Pesquisa mira cannabis adaptada ao Brasil
Projeto liderado pela Embrapa aposta em genética, manejo e cadeia produtiva nacional, com projeção de custos reduzidos aos pacientes
por Leandro Luize em
A estruturação de uma cadeia produtiva nacional de cannabis medicinal começa a ganhar tração no Brasil com um projeto inédito conduzido pela Embrapa. A iniciativa busca desenvolver cultivares adaptadas às condições brasileiras, com potencial de reduzir a dependência de insumos importados e, consequentemente, tornar mais acessíveis os tratamentos à base da planta.
O projeto está sendo conduzido pela unidade Clima Temperado, em Pelotas (RS), e integra diferentes frentes de pesquisa, combinando melhoramento genético, práticas agronômicas, pós-colheita e inteligência estratégica. A proposta surge em um momento de avanço regulatório, no qual o país começa a abrir espaço para o cultivo controlado com fins medicinais e farmacêuticos.
Genética nacional e autonomia produtiva
Um dos pilares da iniciativa está no desenvolvimento de variedades adaptadas às condições edafoclimáticas do Brasil – hoje um dos principais gargalos para o avanço da produção local. “Atualmente, o cultivo depende integralmente de sementes importadas, o que limita a autonomia do setor”, relatou a pesquisadora da Embrapa, Beatriz Marti Emygdio, em entrevista ao jornal A Hora do Sul.
Além da genética, o projeto também se debruça sobre práticas de manejo e controle fitossanitário. A cannabis pode ser cultivada em diferentes sistemas, de campo aberto a ambientes controlados, e cada modelo exige protocolos específicos.
Outro eixo relevante envolve o pós-colheita, com estudos sobre secagem, armazenamento e extração de compostos. Esses processos são críticos para assegurar padronização e eficiência, especialmente em aplicações farmacêuticas.
Bioeconomia e impacto no acesso
O projeto também amplia o olhar para além do uso medicinal tradicional, explorando o aproveitamento integral da planta. Enquanto as flores concentram os compostos terapêuticos, folhas, caules e raízes podem ser utilizadas em segmentos como o de cosméticos. “Existe um potencial muito grande de aproveitamento desses coprodutos, o que pode fortalecer uma bioeconomia integrada”, enfatiza a pesquisadora.
Hoje, cerca de 900 mil brasileiros utilizam cannabis medicinal, mas a dependência de insumos importados ainda pressiona os preços. Com o avanço da regulamentação e o desenvolvimento de uma base produtiva local, a expectativa é de impacto direto no acesso aos tratamentos. “O principal resultado esperado é a redução de custos dos produtos”, projeta.
A pesquisa, aprovada pela Finep no fim de 2025, está em fase de estruturação de laboratórios e áreas de cultivo, além da definição dos primeiros materiais genéticos e sistemas de rastreabilidade. O início efetivo das atividades depende da liberação de recursos, mas já sinaliza um novo passo rumo à industrialização da cannabis medicinal no Brasil.