Brasil não poderá fabricar genérico para HIV
Gilead Sciences optou por não licenciar produção no país
por César Ferro em
O Brasil não contará, por ora, com um genérico para HIV, mais precisamente do lenacapavir, medicamento injetável da Gilead Sciences. Apesar de licenciar a produção de fórmulas genéricas do remédio em 120 nações consideradas mais vulneráveis, a farmacêutica não estenderá a prática ao País. As informações são da Folha de S. Paulo.
Na visão do laboratório, o Brasil tem capacidade de financiar a saúde pública – apesar do número de infecções por HIV – e, por isso, a política de acesso ao fármaco passa por outras estratégias. Divergindo da opinião da companhia, a ausência de um genérico pode inviabilizar a oferta por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
Como um remédio chega ao SUS?
O caminho regulatório do lenacapavir pode ser usado como exemplo do processo de incorporação de medicamentos ao SUS. Na segunda-feira, dia 12, a injeção foi aprovada pela Anvisa.
Apesar da liberação pela agência reguladora, o medicamento ainda não pode entrar no mercado: é necessário que o preço máximo a ser praticado seja definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Com o preço determinado, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e o Ministério da Saúde avaliarão a incorporação do remédio ao sistema, levando em conta custo, benefício e a oferta de outros tratamentos para a doença.
Genérico para HIV poderia baratear tratamento
Segundo Beatriz Grinsztejn, presidente da International AIDS Society e pesquisadora principal do projeto de viabilidade e implantação do lenacapavir no Brasil, conduzido pela Fiocruz, o preço do medicamento pode ser um impeditivo à distribuição pelo SUS. Atualmente, o tratamento custa até US$ 44,8 mil (cerca de R$ 241,2 mil) por ano nos Estados Unidos.
De acordo com um estudo publicado em junho de 2025 na revista científica Lancet, se o remédio fosse produzido por outros laboratórios, o custo poderia cair para algo entre US$ 25 e US$ 47 (de R$ 134 a R$ 253) ao ano. “É um absurdo e uma tristeza. Um país com essas dimensões não poderia ter ficado de fora dessa lista de genéricos. Com certeza isso pode ser um problema no momento de avaliar a viabilidade para distribuição no SUS”, afirma.
Medicamento é inibidor do capsídeo do HIV
O lenacapavir é um inibidor do capsídeo, estrutura considerada uma espécie de ‘casca’ do HIV. É essa estrutura proteica a responsável por proteger o material genético do vírus e possibilitar sua reprodução no organismo.
O medicamento se liga diretamente a essa estrutura e desregula seu funcionamento. Assim, a abertura do capsídeo ocorre cedo ou tarde demais, o que impede o correto funcionamento do RNA viral. O mecanismo de ação é considerado inovador, uma vez que essa ‘casca’ é menos suscetível a mutações do que as enzimas-alvo das PrEPs atuais. A aplicação é semestral.