Novas estratégias ampliam serviços clínicos em farmácias
Plataformas digitais e programas de fidelização impulsionam aplicação de vacinas e testes rápidos, que, por sua vez, requalificam o varejo farmacêutico
por Márcia Arbache em
A farmácia brasileira deixou de ser apenas um ponto de dispensação de medicamentos para se consolidar como o primeiro nível de atenção à saúde da população por meio dos serviços clínicos. Essa evolução, impulsionada por mudanças regulatórias e pelo novo comportamento do consumidor, reposiciona o varejo farmacêutico como um elo essencial entre a indústria, as operadoras de saúde e o paciente final.
A avaliação é de Carlos Rosauro, diretor da unidade de varejo da Interplayers. Segundo ele, durante muitos anos, o sucesso de uma farmácia foi medido pela profundidade do estoque e pela eficiência logística. “Hoje, essa lógica mudou. A métrica de valor migrou para a resolutividade, a capacidade de apoiar o cuidado com a saúde de forma prática, acessível e contínua’’, afirma.
Serviços clínicos ampliaram o papel da farmácia
É nesse contexto que surge o conceito de hub de saúde, no qual a farmácia passa a oferecer serviços clínicos como aplicação de vacinas, testes rápidos, acompanhamento de doenças crônicas (como diabetes e hipertensão) e revisão de polifarmácia, contribuindo para desafogar os sistemas público e privado.
Rosauro destaca que, na prática, o impacto é imediato. Em testes de perfil lipídico e aferição da pressão arterial, por exemplo, a farmácia atua de maneira preventiva, favorecendo a detecção precoce de condições de risco e orientando o paciente a buscar acompanhamento médico quando necessário. “Esse movimento reduz filas em postos de saúde, evita internações futuras e contribui para diminuir os custos com tratamentos mais complexos’’, enumera.
Programas reforçam vínculo com clientes
O executivo pontua que um dos pilares estratégicos das farmácias que evoluem para o conceito de Hub de Saúde são os Programas de Benefício de Medicamentos (PBMs). Mais do que instrumentos de desconto, essas iniciativas assumem função central na construção do relacionamento com o consumidor. “Isso reforça a percepção de um estabelecimento comprometido com o cuidado integral da sua saúde’’, acrescenta.
Sob esse aspecto, o Portal das Drogarias, gerenciado pela Interplayers, é uma plataforma estratégica. Ela reúne diversos programas de benefício, permitindo que as farmácias acessem, em um único ambiente, uma variedade de vantagens oferecidas pela indústria farmacêutica. “Trata-se do maior autorizador de PBM do mercado brasileiro, com mais de 45 mil PDVs atendidos em todo o país’’, ressalta o diretor.
PBMs possibilitam acompanhamento da jornada
Do lado da indústria farmacêutica, os PBMs permitem acompanhar a jornada do paciente e sua adesão ao tratamento. Se bem estruturados e geridos, tornam-se uma poderosa fonte de dados para ações como renovação de receitas, estímulo à recorrência de compra, ofertas personalizadas de produtos complementares e maior previsibilidade de demanda. “Ao mesmo tempo, fortalecem a parceria com o varejo”, salienta.
Para ele, a tendência da farmácia moderna é se consolidar como o verdadeiro braço capilar da saúde no Brasil. São mais de 90 mil estabelecimentos espalhados pelo país, que chegam a regiões onde hospitais e clínicas nem sempre estão presentes.
O executivo observa ainda que, muitas vezes, a farmácia é o único ponto de contato frequente com serviços de saúde para inúmeras famílias brasileiras. Nesse contexto, “cabe ao proprietário definir estrategicamente o papel do seu estabelecimento, adotando a ótica do consumidor’’. E provoca: “Quando o cliente precisa de cuidado, minha loja é a primeira escolha?’’, conclui.
Oferta de serviços cresceu
O avanço dos serviços clínicos no varejo farmacêutico já é realidade na rede de Farmácias São João, e a vacinação é um dos pilares dessa transformação. A varejista vem ampliando a oferta de imunização em suas unidades, acompanhando a crescente demanda por conveniência, prevenção e acesso facilitado.
Segundo Nicole Lima, coordenadora de suporte técnico farmacêutico da companhia, a aplicação de vacinas é oferecida há cerca de seis anos, com expansão estratégica e gradual. “A vacinação exige uma estrutura específica, como consultório adequado, câmara de conservação e profissionais capacitados. Por isso, não está presente em todas as lojas”, explica.
Atualmente, a companhia conta com cerca de 1.250 pontos de venda, dos quais 110 oferecem vacinação. Já os serviços farmacêuticos mais básicos – como aplicação de injetáveis, aferição de pressão arterial e exames rápidos – estão presentes na maioria das unidades, muitas delas equipadas com consultórios farmacêuticos.
Conscientização da população foi fator determinante
De acordo com a executiva, houve crescimento de 110% na demanda por vacinas entre 2024 e 2025. Esse avanço está diretamente ligado a fatores epidemiológicos e ao aumento da conscientização da população. “Quando há surtos, como ocorreu com a dengue, as pessoas passam a valorizar mais a prevenção’’, afirma.
Outro fator relevante é a ampliação do portfólio de vacinas disponíveis no setor privado, especialmente para o público adulto e idoso – segmento que historicamente apresenta menor cobertura fora do sistema público.
Vacinas privadas têm papel importante na proteção
Embora o Programa Nacional de Imunizações (PNI) ofereça ampla cobertura gratuita, as vacinas disponíveis na rede privada podem trazer diferenciais importantes. Em alguns casos, a proteção é mais abrangente ou direcionada a públicos específicos. Entre os exemplos citados estão:
- Vacina contra herpes-zóster
- Vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR)
- Vacinas pneumocócicas mais completas
- Vacina da gripe com maior concentração antigênica, voltada para idosos
“Com o envelhecimento, o organismo responde de forma diferente. Por isso, algumas vacinas exigem formulações específicas para garantir a eficácia”, destaca a especialista.
Vacinação também fortalece a farmácia
Além do impacto em saúde pública, a vacinação também traz benefícios para o negócio. Consumidores que utilizam esse serviço tendem a frequentar mais as farmácias. “A recorrência é até cinco vezes maior em alguns períodos. Em média, o público vacinado retorna de duas a três vezes mais do que o tradicional”, afirma.
A São João também investe em parcerias com laboratórios para oferta de exames, inclusive com unidades anexas às farmácias em cidades como Porto Alegre (RS) e Passo Fundo (RS). Nesses casos, embora os serviços sejam operados por empresas distintas, a integração facilita o acesso, permitindo que o paciente adquira exames na drogaria e os realize em unidades parceiras.