farmacêutico brasileiro, a companhia saltou da 56ª posição em 2025 para a nona colocação. O crescimento foi de surreais 707,29%, elevando o faturamento de aproximadamente US$ 131 milhões (R$ 655 milhões) para mais de US$ 1,06 bilhão (R$ 5,47 bilhões).
“Essa guinada foi impulsionada quase inteiramente pela revolução dos medicamentos análogos de GLP-1, como o Mounjaro, que transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes em um mercado de massa de altíssimo valor”, ressalta Ferreira. Segundo ele, a Lilly, que antes ocupava uma posição periférica no ranking de faturamento total de varejo, agora senta-se à mesa com os maiores players nacionais e multinacionais.
Concentração do mercado
A soma do faturamento acumulado dessas 11 líderes atinge a marca de US$ 127, 84 bilhões (R$ 659,42 bilhões), contra US$ 238,29 bilhões (R$ 1,23 trilhão) das 100 corporações listadas no ranking, uma concentração de 53,6% de toda a receita do mercado farmacêutico nacional. Esse fenômeno não é apenas um crescimento orgânico, mas uma reconfiguração.
A concentração de mercado torna-se evidente quando observamos que as cinco primeiras colocadas – NC Farma, Eurofarma, Hypera, Cimed e Aché – já operam em patamares que variam de US$ 1,7 bilhão (R$ 8,77 bilhões) a US$ 5 bilhões (R$ 25,8 bilhões) de faturamento anual. A NC Farma (Grupo EMS) mantém a liderança isolada, sendo a primeira a romper a barreira dos US$ 5 bilhões (R$ 25,8 bilhões), com um crescimento sólido de 7,45%.
Logo atrás, a Eurofarma apresenta um desempenho vigoroso de 18,18%, consolidando-se como a segunda força do mercado com US$ 4,1 bilhões (R$ 20,5 bilhões). Esse distanciamento entre as líderes e o restante do mercado cria uma barreira de entrada e de competição cada vez mais alta para laboratórios de médio porte.
Outro ponto de destaque nessa nova configuração é a performance da Teuto, que também rompeu a barreira do bilhão com um crescimento de 21,38%, saltando da 10ª para a oitava posição. “O avanço da Teuto, somado à resiliência da União Química e da Biolab, reforça a resiliência da indústria nacional e dos medicamentos genéricos e similares de alto giro”, acrescenta Ferreira.
No entanto, a entrada de multinacionais focadas em inovação disruptiva, como a Novo Nordisk (sétima posição com US$ 1,3 bilhão/ R$ 6,71 bilhões) e a própria Lilly, mostra que o mercado brasileiro está sendo disputado em duas frentes – a do volume e acessibilidade (liderada pelas nacionais); e a da inovação terapêutica de alto custo (liderada pelas globais).
Para o dono de farmácia independente, a concentração traz desafios e oportunidades. Por um lado, a dependência de um número menor de fornecedores bilionários exige uma gestão de compras mais estratégica e um olhar atento às políticas comerciais dessas gigantes.
Por outro lado, o crescimento explosivo de categorias como a de perda de peso e tratamentos crônicos modernos abre margens para serviços farmacêuticos diferenciados. “O mercado está ficando maior, mais denso e polarizado. Estar atento a essa movimentação é fundamental para entender para onde o capital e a demanda do consumidor brasileiro estão migrando em 2026”, acrescenta.
Ranking pode não mostrar a realidade do mercado
Vale observar que a análise em dólar constante não representa a “receita líquida” real que entrou no caixa da farmacêutica, uma vez que não reflete os agressivos descontos concedidos pelo varejo (sell-out). André Reis, CEO da Repfarma e analista da seção Painel da Indústria, do Panorama Farmacêutico, é da mesma opinião.
“A adoção de preços de lista desconsidera os descontos aplicados aos distribuidores, o que distorce significativamente os resultados”, afirma. Segundo ele, existem três principais tipos de rankings no setor: por unidades, por preço de lista e por preço com desconto. O ranking por unidades, embora comum, equipara produtos de valores muito distintos, enquanto o de preço de lista é considerado pouco confiável.
Já o ranking baseado em preços reais com desconto foi apontado como o mais fiel à realidade do mercado brasileiro. Apesar disso, ele reconheceu que, em situações específicas – como na análise de empresas focadas em medicamentos genéricos, com grande volume de vendas -, o critério por unidades pode ser útil.